Ambientados em pitorescas aldeias inglesas, mansões isoladas, luxuosos comboios ou resorts em destinos exóticos, os romances e contos policiais de Agatha Christie são companheiros de eleição para as férias. Ricos em suspense, evitam, porém, o dramatismo excessivo e mantêm sempre um clima envolvente. Os desfechos, invariavelmente marcados pela revelação do criminoso, deixam ao leitor uma sensação reconfortante de ordem  e justiça.

Criadora das inesquecíveis personagens de Hercule Poirot – o meticuloso, organizado e vaidoso detetive belga – e Miss Marple – uma astuta, intrometida e gentil velhinha inglesa –, a escritora viu os seus livros serem traduzidos para mais de cem línguas e figurar entre os mais publicados de sempre, apenas ultrapassados pela Bíblia e pelas obras de William Shakespeare.

Christie viajou por todo o mundo, adquirindo um conhecimento direto de geografias e culturas diversas, que soube transpor para a sua obra com autenticidade. Os cenários dos seus enredos não são meros panos de fundo: são elementos estruturantes da narrativa, impregnando-a de atmosfera e densidade. Simultaneamente, oferecem ao leitor a sensação de viajar sem sair do seu lugar.

Outro elemento-chave para o êxito dos seus livros foi o conhecimento de toxicologia e química que adquiriu durante a I Guerra Mundial: primeiro, como enfermeira voluntária no hospital da Cruz Vermelha em Torquay, a sua cidade natal, no sul de Inglaterra; depois, como assistente de farmácia, na mesma instituição. Esse saber foi colocado ao serviço dos enredos policiais que criou, como sublinha Kathryn Harkup em A is for Arsenic: The Poisons of Agatha Christie (2015). Os venenos surgem em 41 dos seus 66 romances detetivescos e em 24 das suas 148 curtas histórias,

Em 1922, ano em que viajou dez meses à volta do mundo, Christie hospedou-se no Moana Hotel, em Honolulu, no Havai, onde anos antes Jane Stanford, cofundadora da Universidade de Stanford, fora assassinada com estricnina. Este alcaloide extremamente tóxico, presente nas sementes da Strychnos nux-vomica, provoca convulsões violentas e morte por asfixia. Embora outrora usado como pesticida, teve também aplicação terapêutica: em doses mínimas e controladas, era administrado para estimular as contrações cardíacas e gastrointestinais.

A estricnina é precisamente a arma do crime em O Misterioso Caso de Styles (1920), o primeiro romance policial de Christie e também a obra que assinala a estreia de Poirot. Nesta história – que, para gáudio da autora, mereceu análise do The Pharmaceutical Journal – a vítima é a Sra. Inglethorp, proprietária da Mansão Styles. Recorrendo às suas célebres ‘células cinzentas’ e a um manual de farmácia, Poirot conclui que a morte se deveu à adição do sedativo da vítima – brometo de potássio – a outro medicamento seu, um tónico que continha sulfato de estricnina. Embora este composto seja bastante solúvel em água, a presença do brometo de potássio conduz à sua conversão em brometo de estricnina, muito menos solúvel, que cristaliza e se deposita no fundo do frasco. Ao ingerir a última porção do estimulante, a Sra. Inglethorp sofre uma overdose fatal.

Valendo-se do fenómeno da cristalização do brometo de estricnina, o homicida planeou o crime de modo a estar ausente da mansão na noite em que a vítima tomasse a dose letal, garantindo assim um álibi. Tratava-se, avant la lettre, de uma espécie de ‘medicamento de libertação retardada’ – designação dada a formulações farmacêuticas que, em contexto legítimo, libertam o princípio ativo de forma gradual, prolongando o efeito, reduzindo a frequência das doses e mantendo níveis estáveis no organismo.

Na grande viagem de 1922, iniciada em Southampton a bordo do R.M.S Kildonan Castle rumo à Cidade do Cabo (na foto), Christie avistou a ilha da Madeira apenas do convés, pois o enjoo marítimo impediu-a de desembarcar. A ‘Rainha do Crime’, como era por vezes chamada, só pisaria solo português na década de 1960, aquando de uma visita a Lisboa com o marido. Nessa ocasião, foi entrevistada para a RTP pelo conhecido criminologista e advogado Artur Varatojo, que lhe ofereceu um cesto de maçãs – a sua fruta predileta. A escritora tinha o curioso hábito de as comer durante o banho, alegando que a ajudavam a encontrar inspiração para as suas histórias.

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