É muito fácil falar de resiliência, otimismo, autoeficácia ou capacidade de controlo e esquecer o contexto em que uma pessoa vive com a sua doença, mas não é a mesma coisa ter dor crónica quando se tem um emprego estável, segurança financeira e uma rede de apoio, ou quando se está desempregado, se tem poucos recursos económicos, baixos níveis de escolaridade e nenhum apoio familiar. Os níveis de ameaça e de stress a que uma pessoa está sujeita, numa e noutra situação, são muito diferentes e isso influencia a experiência de dor.

Fiz o 12.º ano numa altura em que só tínhamos três disciplinas. Eu tinha Biologia, Matemática e Química e a minha ideia era candidatar-me à licenciatura em Bioquímica. Mas como tinha algumas dúvidas e gostava de muitas coisas, a minha mãe sugeriu que fosse fazer uma avaliação vocacional. Feitos os testes psicotécnicos e a entrevista, o psicólogo disse-me que eu tinha um perfil muito abrangente — que incluía a Bioquímica — mas achava que, se fizesse essa escolha, talvez sentisse falta de pessoas.

Aquele comentário ressoou em mim. Pensei que, realmente, não me via a vida toda enfiada num laboratório a olhar para um microscópio. Escolhi, então, Psicologia. Fiz a licenciatura em Psicologia — ramo de Psicoterapia e Aconselhamento —, depois, iniciei a minha formação pós-graduada em Psicoterapia na Associação Portuguesa de Terapias Comportamental, Cognitiva e Integrativa.

Ao mesmo tempo, no fim da licenciatura, em 1999, fui contratada pelo então Departamento de Psicologia Social e das Organizações do ISCTE como assistente estagiária. Acabei por fazer aqui o mestrado e o doutoramento em Psicologia Social da Saúde, bem como todo o meu percurso académico e profissional. Estou no ISCTE há mais de 26 anos e, atualmente, sou professora catedrática no Departamento de Psicologia e diretora do Mestrado em Psicologia Social da Saúde e Bem-Estar.

Interessei-me pela dor logo quando estava a acabar a especialização em psicoterapia. Primeiro, porque comecei a ter esta sensação de que estávamos sempre muito focados na parte psicológica e o corpo nunca era falado, depois porque nas consultas surgiram algumas pessoas com dor crónica. Lembro-me que isso chamou logo a minha atenção porque era uma área em que a ligação entre corpo e mente, que tanto me interessava, era indissociável.