Em Histórias de uma garota malcomportada, a autora estadunidense Nettie Jones resgata suas próprias experiências para retratar a vida de uma jovem entre a boemia de Nova York e a comunidade negra de Detroit nos anos 70.
A hipersexualidade da protagonista e as descrições de cenas em que ela se envolve com drogas e sexo fizeram a autora ser considerada pornográfica e ter sua obra tirada de circulação por décadas.
Editado pela vencedora do Nobel Toni Morrison, o primeiro romance de Jones chega às livrarias brasileiras pela editora Fósforo, em tradução de nina rizzi, mais de quatro décadas depois de sua publicação original.
Leia um trecho do livro a seguir.
Trecho de ‘Histórias de uma garota malcomportada’
Jason tinha um sorriso torto e um jeito torto, chamava a si mesmo de Pasqua porque achava que seu pai era meio mexicano. Com orgulho disse: “Sou meio mexicano, meio irlandês, meio chinês, meio espanhol, meio indígena e meio negro”. Em que ordem e em que proporções? Foi o que me perguntei, olhando o rapaz alto, magro e de cor amarelo-merda na casa dos vinte que estava deitado todo sorridente ao meu lado. A irmã dele estava de férias e nós estávamos na cama dela. Jason tinha orgulho da irmã tanto quanto da própria ascendência internacional. Ela era meio judia, descobri depois. Ele estava tentando me beijar. Eu fingia não saber dar beijo de língua. Veja bem, os dentes de Jason não eram apenas amarelos. Os que sobraram estavam cariados; umas manchinhas pretas do tamanho de formigas pintavam os dentes da frente. Tinham uma grande brecha, que, conforme o ditado dos mais velhos, indicava que ele mentia muito. Eu não gostava de me deitar na cama da irmã com ele e não gostava dele. Mas eu tinha que fazer o que ele queria, pensava, por causa da minha condição. Minha menstruação não vinha e normalmente isso não indica menopausa quando se tem dezesseis anos. Eu estava apavorada de não obedecer, de ele perceber que eu não gostava dele. Fechei os olhos enquanto ele puxava de mim o edredom e o lençol de cetim branco da maninha. Eu não queria ver a coisa grande dele nunca mais. Nem queria olhar enquanto ele puxava minha anágua e descia minha roupa de baixo. No início dos anos cinquenta, as boas meninas não olhavam. Com certeza elas não se despiam para nenhum rapaz. Aposto que minha mãe nunca fez nada disso.
“Que belo corpo você tem”, ele disse enquanto baixava pouco a pouco a calcinha de algodão branco por minhas pernas e pés. Eu realmente não sei se Jason estava mentindo, já que eu devia ter uns vinte e cinco anos quando ousei olhar para o meu corpo com atenção suficiente para poder avaliar. Não tinha visto o meu próprio cu até os trinta e três. Torci para que Jason não olhasse para os meus pés gigantes quando minha calcinha passasse por eles. Eu odiava meus dedos; os dois primeiros eram tão grandes quanto o dedão. E com dezesseis anos eu já tinha calos de tanto tentar enfiar um tamanho 38 em um 36. Jackie Kennedy fez mais por mim nos anos sessenta do que qualquer outra pessoa quando publicaram o tamanho de seus pés no Detroit Free Press. Jason tinha pés realmente pequenos para um cara de um metro e noventa. Eu diria que era um 42, de peito largo, dedos curtos e um calcanhar bem arredondado. Já as pernas finas ficavam melhor cobertas; eram retas e sem pelos. Ele não olhou para os meus pés; estava ocupado demais tentando se enfiar em mim. A brilhantina de seu topete deu nojo ao encostar na minha barriga, que ele beijou fazendo estalos enquanto passeava pelo meu “belo corpo”.
Tentei manter minhas coxas unidas o máximo que pude quando ele chegou ali. Abri os olhos apenas o tempo de notar o teto dourado da maninha. Nossa, como eu queria que ele pulasse essa parte do dedilhado. Eu odiava aquele dedo entrando e saindo do meu corpo com desleixo. Só me deixava irritada. Virei o rosto bem devagar no travesseiro. Não queria que ele visse a repulsa escancarada nos meus olhos. “Você tá pronta?”, ele perguntou meio rouco enquanto se esgueirava pelo meu corpo. Tentei relaxar porque sabia que na hora que ele sentisse sua coisa na minha, iria me atacar com toda força. Jason, como tantos homens que conheci desde então, amava entradas dramáticas. Talvez, pensei enquanto ele remexia os quadris, se eu o ajudar a me machucar, eu perca o bebê. Não vou precisar contar para ninguém. “Isso, Lewis, vai. Ai! Que delícia. Você gosta, num gosta? Sei que gosta”, ele disse sem fôlego num balanço para trás. “Você age como se nem gostasse.” Ele estava socando forte nessa hora. O suor escorria por minhas coxas, fazendo uns barulhos estridentes. De uma vez, ele levantou minhas pernas e colocou nos ombros. Ele estava pronto pra se cravar em mim. Eu me aproximei sem vergonha do peito amarelado dele, estreito e sem pelos, abrindo minhas coxas o máximo que pude. Tentei engoli-lo, pensei sentir o sangue.
“Acho que tô sentindo sangue”, eu disse. “Não quero sujar os lindos lençóis brancos da sua irmã.”
No banheiro, desenrolei o papel higiênico freneticamente e enfiei no meio das pernas. Nada de sangue, só aquele ranho mesmo.
Enrolada numa das toalhas amarelas felpudas com as iniciais de sua amada irmã, voltei para aquele quarto e me arrastei de novo para o lado dele, na cama daquela mulher. Ele estava deitado lá com as roupas de cama ainda jogadas pra trás, enrolando uma mecha de cabelo com os dedos, bebendo um copo de Ki-Suco e assistindo a um filme antigo de Alan Ladd. Esperei até o intervalo antes de dar a notícia. “Tô grávida. De uns dois meses, acho”, eu disse com delicadeza, encarando-o pela primeira vez em muito tempo, ao que parecia.
Ele sorriu com malícia enquanto voltava a assistir ao comercial. “Grávida? De quem é o bebê? Alguém que eu conheço?”

