Ao fim de 38 anos na União Soviética, o jornalista e comentador José Milhazes decidiu romper com o comunismo, ideologia pela qual pregava desde tenra idade, e regressar a casa. “Porque Não Sou Comunista”, o livro que se junta, agora, ao leque já extenso de obras do historiador, combina não só uma curta nota biográfica e histórica dedicada a Vladimir Lenine, Lev Trotsky e Josef Estaline, mas também ao desencantamento que, a pouco e pouco, erodiu a sua crença de que a teoria poderia vir a ser colocada em prática. De facto, como resumiu, deixou “de comer sopas estragadas”.

Em conversa com o Notícias ao Minuto, José Milhazes vincou que, “como todas as utopias”, o comunismo é uma ideologia “perigosa e nociva, porque aponta objetivos que não são credíveis”, que dão azo a “sistemas absolutamente aberrantes”. Pese embora o “papão comunista” esteja dormente, a conjuntura atual não nos permite esquecer “o perigo real de que em países democráticos, em países europeus, voltem ao poder forças extremistas, como já aconteceu na história” – sejam elas de Esquerda ou de Direita. Isto porque, como fez sobressair, “os regimes democráticos no poder não sabem, ou não souberam, como corresponder aos interesses das pessoas” que, mergulhadas no desespero, “vão atrás daqueles que prometem milagres”.

Na ótica do também tradutor, o Partido Comunista Português (PCP), do qual foi militante, pode não prometer milagres, mas defende “posições completamente esquizofrénicas”, por forma “a tentar encontrar desesperadamente nichos” que o mantenham à tona no panorama político nacional. Prova disso é, para Milhazes, a sua aproximação do regime de Vladimir Putin, visto que “poderá dar uma ajuda aos comunistas nas lutas que vão tendo”. Contudo, o comentador alertou que o PCP, “ao apoiar Putin, também está a apoiar a política norte-americana e está a lutar pelo enfraquecimento da Europa”.

No caso do comunismo, vendem a ideia da democracia popular, a democracia proletária. Ora, isto é falso, porque ou há democracia ou não há democracia. Se vamos limitar a democracia, deixa de ser democracia para todos e passa a ser só para alguns. Mesmo esses alguns não recebem democracia, nem vão gozar de democracia nenhuma, porque não são esses que vão gerir o poder. Quem vai gerir o poder é uma organização

É autor de uma obra considerável dedicada à União Soviética e ao comunismo. O que é que o levou a escrever este livro?

O que me levou a fazer isto é ver que ainda há pessoas que tentam vender a ideia de que o programa comunista é um programa real, não obstante ter falhado em todas as experiências que ocorreram durante a história, no caso concreto, do século XX e XXI. E foi esta surpresa de começar a sentir que ainda há pessoas que apostam em ideias que provaram ser falsas, estas ideias de igualdade, revolução… Isto é tudo muito bonito, mas é quando estas forças não são poder. Quando elas chegam ao poder e se transformam em poder, vemos que a prática delas distingue-se muito do discurso; pregam uma coisa mas, na realidade, impingem outra às pessoas.

Então, na teoria é um bom regime mas, na prática, acaba por cair por terra e ser autoritário, como se fosse do extremo oposto. 

Do ponto de vista do discurso, e à primeira vista, pode parecer, e parece para muitos – para mim também pareceu – que estamos perante ideias inovadoras, que podem trazer algo de novo à humanidade. E mesmo em termos de organização social, política, ou seja, uma sociedade igualitária, uma sociedade onde a distribuição da riqueza é feita de uma forma muito mais humana do que no sistema capitalista. Claro que estas ideias são boas, mas quando vemos a sua concretização, vemos que o resultado vai ser oposto.

Vendem-nos a ideia da democracia. No caso do comunismo, vendem a ideia da democracia popular, a democracia proletária. Ora, isto é falso, porque ou há democracia ou não há democracia. Se vamos limitar a democracia, deixa de ser democracia para todos e passa a ser só para alguns. Mesmo esses alguns não recebem democracia, nem vão gozar de democracia nenhuma, porque não são esses que vão gerir o poder. Quem vai gerir o poder é uma organização, um partido, mas vemos que esse partido não tem nada a ver com – muitas das vezes – os interesses dos cidadãos. É uma elite burocrática que governa a seu bel-prazer, com uma democracia inexistente. É por isso que digo que não aceito adjetivos para a democracia: a democracia ou é democracia ou não é democracia. Não há democracias populares, democracias proletárias, etc, etc.

