São Paulo

O privilégio econômico está diretamente ligado ao patriarcado. É o que argumenta o diretor Karim Aïnouz em entrevista por escrito à Folha sobre seu novo filme, “Rosebush Pruning”. Esse é o segundo projeto em língua inglesa do cineasta cearense e conta com um elenco de peso, formado por nomes como Callum Turner, Pamela Anderson e Elle Fanning.

Cinco pessoas posam em um canto com paredes de madeira. Uma mulher de vestido floral vermelho e preto está em pé à esquerda, segurando a mão de um homem de camiseta preta. Outra mulher, sentada em cadeira, veste vestido azul e verde. Dois homens estão em pé atrás dela, um com casaco escuro e outro com camisa amarela listrada. O homem sentado usa óculos escuros e roupa marrom.

Cena de ‘Rosebush Pruning’, novo filme de Karim Aïnouz

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Divulgação

Após a passagem pelo Festival de Berlim, onde figurou na competição principal, o título abre o festival Open Air, cinema ao ar livre itinerante que traz a São Paulo uma tela de 325 m², tamanho equivalente a uma quadra de tênis.

O festival se estende até o dia 18 de outubro com sessões de filmes como “Michael”, “A Odisseia”, “O Diabo Veste Prada 2” e o terror “Obsessão”. Além dos lançamentos, também será possível descobrir ou rever títulos clássicos, caso de “Thelma e Louise”, da animação japonesa “Akira” e de “Kill Bill: Todo Sangue Derramado”, versão estendida da saga de Quentin Tarantino de Quentin Tarantino

A sessão de abertura com “Rosebush Pruning” é gratuita e acontece nesta terça-feira (6), às 19h, no Jockey Club, região oeste da capital paulista. Os ingressos para a exibição já estão esgotados, mas o filme chega ao circuito comercial logo mais, no dia 15 de outubro.

O filme adentra a casa de uma família americana excêntrica que vive isolada em uma mansão na Catalunha, na Espanha. A rotina hedonista baseada na validação que recebem uns dos outros é ameaçada quando Jack, o irmão mais velho, apresenta a noiva e revela planos de sair de casa.

A inspiração para a sátira veio do clássico “De Punhos Cerrados”, dirigido por Marco Bellocchio e lançado em 1965, que analisa a elite burguesa italiana. Aïnouz atualiza a crítica para o contexto contemporâneo. “O que mudou na maneira de representar essas elites e o privilégio econômico de lá para cá, especificamente em ‘Rosebush Pruning’, é a vontade de trazer outro elemento para essa equação: o patriarcado”.

Essa não é a primeira vez que o cineasta aborda o tema do patriarcado. Desde “A Vida Invisível”, de 2019, ele observa como as estruturas patriarcais “não são simplesmente corrosivas, mas destrutivas”. Sua filmografia também destacou o tema em diversas ambientações e personagens desde a Inglaterra do século 16 em “Firebrand”, seu primeiro filme de língua inglesa, até o litoral do Ceará em “Motel Destino”.

Junto dessas duas obras, “Rosebush Pruning” embala o que ele classifica como uma trilogia sobre o assunto. “O filme trata de como o acúmulo de riqueza está ligado ao patriarcado e de como o patriarcado está ligado a uma espécie de prática de abuso: tanto abuso de poder, quanto abuso sexual e abuso não necessariamente físico, mas psicológico”, afirma Karim, que é um dos nomes do audiovisual brasileiro de maior projeção internacional da atualidade.

No longa, algumas cenas podem chocar espectadores. Uma alcateia devorando um cordeiro em cima de uma lápide no meio da floresta ou um homem levando os dedos ensanguentados da namorada à boca depois de ela tê-los passado nas partes íntimas são exemplos.

“Eu aposto no choque, no humor e no desconforto como elementos que façam com que, depois de assistir ao filme, as pessoas se questionem sobre o que acabaram de ver e, de alguma maneira, sobre o mundo em que estão vivendo”, defende sobre suas escolhas criativas.

Homem de cabelo escuro, óculos e bigode está sentado atrás de um balcão de recepção com campainha. Ao fundo, há um expositor de cartões postais e janelas com vitrais coloridos.

Colin Farrel em cena do filme ‘O Lagosta’

O tom absurdo pode lembrar filmes ácidos como “Dente Canino”, “O Lagosta” ou “O Sacrifício do Cervo Sagrado”. Não é à toa. Todos eles têm texto do roteirista grego Efthimis Filippou, conhecido por sua colaboração com Yorgos Lanthimos. “Rosebush Pruning” é a primeira parceria do escritor com Aïnouz.

A trama, sobre uma família abastada e materialista, também se soma a uma tendência cultural moderna: o fascínio pelos super-ricos. “Parasita”, “Triângulo da Tristeza” e as séries “Succession” e “The White Lotus”, aclamadas pela crítica em premiações como o Oscar e o Emmy, são algumas das produções que mergulham nesse universo.

“São classes econômicas e grupos sociais que se isolam cada vez mais e, ao mesmo tempo, continuam visíveis nas redes sociais. A gente sempre sabe como essas pessoas estão, o que elas estão fazendo. Existe aí uma contradição que gera uma fricção muito interessante para o filme”, diz.

Ele vê que a desigualdade social intensifica esse interesse popular. “Existe uma espécie de rarefação da renda: algumas pessoas estão ficando muito, muito mais ricas, e outras, mais pobres”, afirma. “Existe aí um abismo muito maior e eu acho que é isso que gera esse desejo de fazer obras que sejam críticas e que sejam uma espécie de lupa sobre esses grupos.”

Open Air Brasil
Jockey Club – av. Lineu de Paula Machado, 1.263, Cidade Jardim, região oeste. De 6 a 18/10.
Rosebush Pruning: grátis, com entradas esgotados.
Ingressos para outras sessões: R$ 100 (inteira) em Sympla. Clientes Nubank possuem 20% de desconto nas entradas.