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“A ciência nunca é construída de forma individual”
Virginia Picanço e Castro fala sobre pesquisas com células geneticamente modificadas, terapias contra o câncer e os desafios da ciência brasileira
Paulo Apolinário
10 Out 2026 15:00
Modificar células do sistema de defesa do organismo para que reconheçam e combatam células doentes é uma das frentes mais promissoras da medicina. É nesse campo que atua Virginia Picanço e Castro, coordenadora de Pesquisa do Hemocentro de Ribeirão Preto. Seu trabalho envolve terapias celulares e gênicas, com pesquisas com células T e NK geneticamente modificadas e estudos com CAR-T e CAR-NK. A proposta é desenvolver tratamentos mais precisos, especialmente contra o câncer, levando descobertas do laboratório à aplicação clínica.
Graduada em Ciências Biológicas pela USP de Ribeirão Preto, Virginia é doutora em Ciências Médicas pela FMRP-USP e realizou pós-doutorado em Ciências Biomédicas. Também tem experiência de pesquisa nos Estados Unidos e colaborações internacionais. Em 2026, recebeu o Trailblazer Award for Emerging Markets, da International Society for Cell & Gene Therapy, e foi homenageada pela Câmara Municipal de Ribeirão Preto por sua trajetória científica. Nesta entrevista, ela fala sobre suas pesquisas, os desafios da ciência e a importância do investimento na área.
Que momentos da sua formação e da sua trajetória profissional foram decisivos para a construção da pesquisadora que você é hoje?
Um dos aspectos mais marcantes da minha trajetória foi ter a oportunidade de trabalhar em um grupo capaz de fazer a transição da pesquisa básica para a aplicação clínica. Isso mudou profundamente a forma como passei a enxergar a ciência. Participar de diferentes etapas do desenvolvimento de terapias celulares e gênicas, desde a pesquisa em laboratório e os estudos pré-clínicos até a produção, os aspectos regulatórios e a aplicação em pacientes, foi decisivo para a construção da pesquisadora que sou hoje. Ver um resultado que começou na bancada se transformar em uma possibilidade real de tratamento para a população é algo muito significativo. Essa experiência direcionou minha carreira para a pesquisa translacional e reforçou em mim a ideia de que produzir conhecimento é fundamental, mas transformar esse conhecimento em benefício concreto para os pacientes é uma das maiores motivações para continuar fazendo ciência.
Em 2026, a senhora recebeu o Trailblazer Award for Emerging Markets, da International Society for Cell & Gene Therapy, pelo impacto do seu trabalho no desenvolvimento das terapias avançadas em mercados emergentes. O que esse reconhecimento representa para você e o que ele diz sobre a ciência que vem sendo produzida no Brasil?
Esse reconhecimento foi muito especial para mim, mas acredito que ele não seja um prêmio individual. Ele representa o trabalho de todo um grupo que, há muitos anos, vem construindo no Brasil um programa de pesquisa e desenvolvimento em terapias celulares e gênicas, enfrentando desafios científicos, tecnológicos, regulatórios e de financiamento. Receber o Trailblazer Award mostrou que esse esforço coletivo tem impacto que ultrapassa nossa instituição e o próprio país. Para mim, o prêmio também reforça que é possível produzir ciência de excelência em mercados emergentes e, mais do que isso, transformar esse conhecimento em soluções que possam chegar aos pacientes. Acredito que ele mostra uma característica importante da ciência brasileira: mesmo trabalhando com recursos mais limitados, temos pesquisadores altamente qualificados, capacidade de inovação e competência para desenvolver tecnologias complexas. Nosso desafio é criar condições para que cada vez mais aquilo que nasce nos laboratórios brasileiros possa se transformar em produtos, tratamentos e benefícios concretos para a população.
Para quem não acompanha de perto essa área, como podemos explicar o que são as terapias celulares e gênicas e como elas podem mudar a forma como algumas doenças são tratadas?
As terapias celulares e gênicas são uma nova forma de tratar doenças usando as próprias células ou os genes como parte do tratamento. Nas terapias celulares, utilizamos células vivas que podem ser selecionadas, multiplicadas ou modificadas em laboratório para desempenhar uma determinada função. Um exemplo é o CAR-T, em que células de defesa do próprio paciente são modificadas para reconhecer e atacar células do câncer. Já as terapias gênicas atuam sobre a informação genética das células, por exemplo, introduzindo um gene ou corrigindo uma alteração responsável por uma doença. O que torna essas terapias tão especiais é que, em vez de apenas controlar os sintomas, em algumas situações elas podem atuar diretamente na origem ou no mecanismo da doença. Isso já está mudando o tratamento de alguns tipos de câncer e de doenças genéticas e abre a possibilidade de tratamentos mais personalizados e, em determinados casos, com efeitos muito duradouros.
