A Bahia tem um jeito, cantava Dorival Caymmi. Esse “jeito” ganhou sua mais completa tradução nas músicas do cantor do “Samba de minha terra”, nos romances de Jorge Amado e na arte de Hector Bernabó, o Carybé. Amigos e parceiros, os três passaram a ser vistos como os “inventores” da identidade cultural baiana.

Com estreia nesta quinta-feira (4) nos cinemas, o documentário “3 Obás de Xangô” explora a amizade desses três grandes artistas e a conexão deles com o candomblé. O longa de Sérgio Machado mostra como os terreiros e a relação com os orixás ajudaram a criar o imaginário difundido por Amado, Caymmi e Carybé, que não por acaso receberam o título honorífico de Obá de Xangô.

— Como baiano, sempre tive a sensação de que eles não inventaram esse imaginário de baianidade, mas conseguiram traduzi-lo — diz Machado, também corroteirista do filme, com Gabriel Meyohas, André Finotti e a escritora Josélia Aguiar, autora de “Jorge Amado: uma biografia”. — Quem inventou essa Bahia foram as mulheres pretas, as mães de santo. Foram elas que convocaram os três artistas para difundir essa Bahia tão ligada ao matriarcado. O sociólogo Muniz Sodré diz no filme que poucas religiões no mundo resolveram tão bem a questão feminina quanto o candomblé.

Jorge Amado, Dorival Caymmi e Carybé eram os primeiros a dizer que criavam a partir de sua convivência com as experiências sociais dos terreiros. A resiliência do povo do candomblé e a força das mulheres nos terreiros são algumas de suas maiores inspirações.

— Caymmi tem um jeito único de tocar violão, um estilo que ele criou tentando reproduzir, em um instrumento só, o que ele ouvia nas batucadas — lembra Machado. — Amado dizia ser um escritor de putas e vagabundas, de todos esses personagens que viviam no Pelourinho. E Carybé também buscava nas ruas a inspiração para suas pinturas e esculturas.

Jorge Amado e Carybé em cena de "3 Obás de Xangô" — Foto: Divulgação Jorge Amado e Carybé em cena de “3 Obás de Xangô” — Foto: Divulgação

Os três artistas foram elevados ao título de Obá de Xangô por Mãe Senhora, terceira Iyalorixá (mãe de santo, na língua iorubá) do terreiro Ilê Axé Opô Afonjá, em Salvador. Mais do que um embaixador, um obá tem como função proteger o candomblé. Ateu, Amado criou a lei que proíbe a perseguição religiosa no Brasil quando deputado do Partido Comunista Brasileiro.

— Como obás, eles se correspondiam com frequência sobre os assuntos do terreiro — diz Josélia Aguiar. — Esse era um dever deles. Estavam sempre atentos a questões do dia a dia, como a estrutura, a saúde dos líderes espirituais, a relação com poderes políticos.

Tom ensaístico e pessoal

Como biógrafa de Jorge Amado, Josélia acompanhou as principais discussões em torno do escritor. Muitos críticos, segundo ela, não entendiam por que um filho de coronel de cacau, com fama internacional, mantinha uma relação tão intensa com o candomblé.

— Esses bastidores revelados no filme mostram que ele mantinha uma pesquisa etnográfica, uma experiência como artista e como pessoa nesses ambientes — diz a roteirista. — Uma amiga minha que viu o documentário, falou: agora finalmente entendi o que esses caras faziam no candomblé.

Com sua tese muito bem fundamentada, o filme tem um tom ensaístico, mas também é uma das obras mais pessoais de Sérgio Machado. O cineasta cresceu nos terreiros. Sua mãe, Ieda Machado, trabalhava no Centro Estudos Afro-Orientais da UFB e militava contra a intolerância religiosa. Seu nome consta nos agradecimentos de Jorge Amado no final de “Dona Flor e seus dois maridos”.

Infância com Mães Stella e Pierre Verger

Assim como os três artistas do documentário, o primeiro longa de ficção de Machado, “Cidade Baixa” (2005), também se inspira na realidade das ruas de Salvador (o filme de estreia, aliás, é protagonizado por Lázaro Ramos, que narra “3 Obás de Xangô”).

— Eu me insiro na mesma tradição deles, claro que aqui do meu tamanho — diz Machado. — Para fazer “Cidade Baixa”, fiquei quatro meses morando no submudo da cidade, e tudo que está no filme é algo que presenciei ou ouvi de alguém. Muitos dos personagens de “3 Obás de Xangô” fazem parte da minha infância, minha mãe convivia com figuras como Pierre Verger e Mãe Stella. Quando mudei para São Paulo, me afastei desse universo, e agora percebi que era hora de voltar.