Viveu 38 anos na URSS e viu de perto as idiossincrasias do regime. A seu ver, o chamado “papão comunista” é real?

Foi real. Neste momento, há papões bem mais reais e perigosos. No entanto, devemos estar sempre atentos para não permitir que essas forças voltem a dirigir os países e os povos. O problema, muitas das vezes, por exemplo, é que as gerações jovens estavam convencidas – e algumas ainda estão – de que a democracia veio com o 25 de Abril e é eterna. Ora, isso não é verdade, nós sabemos. Esses fenómenos são como as vacinas, têm prazo de validade, e temos de estar atentos a revalidar a vacina, para não deixar perder o efeito.

Hoje o que é que vemos? Vemos ameaças de forças extremistas que surgem, que existem na realidade, porque os regimes democráticos no poder não sabem, ou não souberam, como corresponder aos interesses das pessoas. Este é outro grande problema da modernidade. Temos um grande descontentamento e existe o perigo real de que em países democráticos, em países europeus, voltem ao poder forças extremistas, como já aconteceu na história. Daí ser sempre preciso estar com muita atenção em relação a essas franjas extremas da sociedade.

No caso português, por exemplo, muitos dos que votavam no PCP saltaram a cerca para o Chega. Os extremos tocam-se assim tanto? Ou tem que ver com a procura de uma solução rápida para todos os problemas que enfrentamos atualmente? 

É a procura de uma solução muito rápida para todos os problemas. É o desespero. As pessoas que chegam a determinadas situações, têm problemas tais na vida, que procuram desesperadamente milagres, e vão atrás daqueles que prometem milagres. Neste caso, se não conseguiram através da extrema-esquerda, as pessoas vão atrás de outras situações, de quem lhes oferece, de bandeja, a felicidade. Depois, todos nós vamos sofrer as consequências.

A verdade é que demorei bastante tempo a compreender e a decidir romper com esta ideologia, por considerá-la uma ideologia funesta e perigosa. No meu caso, realizou-se também devido ao contacto com a prática, porque uma coisa é estarmos a estudar os calhamaços, a teoria; é tudo muito bonito. Agora, quando estamos a viver e a sentir na pele a concretização dessas teorias, então estamos a ver, na realidade, o que é que vai acontecer a nós e à sociedade que embarca numa distopia

Mas é um pouco estranho, porque costuma dizer-se que, quando a esmola é muita, o pobre desconfia, não é? 

Quer dizer, isso é verdade, mas não é completamente verdade. Agora, as pessoas querem acreditar que podem – e até que devem – viver bem, e que os partidos devem fazer tudo para a felicidade do povo. Só que isso é um sonho que, na maior parte das vezes, não dá resultado. Por exemplo, na situação em que neste momento vive a Europa, é muito difícil acreditar que chegue ao poder alguma força política que vá resolver os gravíssimos problemas sociais e económicos que a Europa enfrenta. Aí, claro que o povo devia desconfiar, mas o povo muitas das vezes fecha os olhos para ver se, quando os abrir, o milagre está realizado ou não.

Escreveu que, “pouco a pouco, [começou] a deixar de comer sopas estragadas, ora porque estavam fora de prazo, ora porque não correspondiam ao que estava escrito na ementa”. Portanto, como é que se deu este afastamento do comunismo e do PCP, em concreto?

Foi muito gradual, não foi uma mudança brusca e rápida de ideias. Aliás, eu penso muito – talvez até mais do que devia – quando se trata de mudanças. A verdade é que demorei bastante tempo a compreender e a decidir romper com esta ideologia, por considerá-la uma ideologia funesta e perigosa. No meu caso, realizou-se também devido ao contacto com a prática, porque uma coisa é estarmos a estudar os calhamaços, a teoria; é tudo muito bonito. Agora, quando estamos a viver e a sentir na pele a concretização dessas teorias, então estamos a ver, na realidade, o que é que vai acontecer a nós e à sociedade que embarca numa distopia.