Entre as pesquisas que a senhora desenvolve estão os estudos com células T e células NK geneticamente modificadas. De forma mais didática, como funciona esse trabalho e o que vocês buscam fazer com essas células para que elas possam ser utilizadas no tratamento de doenças?
As células T e as células NK fazem parte do nosso sistema de defesa e têm capacidade de reconhecer e eliminar células alteradas. Em laboratório, nós modificamos geneticamente essas células para que elas identifiquem melhor um alvo específico, como uma célula tumoral. É como dar a essas células uma nova ferramenta de reconhecimento. Depois, avaliamos se elas conseguem encontrar e destruir as células doentes de forma eficaz e segura. Nosso objetivo é desenvolver terapias cada vez mais precisas, seguras e acessíveis, buscando também estratégias que possam beneficiar um número maior de pacientes.

Câmara de Ribeirão Preto homenageou a pesquisadora por sua trajetória científica
Em que estágio estão atualmente essas pesquisas desenvolvidas no Hemocentro de Ribeirão Preto? Quais resultados ou descobertas recentes mais animam você e sua equipe?
Hoje temos pesquisas em diferentes estágios, desde estudos básicos e pré-clínicos até a aplicação clínica. Um marco muito importante é o estudo CARTHEDRALL, nosso ensaio clínico de fase I/II com células CAR-T, que representa a transição de muitos anos de desenvolvimento científico para o tratamento de pacientes. Ao mesmo tempo, estamos avançando em novas gerações de terapias. Temos projetos com células CAR-NK, estudos buscando novos alvos para diferentes tipos de câncer e estratégias para tornar as terapias mais eficientes, seguras e acessíveis. Também trabalhamos em abordagens que, no futuro, podem simplificar a produção e ampliar o acesso a esses tratamentos. O que mais nos anima é justamente perceber que vários projetos que hoje estão em fase pré-clínica estão amadurecendo e poderão seguir o mesmo caminho do CAR-T, avançando gradualmente em direção aos estudos clínicos.
Quais são hoje os principais desafios para que essas terapias desenvolvidas cheguem à população?
Um dos maiores desafios é justamente transformar uma descoberta promissora do laboratório em um tratamento que possa ser oferecido com segurança à população. Esse caminho exige muitas etapas: estudos pré-clínicos, produção em condições adequadas, controles de qualidade, aprovação regulatória e, depois, estudos clínicos que demonstrem segurança e benefício para os pacientes. Nas terapias celulares e gênicas, há ainda desafios importantes de infraestrutura, custo e formação de equipes especializadas, porque são tratamentos complexos e que exigem centros preparados para produzi-los e utilizá-los.
Como a senhora avalia o cenário brasileiro para a formação e a permanência de pesquisadores e o que precisamos fazer para fortalecer a ciência no país?
O Brasil forma pesquisadores muito qualificados e temos grupos de excelência em diferentes áreas, mas ainda enfrentamos dificuldades para garantir condições para que esses profissionais permaneçam na ciência. Isso envolve financiamento contínuo, infraestrutura, perspectivas de carreira e oportunidades para que os jovens pesquisadores consigam desenvolver seus projetos no país. A formação de novas gerações é uma parte muito importante da minha atuação. Além do trabalho dentro da universidade e do Hemocentro, acredito muito no papel das sociedades científicas. A ABTCEL, como sociedade brasileira dedicada às terapias celulares e gênicas, tem uma função importante na integração dos grupos nacionais, na formação de profissionais e na discussão dos desafios específicos do nosso país. Já a ISCT amplia essa conexão em nível internacional. Para fortalecer a ciência brasileira, precisamos investir de forma contínua em educação, infraestrutura e inovação, além de aproximar cada vez mais universidades, centros de pesquisa, hospitais, governo e setor produtivo.
O que mais a motiva a continuar fazendo ciência e que mensagem gostaria de deixar para as novas gerações de pesquisadores brasileiros?
A ciência nunca é construída de forma individual. Tudo o que conseguimos desenvolver é resultado do trabalho de muitas pessoas, de diferentes áreas, que contribuem ao longo de anos para que uma ideia possa se transformar em conhecimento e, eventualmente, chegar até sociedade. Para mim, é especialmente motivador trabalhar em projetos que conseguem percorrer o caminho da pesquisa básica até a aplicação clínica e que têm potencial de ampliar o acesso da população a terapias inovadoras. Mais do que produzir resultados ou publicações, espero que nossa trajetória inspire novos pesquisadores para fortalecer a ciência brasileira e mostrar que o Brasil tem capacidade de desenvolver tecnologias e transformá-las em soluções para os nossos próprios pacientes.
Fotos: Hemocentro