Joh Fredersen, Rotwang e o robô que recebe a aparência de Maria em cena de “Metropolis”.Belas Artes À La Carte / Divulgação
Em 1927, H.G. Wells saiu da sessão de Metropolis (1927) indignado. O escritor de A Máquina do Tempo (1895) e A Guerra dos Mundos (1898) publicou no New York Times que acabara de assistir ao filme mais idiota que já tinha visto e que duvidava ser possível fazer um ainda mais idiota.
Entre os absurdos de Fritz Lang, segundo Wells, estavam os arranha-céus monumentais e aquela sociedade espremida verticalmente, com os poderosos instalados no alto e uma massa de trabalhadores desaparecendo debaixo da terra. A história acabou sendo mais gentil com Lang do que com seu crítico. Hoje, é difícil imaginar a ficção científica sem a cidade que Wells considerou tão disparatada.
É esse filme que poderá ser visto de graça nesta quinta-feira (10), às 17h, no Cine Cinco, na PUCRS, em Porto Alegre. A sessão de Metropolis (1927) terá comentários do professor Fernando Bakos e faz parte da programação especial que aproxima filmes dos cursos da Escola de Comunicação, Artes e Design (Famecos).
Uma cidade que o cinema nunca abandonou
Lang dizia que a ideia para Metropolis havia surgido quando viu Nova York pela primeira vez, do mar. Levou aquele impacto para o extremo. Na cidade do filme, os ricos burgueses ocupam jardins e edifícios nas alturas, enquanto os trabalhadores vivem abaixo do chão, onde seus corpos mantêm funcionando as máquinas que sustentam tudo lá em cima.
Cenários monumentais e miniaturas ajudaram Fritz Lang a construir a cidade futurista do filme.Belas Artes À La Carte / Divulgação
Rumo a esse subterrâneo desce Freder (interpretado por Gustav Fröhlich), filho de Joh Fredersen (Alfred Abel), o homem que comanda a metrópole. Lá encontra os operários e se aproxima de Maria (Brigitte Helm), que prega uma reconciliação entre as duas classes. O inventor Rotwang (Rudolf Klein-Rogge), porém, cria uma versão mecânica dela e lhe dá a aparência da jovem. A falsa Maria é enviada à cidade para provocar justamente aquilo que a verdadeira tenta impedir.
O robô, as engrenagens, as multidões coreografadas e principalmente aquela floresta de prédios atravessaram o século. A cidade de Blade Runner (1982) tem uma dívida assumida com Metropolis; Brazil (1985), de Terry Gilliam, voltou aos mesmos espaços industriais e opressivos. David Bowie ficou tão impressionado com o filme que o assistiu repetidamente em casa antes de criar o universo distópico de Diamond Dogs.
Brigitte Helm interpreta Maria e sua versão artificial no clássico lançado em 1927.Belas Artes À La Carte / Divulgação
Essa é uma influência um pouco diferente daquela em que basta localizar uma referência ou uma homenagem. Algumas imagens de Metropolis foram tão copiadas que deixaram de parecer propriedade de um filme de 1927. Viraram simplesmente uma das maneiras que temos até hoje de desenhar uma cidade do futuro.
Um futuro chamado 2026
Na remontagem de Metropolis lançada por Giorgio Moroder em 1984, a história foi situada em 2026. A coincidência ganha interesse porque o filme entende a máquina sobretudo pelo efeito que ela exerce sobre quem trabalha. Os operários continuam indispensáveis, embora já tenham o tempo e os movimentos determinados por aquilo que operam. Lang percebe que uma tecnologia pode mudar o trabalhador sem precisar substituí-lo.
O filme se torna menos convincente quando tenta resolver o mundo que construiu. Depois de organizar a cidade pela distância entre quem comanda e quem executa, Lang aposta numa reconciliação entre os dois lados, expressa no célebre encontro entre “cabeça” e “mãos”. Anos depois, o próprio diretor trataria essa solução como um conto de fadas.
Programe-se
- O quê: Metropolis (1927), de Fritz Lang
- Quando: quinta-feira (10), às 17h
- Onde: Cine Cinco, prédio 5 da PUCRS (Avenida Ipiranga, 6.681)
- Quanto: entrada gratuita
- Duração: 150 minutos
- Classificação: livre
- Sessão comentada por: Fernando Bakos
*Sob supervisão do jornalista Ticiano Osório, titular desta coluna.
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