Nesta sociedade, acreditei também porque era um pouco, digamos, tonto. Era bonito, resolvia muitos dos problemas sociais que eu enfrentava e, por isso, mergulhei de cabeça. Depois, há todo um período de contacto com a realidade, as coisas vão-se dissolvendo e acabamos por compreender que ideologia é esta que estamos a seguir. Chega a determinada altura e vês que não há como; mesmo que queiras reformar esta ideologia, dando-lhe um caráter mais humano, mais democrático, esta ideologia não pode ser reformada. Isso aprendi com a história da União Soviética e o fim da União Soviética.

Era exatamente isso que ia perguntar, se a história dita que não há volta a dar.

Não. Fui daqueles que acreditaram que, em 1985, quando [Mikhail] Gorbatchov chegou ao poder, seria capaz de renovar o sistema soviético. Só que isso rapidamente se viu que não era verdade, porque a estrutura do sistema não aguenta a tal reestruturação. O edifício acaba por ruir, porque reestruturar, como diz a palavra, é alterar, mudar a estrutura, o que o próprio regime mostrou ser impossível. Como tal, a experiência de Gorbatchov também culminou numa experiência errada. Por muito que Gorbatchov fosse um génio, por muito que ele quisesse dar um ar humanitário à sociedade, não conseguiu e compreendeu que não conseguia. Podia ter feito o que fizeram os chineses: contra a vontade do povo, lançar tanques e reprimir e, com base nisso, tentar uma reforma do sistema. Mas não deu. Não deu nem dá. No caso da China, deu porque transformou completamente o sistema. É um sistema que nada tem a ver com os princípios que levaram o Partido Comunista da China ao poder. Agora, o Partido Comunista da China soube evoluir de forma a manter esse poder e continua a mantê-lo, embora numa plataforma completamente diferente, com a economia de mercado, sem democracia, etc.

Notícias ao Minuto Capa de “Porque não sou comunista”© Leya/Oficina do Livro  

É mais colado ao capitalismo, digamos assim.

Não, é de todo colado ao capitalismo. Diria que é o capitalismo de Estado. Mesmo na União Soviética, os traços económicos já eram muito semelhantes a capitalismo de Estado, porque o poder estava concentrado na mão do Estado, na mão do Partido, que dirigia tudo e todos. Agora, os resultados não eram aqueles prometidos: a tal igualdade, a melhoria de vida das populações. Do ponto de vista económico, era uma empresa gerida pelo Estado e, como o Estado era quase senhor absoluto, não tinha contrapesos. Deu o que deu. Catástrofe económica.

Mas houve houve algum episódio que o tenha marcado de forma particular ou que tenha selado a decisão de se afastar do comunismo? Ou foi um acumular de situações? 

Foi um acumular, mas houve alguns episódios. Uma das coisas que me levou a abandonar o comunismo foi o facto de, não obstante todos os problemas e complicações, o nosso país estar a avançar. Do ponto de vista económico, social e político, era um país completamente diferente daquele que deixei em 1977. Evoluiu muito. Quando vinha a Portugal, via que Portugal continuava a evoluir bastante e rapidamente, enquanto a União Soviética estava na estagnação.

Depois, outra coisa foi a reação do próprio Partido Comunista Português em relação às reformas de Gorbatchov, porque Gorbatchov era um fascista para o PCP. Não era um traidor, era tudo isso e mais alguma coisa. Eu via o que é que queriam os comunistas: que se afastasse o Gorbatchov e voltasse para lá um daqueles comunistas duros. Isso foi outra das razões.

Depois, há o próprio dia a dia, em que vives e sentes na pele. Isso é muito importante. Por exemplo, uma coisa é ser jovem, não ter filhos e não ter grandes preocupações; outra coisa é já ter filhos e ser preciso, digamos, governar a casa. Comecei a ver coisas que não imaginava. Tem filhos, tem de arranjar fraldas concretas, comida concreta, roupa concreta, porque de outra forma não pode ser. Quando não se tem as coisas mais elementares, estando a viver numa superpotência, é complicado. Enviavam foguetões para o Espaço mas, depois, não tinham coisas elementares do dia a dia, e não sei qual era a explicação, porque não havia explicação.

Era a elite a acumular riqueza, não é? 

