A Clínica Nery do Vale, em Braga, foi distinguida recentemente com o Loop Design Awards (“Category Winner”), prémio internacional de arquitetura.

Com projeto do gabinete Tiago do Vale Arquitectos, de Braga, este espaço dedicado à medicina dentária surge a partir de um outro já existente, mas que tinha um “ambiente austero, frio e intimidante”

Contudo, a equipa de arquitectos considerou que havia um “fortíssimo potencial latente de relação com o exterior e a natureza”.

Por isso, quiseram criar um ambiente “sereno e acolhedor, capaz de contrariar a imagem intimidatória frequentemente associada à prática da medicina dentária”.

Para tal, conciliam-se os “imperativos técnicos – assepsia, desinfecção, ergonomia – com uma linguagem espacial de carácter doméstico, caloroso e relaxante”.

O “calor” da madeira e o “desenho cuidado” tornam-se, portanto, instrumentos de conforto, convocando texturas e memórias que “aproximam a clínica do lar”.

A recepção, espaço do primeiro contacto, estabelece o mote para a experiência da Clínica. Um tapete em taco de madeira, cadeirões informais, um balcão desenhado como se fora uma secretária de estudo, e apontamentos cromáticos pontuais compõem um ambiente que retira o paciente do universo clínico convencional e inscreve-o num lugar de familiaridade e conforto doméstico, conforme descreve o atelier Tiago do Vale Arquitectos.

A circulação faz-se agora pela luz, sobre um soalho em madeira, “reforçando a relação da clínica com um antigo muro em pedra granítica, integrado numa envolvente verde qualificada”.

Entre o corredor e os gabinetes, uma parede de blocos de vidro “medeia a relação com o exterior”, onde o verde natural se revela como “paisagem terapêutica”.

É nessa direção que se orienta a cadeira odontológica, incluíndo-se também a presença de um “discreto” banco, acolhendo um possível acompanhante.

O mobiliário de apoio “renuncia à linguagem técnica e aproxima-se do universo doméstico”, evocando o desenho de aparadores e cristaleiras. Ainda assim, sem comprometer a performance técnica das salas, com pavimento anti-estático contínuo e sem juntas, superfícies laváveis e desinfectáveis, e uma luz neutra e abundante, “cuidadosamente distribuída para anular sombras e garantir máxima visibilidade”.

A luz quente, reservada aos espaços de espera, ao consultório e às circulações comuns, sublinha a “identidade e a natureza de cada momento”.

Braga: arquitectos quiseram humanizar clínica dentária e ganharam prémio internacionalFoto: João MorgadoBraga: arquitectos quiseram humanizar clínica dentária e ganharam prémio internacionalFoto: João MorgadoBraga: arquitectos quiseram humanizar clínica dentária e ganharam prémio internacionalFoto: João MorgadoBraga: arquitectos quiseram humanizar clínica dentária e ganharam prémio internacionalFoto: João MorgadoBraga: arquitectos quiseram humanizar clínica dentária e ganharam prémio internacionalFoto: João MorgadoBraga: arquitectos quiseram humanizar clínica dentária e ganharam prémio internacionalFoto: João MorgadoBraga: arquitectos quiseram humanizar clínica dentária e ganharam prémio internacionalFoto: João MorgadoBraga: arquitectos quiseram humanizar clínica dentária e ganharam prémio internacionalFoto: João MorgadoBraga: arquitectos quiseram humanizar clínica dentária e ganharam prémio internacionalFoto: João MorgadoBraga: arquitectos quiseram humanizar clínica dentária e ganharam prémio internacionalFoto: João MorgadoBraga: arquitectos quiseram humanizar clínica dentária e ganharam prémio internacionalFoto: João MorgadoBraga: arquitectos quiseram humanizar clínica dentária e ganharam prémio internacionalFoto: João MorgadoBraga: arquitectos quiseram humanizar clínica dentária e ganharam prémio internacionalFoto: João MorgadoBraga: arquitectos quiseram humanizar clínica dentária e ganharam prémio internacionalFoto: João MorgadoBraga: arquitectos quiseram humanizar clínica dentária e ganharam prémio internacionalFoto: João MorgadoBraga: arquitectos quiseram humanizar clínica dentária e ganharam prémio internacionalFoto: João MorgadoBraga: arquitectos quiseram humanizar clínica dentária e ganharam prémio internacionalFoto: João MorgadoBraga: arquitectos quiseram humanizar clínica dentária e ganharam prémio internacionalFoto: João MorgadoBraga: arquitectos quiseram humanizar clínica dentária e ganharam prémio internacionalFoto: João MorgadoBraga: arquitectos quiseram humanizar clínica dentária e ganharam prémio internacionalFoto: João MorgadoBraga: arquitectos quiseram humanizar clínica dentária e ganharam prémio internacionalFoto: João Morgado

Em paralelo ao percurso dos pacientes, que acompanha os vãos exteriores, delineia-se, do lado oposto, um segundo circuito, de uso estritamente clínico, que permite a separação entre circulações comuns e circulações de serviço. Desenvolvendo-se através de portas de correr, assegura simultaneamente ligação e contenção entre salas.

O consultório volta a citar o universo doméstico: “a madeira, o mobiliário informal, o uso da cor e a inclusão de uma pequena copa compõem um espaço de trabalho que é, também, um lugar de encontro e de escuta”.

Os arquitectos frisam que a zona de esterilização, concebida longitudinalmente entre as circulações sujas e as circulações limpas, permite procedimentos sequenciais, em conformidade com as exigências técnicas da prática médica.

Por fim, a intervenção contempla ainda espaços dedicados à ortopantomografia e instalações sanitárias que, por sua vez, dão acesso a um vestiário e à zona técnica.

Em suma, o gabinete de arquitetura sublinha que projeto da Clínica Nery do Vale propõe uma “reflexão sobre o papel da arquitectura no cuidado médico, não se limitando a organizar funções mas oferecendo, através do desenho, conforto, dignidade e sensibilidade”.

“A proposta resgata a experiência do espaço clínico do domínio técnico e impessoal, projetando-o para a humanidade e a proximidade”, refere.

E conclui: “Este é um lugar onde a luz natural, a materialidade e a natureza participam no acto médico, acolhendo e reconfortando: um espaço que, sendo profundamente funcional, não abdica de ser afectivo. Num tempo em que a técnica tende a obscurecer a empatia, propõe-se uma reconciliação entre ambos os mundos, oferecendo a arquitectura como instrumento de cuidado”.

O projeto foi liderados pelos arquitectos Tiago do Vale e Adriana Gomes, com o apoio de Clementina Silva, Paula Campos e Alara Çaǧla.

A construção esteve a cargo da empresa Construbox, sediada em Vila Verde.

Os Loop Design Awards, registados desde 2021 em Portugal, contam com uma equipa global composta ainda por elementos dos Estados Undos da América e Japão.

Nesta sexta edição contou com mais de 4.000 submissões oriundas de 58 países diferentes.

O Tiago do Vale Arquitectos foi ainda distinguido, neste prémio, pelo Edifício Aurora 10, em Ponte de Lima, e o espaço Recesso das Garrafas, em Braga.