
Mapa esquemático do distrito de Cooch Behar com os enclaves
É uma matrioska de países: o campo que foi Índia dentro do Bangladesh dentro da Índia dentro do Bangladesh.
Para chegar à capital do seu próprio país, quem vivesse neste pedaço de Índia teria de atravessar quatro fronteiras internacionais.
Era o único enclave de terceira ordem alguma vez registado no mundo. Desapareceu numa única noite de 2015.
Chamava-se Dahala Khagrabari, o enclave número 51, e era um campo de juta com cerca de 1,7 acres, uns 0,7 hectares — pouco mais do que um campo de futebol.
Pertencia à Índia. Mas ficava dentro de um enclave do Bangladesh, que por sua vez estava dentro de um enclave da Índia, rodeado pelo Bangladesh. Um pedaço de país dentro de outro, quatro camadas fundas, como uma boneca russa.
Ninguém lá morava. A terra era legalmente indiana, mas o dono era um agricultor bengali que vivia no enclave em redor e tinha vizinhos bengalis.
Quando um pedaço do país que rodeia o enclave fica dentro deste, chama-se contra-enclave. Dahala Khagrabari ia um degrau mais longe, e não há registo de outro caso igual em parte nenhuma.
O campo ficava em Cooch Behar, no estado indiano de Bengala Ocidental, a uns 700 quilómetros a norte de Calcutá. Era o maior aglomerado de enclaves do planeta, nota o LBV.

O enclave de Dahala Khagrabari. Uma matrioska de países
Segundo o geógrafo Brendan Whyte, que lhe dedicou a tese de doutoramento, os enclaves de Cooch Behar valiam cerca de 80% de todos os que existiram no mundo desde os anos 1950.
A origem está em dois tratados do início do século XVIII entre o reino de Cooch Behar e o Império Mogol, que deixaram terras de cada lado em mãos do outro. Há quem conte que tudo nasceu de reis a apostar aldeias ao xadrez.
É bonito de mais para ser verdade.
Enquanto tudo pertenceu ao Império Britânico, as ilhas de soberania trocada não incomodavam ninguém.
O problema começou quando as linhas no mapa se tornaram fronteiras a sério. A Partição de 1947 deixou a região a cavalo entre a Índia e o Paquistão Oriental, que em 1971 se tornou Bangladesh.
De repente, dezenas de milhares de pessoas viviam sem eletricidade, escolas ou hospitais, porque nenhum dos dois Estados se dava ao trabalho de os servir. Eram pontos cegos no mapa e na administração.
Os dois governos sabiam disto há décadas. A 16 de maio de 1974, Indira Gandhi e Sheikh Mujibur Rahman assinaram um acordo para trocar os enclaves.
O Bangladesh ratificou-o depressa. A Índia não, porque ceder território obrigava a mudar a Constituição. A espera durou 41 anos. Só em 2015, com a 100.ª emenda constitucional aprovada em maio e a troca formalizada em Daca a 6 de junho, na visita do primeiro-ministro Narendra Modi, o acordo avançou.
À meia-noite de 31 de julho de 2015, os 162 enclaves mudaram de mãos ao mesmo tempo. Cento e onze enclaves indianos passaram para o Bangladesh e 51 bengalis para a Índia.
No saldo, a Índia perdeu cerca de 40 quilómetros quadrados. Para o campo de juta e para o agricultor que o trabalhava, a troca de bandeira pouco mudou. O que desapareceu foi uma raridade cartográfica que fazia as delícias de quem ama mapas.
Nem tudo ficou resolvido. O enclave bangladeshiano de Dahagram-Angarpota continua ligado ao resto do país por um estreito corredor que atravessa a Índia. Há fronteiras que teimam em não endireitar.