É, a elite acumula riqueza e não se preocupa muito com o que se passa cá em baixo, também é verdade. É por isso mesmo que um dos fundamentos dessa ideologia, a igualdade, é um fundamento falso. Não existe. A igualdade nunca existiu, nem vai existir, enquanto existirem seres humanos, porque somos todos diferentes uns dos outros. Para mim, é muito mais importante criar condições para que as pessoas realizem as suas qualidades. Temos de arranjar igualdade de oportunidades e não andar a vender histórias de que estamos todos iguais. Depois, começarmos a ver que, afinal, há pessoas que são mais iguais do que outras.

É como se costuma dizer: estamos na mesma corrida, mas há uns que começam mais à frente e outros mais atrás. 

Ora nem mais. E uns que têm sapatilhas e os outros que vão descalços, e por aí fora.

Apesar dos registos históricos de violência, matanças e repressão, verificou que há uma espécie de fascínio por Trotsky em Portugal, que acaba por ignorar que Lenine identificou riscos tanto em Trotsky, como em Estaline. É uma tentativa de preservar um passado nostálgico?

Sem dúvida, para dizer que nem tudo é mau, que há forma de tentar – novamente – construir aquela sociedade, com pessoas que, alegadamente, são diferentes dos outros dirigentes políticos. No caso, que Trotsky seria muito diferente de Estaline e de Lenine, o que não corresponde à verdade. Trotsky, durante a sua vida, cometeu crimes hediondos. Foram dezenas e dezenas de milhares de pessoas que foram pura e simplesmente fuziladas sem qualquer tipo de julgamento. Agora, Trotsky foi vítima do próprio sistema em cuja criação participou. Alguns dizem que, por isso, Trotsky era uma alternativa a Estaline. Eu não vejo como alternativa, porque se Trotsky tivesse chegado ao poder, esmagaria completamente a oposição, tal como Estaline fez em relação a Trotsky. Qualquer uma das ideologias partem de princípios que só vão levar à violência.

Por exemplo, o que é a ditadura do proletariado? É só o proletariado que tem direito a mandar, mas todos nós sabemos que o proletariado não mandou coisa nenhuma, porque o poder foi para as mãos do partido. É esse partido que, depois, para se afirmar, vai liquidando os seus adversários. Primeiro adversários tipo nobreza, burguesia, clero, etc. Quando acaba, chega a vez dos camponeses, dos operários. Depois, chega a vez dos próprios comunistas de se matarem uns aos outros. Foi o que aconteceu na União Soviética e o que aconteceu em todos os outros países que tentaram construir o comunismo.

As lutas dentro do partido levavam a que se destruíssem uns aos outros, daí eu afirmar que Trotsky não seria diferente na forma de governar; veja-se as ordens dele. O verbo fuzilar, nos documentos assinados por ele, é uma coisa absolutamente impressionante. Por qualquer coisa, fuzilar. Fuzilar. Só podia provocar uma reação.

Se for ver trabalhos escritos de [Álvaro] Cunhal naquela altura, no período revolucionário, eles repetem trabalhos de Vladimir Lenine, como “O Estado e a Revolução”, ou outras obras sobre a transformação da revolução democrática burguesa em transformação proletária e popular. No fim de contas, era o que o PCP queria fazer em Portugal. Não o fez devido à forte oposição dentro de Portugal, mas também à conjuntura internacional para a União Soviética

Então, na mesma linha, porque é que há quem romantize a Revolução de Outubro? 

Ou é porque estudou mal, ou é porque quer impor na prática uma experiência altamente negativa. Corresponde à forma como alguns olham para o poder, como alguns dirigentes comunistas olhavam para o poder. Daí a chamada Revolução Comunista de Outubro, que foi mais um golpe militar organizado pelos bolcheviques do que uma revolução popular. Tanto é que, depois desse golpe de Estado, os bolcheviques têm de matar milhões de pessoas para se imporem no poder. Por isso, vemos que não é uma revolução. As consequências foram revolucionárias no sentido em que destruíram toda uma sociedade e substituíram-na por outra completamente diferente, mas com traços semelhantes à anterior, nomeadamente na questão da democracia, dos direitos humanos, dos direitos dos trabalhadores. Às vezes, é uma questão de dar mais peso ao acontecimento.

