Análises osteológicas e arqueológicas em um esqueleto de Neandertal sepultado há cerca de 75.000 anos na caverna de Shanidar, localizada no Iraque, revelaram evidências de uma morte violenta e imediata provocada pela perfuração de uma lança de madeira que atravessou seu tórax.

A constatação consta em um estudo assinado por pesquisadores da Universidade de Cambridge e publicado na revista científica Scientific Reports.

O indivíduo, catalogado como Shanidar A, tinha aproximadamente 45 anos no momento da morte. O achado do esqueleto incompleto foi realizado em 2019 e continha uma mão direita quase íntegra, três costelas, seis dentes e a escápula esquerda — elemento crucial para a descoberta do trauma, uma vez que a ausência de outras partes do corpo impediu a determinação do sexo do hominídeo.

A mecânica do ferimento na omoplata

Ao examinarem a escápula esquerda de Shanidar A, os cientistas identificaram uma cavidade circular com cerca de 1,5 centímetro de diâmetro próxima à borda do osso, acompanhada de um fragmento ósseo circular destacado da estrutura.

Após avaliarem as características do dano e descartarem intervenções pós-morte causadas pela ação de insetos ou roedores, os especialistas concluíram que a lesão se tratava de um trauma penetrante perimortem, ou seja, ocorrido no momento do falecimento ou muito próximo a ele.

A dinâmica da lesão indica que a lança atingiu o peito do Neandertal pela frente, em alta velocidade, traspassando o tronco até atingir e perfurar a omoplata. Os exames comparativos indicam que o formato da fratura é compatível com os padrões de impacto gerados por hastes e armas totalmente confeccionadas em madeira, em vez de projéteis ou hastes equipadas com pontas de pedra.

A paleoantropóloga Emma Pomeroy, pesquisadora da Universidade de Cambridge e primeira autora do artigo, detalhou a severidade do golpe: “A posição do ferimento e a força necessária para perfurá-lo através do corpo do Neandertal apresentam as características de um tiro fatal direcionado ao coração”, afirmou a cientista em comunicado.

Embora a utilização de lanças de madeira por populações Neandertais para arremessos ou estocadas seja documentada, os pesquisadores ressaltam a impossibilidade de determinar o contexto exato do evento.

O coautor do estudo e arqueólogo da Universidade de Cambridge, Graeme Barker, ponderou sobre os limites da reconstrução histórica do caso: “Tudo o que podemos saber sobre o fim da vida deste Neandertal é que foi violento e ocorreu com uma lança de madeira”, afirmou Barker.

Marcas de trauma facial e indícios de auxílio comunitário

Apesar do desfecho violento, os remanescentes dentários de Shanidar A trouxeram evidências de que o indivíduo sobreviveu a traumas graves anteriores e dependeu da assistência de outros membros de seu grupo para continuar se alimentando.

Os seis dentes recuperados apresentavam desgaste acentuado e atípico. Um dente frontal, coberto por expressiva camada de tártaro, havia sido partido ao meio ainda durante a vida do hominídeo.

O padrão de desgaste e fratura sugere que o Neandertal sofreu um trauma facial grave que comprometeu o dente frontal inferior e pode ter desencadeado lesões estruturais na mandíbula. Segundo as análises, o indivíduo continuou a utilizar a peça dentária fraturada por um período prolongado antes de morrer.

“Não há dúvida de que Shanidar A teria dificuldades para se comunicar e teria sofrido dores terríveis por um longo período”, declarou Pomeroy. “Sobreviver a um golpe que quebra um dente dessa forma e, em seguida, continuar vivendo e se alimentando por pelo menos um ano, talvez mais, teria exigido cuidados e apoio de outros neandertais.”

Comparações científicas e a relevância de Shanidar

A hipótese de perfuração por lança de madeira foi avaliada por cientistas externos ao estudo. Em entrevista por e-mail ao portal Live Science, a arqueóloga Rebecca Wragg Sykes, autora do livro ‘Kindred: Neanderthal Life, Love, Death and Art’, classificou a identificação da lesão no tórax como uma contribuição relevante para a compreensão da espécie.

Wragg Sykes observou, contudo, que “seria interessante também comparar se um chifre de cabra selvagem, a espécie mais intensamente caçada em Shanidar, poderia ter sido o responsável” pela perfuração na escápula.

O sítio arqueológico de Shanidar é historicamente reconhecido por fornecer evidências de práticas de sepultamento intencional e recorrente de Neandertais, o que demonstra que aqueles hominídeos atribuíam um significado específico ao local.

A caverna já havia registrado outro caso de lesão fatal em 2009, quando analistas examinaram o esqueleto de Shanidar 3 — um homem adulto sepultado há 50.000 anos — e encontraram um corte profundo em uma de suas costelas, possivelmente infligido por uma lança com ponta de pedra.

Questionada sobre a ocorrência de dois corpos com ferimentos por armas perfurantes na mesma caverna com um intervalo de 25.000 anos, Pomeroy afirmou à Live Science que o fato pode ser apenas uma coincidência temporal.

“Sabemos, através da arqueologia, que os neandertais retornavam repetidamente a Shanidar e a utilizavam por curtos períodos, tanto há cerca de 75.000 anos quanto há cerca de 45.000 a 50.000 anos, além de deixarem seus mortos lá”, concluiu a pesquisadora.


Éric Moreira

Éric Moreira é jornalista, formado pelo Centro Universitário Belas Artes de São Paulo. Passa a maior parte do tempo vendo filmes e séries, interessado em jornalismo cultural e grande amante de Arte e História.