O preço dos ovos pode voltar a subir em Portugal nas próximas semanas, refletindo a pressão crescente do mercado espanhol, fortemente afetado por novos surtos de gripe das aves. A situação está a preocupar o setor avícola, que alerta para um impacto inevitável nos preços ao consumidor.
Em entrevista à Executive Digest, Pedro Ribeiro, secretário-geral da ANCAVE – Associação Nacional dos Centros de Abate e Indústrias Transformadoras – e da FEPASA – Federação Portuguesa das Associações Avícolas –, explica que, embora Portugal tenha conseguido evitar grandes focos de gripe aviária nos últimos dois anos, a situação em Espanha pode vir a contagiar o mercado nacional. “Nós no setor estamos a lidar com a gripe aviária há vários anos a esta parte. Aliás, nos dois últimos anos, em Portugal, até praticamente não tem havido casos”, afirma. “Houve um caso numa exploração de ovos e outro numa exploração comercial de patos, mas, para além disso, apenas em aves selvagens e em pequenas detenções caseiras.”
O dirigente sublinha que o setor nacional “segue esta questão há muitos anos” e que “todas as empresas têm planos de contingência e de biossegurança”, com “as autoridades nacionais a monitorizar constantemente a situação”. No entanto, alerta para o facto de a situação “ter-se agravado em Espanha nos últimos meses”, com “vários focos de infeção que afetaram explorações de galinhas poedeiras”.
“Qual é a nossa expectativa? Pelo menos a minha é que, em Portugal, nós não temos tido grandes problemas, mas é expectável que, por influência de Espanha, se de facto continuarem a existir focos que afetem grandes explorações de poedeiras, isso possa vir a refletir-se no mercado nacional”, explica.
Pedro Ribeiro recorda que “existem muitas trocas externas com Espanha, quer de importação, quer de exportação”, e, por isso, “se houver uma pressão sobre o mercado espanhol, é natural que os preços se mantenham altos”. “Os preços já estão altos há algum tempo, não é de agora”, acrescenta, destacando que um eventual agravamento “das condições em Espanha” ou o aparecimento “de algum caso relevante em Portugal” poderá ter impacto direto num mercado “que já está sob pressão”.
Em Espanha, o cenário está longe de ser animador. O veterinário espanhol Juan Carlos Saavedra, especialista em microbiologia alimentar, alertou recentemente que o preço da dúzia de ovos poderá atingir os 8 euros antes do final de novembro e chegar “aos 10 ou 12 euros no Natal”. A escalada deve-se sobretudo à gripe aviária, que já levou ao abate de cerca de 5% das galinhas espanholas, ou seja, vários milhões de aves, e a uma inflação que voltou a subir para 3,1%.
Confrontado com a possibilidade de um aumento semelhante em Portugal, Pedro Ribeiro admite que, embora “neste momento seja especulativo”, não se pode dizer que seja impossível. “Nos Estados Unidos isso aconteceu há cerca de um ano. Tiveram uma crise enorme, tiveram de abater milhões de aves por causa da gripe aviária, e houve alturas em que a dúzia de ovos, se não chegou aos 12 dólares, andou perto disso – pelo menos aos 8 ou 10 dólares chegou seguramente.”
Ainda assim, o secretário-geral da ANCAVE acredita que a Europa dispõe de mecanismos que podem mitigar um cenário extremo. “Penso que não é a mesma coisa, porque o mercado europeu tem uma grande conectividade com outros mercados, como a Ucrânia e outros extracomunitários, de onde também importamos. Portanto, duvido que chegue a esse extremo, mas que poderá haver algum aumento e alguma pressão sobre os preços, isso é evidente”, sublinha.
Questionado sobre a hipótese de um cenário “apocalíptico de prateleiras vazias”, o responsável rejeita a ideia: “Não penso que chegue a isso. Mas é natural que os preços continuem altos.”
O alerta surge numa altura em que a Direção-Geral de Alimentação e Veterinária (DGAV) confirmou que “o risco de disseminação da gripe das aves é elevado”, devido ao aumento de focos em toda a Europa e ao seu alastramento geográfico. Portugal já registou 31 focos de infeção este ano, o que levou à imposição de confinamento obrigatório de aves em zonas de alto risco e à proibição de feiras, mercados e circulação de ovos para consumo humano nas zonas de vigilância.
Com a aproximação do Natal e o aumento da procura, o setor teme que a pressão combinada entre surtos sanitários e custos de produção possa manter o preço dos ovos em níveis elevados. “É um mercado sensível e qualquer disrupção tem reflexo imediato nos preços”, conclui Pedro Ribeiro, que apela ao reforço da vigilância sanitária e da cooperação ibérica para evitar uma nova escalada que atinja os consumidores portugueses.