Nós, por exemplo, falamos na Revolução do 25 de Abril. O 25 de Abril pode ser considerado uma revolução tendo em conta as consequências a curto, médio e longo prazo. Agora, em si, foi um movimento militar que levou à queda do regime de Salazar, daí que também gostemos de chamar revolução a tudo e mais alguma coisa.

E poderia ter acontecido o mesmo cá, depois do 25 de Abril, com o PCP? 

O PCP bem queria, mas foi proibido de o fazer por parte do Partido Comunista da União Soviética. Se for ver trabalhos escritos de [Álvaro] Cunhal naquela altura, no período revolucionário, eles repetem trabalhos de Vladimir Lenine, como “O Estado e a Revolução”, ou outras obras sobre a transformação da revolução democrática burguesa em transformação proletária e popular. No fim de contas, era o que o PCP queria fazer em Portugal. Não o fez devido à forte oposição dentro de Portugal, mas também à conjuntura internacional para a União Soviética. Naquela altura, não era a melhor prenda que Portugal começasse a construir o comunismo, abandonasse a NATO e lançasse a Europa numa confusão como aquela em que está hoje. Daí que, a dada altura, os soviéticos tenham dito: “Pessoal, tenham calma, isto não pode ser assim.”

Pegando um pouco nessa questão da confusão, o PCP tem mantido uma posição contrária à dos restantes partidos no que diz respeito à guerra na Ucrânia. No entanto, Putin nem sequer faz parte do Partido Comunista. Trata-se de um apego ao ideal comunista, no qual ainda tem fé? 

Não faço ideia. Sei que têm posições completamente esquizofrénicas. Quer dizer, é muito difícil explicar coisas que são absolutamente absurdas. Putin não é comunista; Putin é um ditador com traços de ditador de extrema-direita mas, para os comunistas portugueses, lidera um regime que poderá dar uma ajuda aos comunistas nas lutas que vão tendo. Acho isto absolutamente absurdo.

É um pouco contraditório, não é? 

Totalmente. Isto é um pouco esquizofrénico, como já foi aquando da assinatura do pacto de Hitler com o Estaline, que o PCP apoiou. Aqui, o que é que vemos? Vemos um dirigente louco norte-americano que é aliado de Putin, claramente. O PCP, ao apoiar Putin, também está a apoiar a política norte-americana e está a lutar pelo enfraquecimento da Europa. Por isso, acho que estão desorientados, e tentam amarrar-se a cordas, para não desaparecerem definitivamente no meio das águas.

É aquela tal nostalgia de que falávamos há pouco. 

Exatamente. Porque está tudo a ruir, e para eles também. Não conseguem encontrar pontos de orientação para a sua atividade e, até certo ponto, compreendo porquê. O PCP, acho eu, deveria ter renovado fortemente a sua maneira de pensar e de agir no fim da União Soviética, quando se viu que aquele não era o caminho certo. Mas também se coloca a questão: se o PCP se renova profundamente naquela altura, o que é que daria? Para onde é que iria? À direita tem o Partido Socialista, de esquerda, e a outra esquerda foi ocupada pelo Bloco de Esquerda. Ou seja, não havia grande espaço por onde o PCP se meter. Isso aconteceu praticamente em todo o mundo. Na Europa, por exemplo, grandes partidos comunistas como o francês, o italiano e outros, rapidamente desapareceram, porque não encontravam nichos onde trabalhar. É o que está a acontecer ao PCP, que anda às cegas a tentar encontrar desesperadamente nichos mas, até agora, nada.

Lembro-me sempre de uma máxima que os soviéticos diziam: o comunismo é como a linha do horizonte; à medida que nos vamos aproximando dessa linha, essa linha afasta-se. E, ao que sei, ainda ninguém apanhou essa linha do horizonte. Continua a ser a mesma coisa. Quer dizer, não há ponta por onde se lhe pegue. É uma utopia. Como todas as utopias, é perigosa e nociva, porque aponta objetivos que não são credíveis

Mesmo assim, o Bloco de Esquerda, na perceção que temos através das eleições, está mais perto de desaparecer do que o PCP. 

Em termos de números, a julgar por agora, claro que está. Mas o fundamental é que ambos estão muito fracos. Ambos não servem para pressionar o poder, a não ser o PCP, que ainda tem influência dos sindicatos. Em termos de poder, nem um nem outro já contam para, neste momento, alianças de apoio ao governo, direto ou indireto. Por isso, ambos estão numa situação muito fraca e não estou a ver como é que vão conseguir dar a volta ao prego. Não sei. Provavelmente vão continuar a desaparecer devagarinho, porque não estou a ver capacidade desses partidos se renovarem, de forma a aparecerem como partidos capazes de participar nalgum governo ou de apoiar algum governo.

O sistema soviético acabou por criar ainda mais fissuras e disparidades na sociedade, tendo em conta a riqueza dos oligarcas e a pobreza da restante população. Na verdade, o proletariado ficou sem voz. Foi isso que quis transmitir quando escreveu que “o comunismo continua a ser uma miragem que, como toda a miragem, é falsa e perigosa”?

Claro que é. Lembro-me sempre de uma máxima que os soviéticos diziam: o comunismo é como a linha do horizonte; à medida que nos vamos aproximando dessa linha, essa linha afasta-se. E, ao que sei, ainda ninguém apanhou essa linha do horizonte. Continua a ser a mesma coisa. Quer dizer, não há ponta por onde se lhe pegue. É uma utopia. Como todas as utopias, é perigosa e nociva, porque aponta objetivos que não são credíveis. Para se alcançar esses objetivos, criam-se sistemas absolutamente aberrantes. Temos provas desses regimes aberrantes, todos aqueles regimes que construíram o comunismo no mundo, com o resultado que todos nós sabemos. Não há uma única exceção.

O que é que leva, então, alguém a defender o comunismo?

A crença cega de que o comunismo pode resolver os problemas dessa pessoa. Ou, então, alguns veem nisso uma forma de chegarem ao poder e ficarem no poder durante a vida inteira. A maioria das pessoas até acreditava nas propostas que os comunistas faziam. Mas quando se erra uma vez, duas, três, quatro, e se erra sempre nas mesmas coisas, o mal não está nas pessoas, está na própria fórmula do poder proposta pelos comunistas. Deixa de haver democracia interna no país, por exemplo, dentro do partido e fora do partido. Onde não há democracia, onde não há oposição, o poder rapidamente se transforma numa ditadura, uma ditadura do partido que se vai tentando eternizar até que, um dia, rebente.

Qual é que tem sido a perceção dos leitores até agora? 

Tenho recebido dois tipos de críticas; umas a que não respondo, porque são insultos. Aí, podem continuar a insultar à vontade, que não me afetam. E nota-se que é uma campanha orquestrada, organizada com perfis falsos. Nem nisso são originais. Depois, há pessoas que escrevem e dizem obrigado pelo livro, obrigado por refletir, foi uma experiência pessoal que transmitiu, etc. Também há alguns críticos, e ainda bem. Alguns, por exemplo, dizem que, afinal, a Revolução de Outubro foi uma revolução, porque mudou o mundo, virou o mundo de pernas para o ar. Aqui, temos de ver se efetivamente isso é uma revolução, aquilo que aconteceu depois de outubro, novembro de 1917. Agora, aquelas acusações de cuspir na sopa que me deram a comer, deixo passar completamente, porque não vale a pena.

Então, que outros projetos tem em mãos neste momento? Tem mais planos para escrever sobre estes temas? 

Não. Não, não. Neste momento, vou ver no que é que vai este livro dar. Talvez, se ainda tiver tempo e saúde, me dedique a outro. Tenho algumas coisas, mas ainda está tudo muito verde. Além disso, a situação no mundo é de tal forma, que ainda é preciso ter cabeça para poder concentrar-me, a par de todo o trabalho de comentador, porque é absolutamente esgotante. São cinco anos, quase, e é diariamente. Rebenta com qualquer ser humano.

Como é que conciliou as duas coisas?

Ainda havia alguma energia acumulada e um tema por escrever. Agora, não. Tenho de ver se vai surgir alguma coisa e como. Às vezes, é a editora que propõe e eu aceito. Outras vezes, sou eu que proponho e não aceitam ou aceitam. Não sei como é que vão estar as coisas no mercado do livro e, com esta confusão toda da situação internacional, se ainda me vai permitir publicar o que quer que seja.

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Daniela Filipe | 08:50 – 21/09/2026