O mercado global do petróleo enfrenta um excedente crescente que mantém os preços em baixa e poderá marcar uma transformação estrutural. Segundo o ‘El Confidencial’, o compromisso da Arábia Saudita e da OPEP em abdicar do papel estabilizador contribui para este cenário, mas é o arranque iminente do megaprojeto de gás natural de Jafurah que abre uma nova fase de pressão sobre o mercado.

O Reino planeia utilizar a produção de Jafurah — um dos maiores campos de gás do mundo — para abastecer o consumo interno de eletricidade, substituindo o petróleo que atualmente cumpre essa função. Essa mudança libertará centenas de milhares de barris por dia, que serão canalizados para exportação num mercado já saturado.

Norbert Rucker, analista do ‘Julius Baer’, explica que o setor energético está a assistir ao comissionamento de vários projetos de grande escala em petróleo e gás, desde terminais de GNL nos EUA a plataformas offshore no Brasil. Apesar do aumento de oferta global, Riade não procura contê-lo, mas sim integrá-lo com a expansão de Jafurah.

Projeto gigante com impacto global

Aprovado em 2020 e desenvolvido pela Aramco desde 2021, Jafurah concentra cerca de 229 biliões de pés cúbicos de gás e 75 mil milhões de barris de condensado, constituindo o maior projeto de gás da Arábia Saudita e um dos mais relevantes à escala mundial fora da Bacia Permiana. A produção inicial deverá arrancar ainda este ano, com pico previsto para 2030.

Segundo o ‘El Confidencial’, a AIE estima que o consumo doméstico de petróleo do Reino diminua em um milhão de barris por dia até 2025, resultado direto do uso do gás e da expansão das energias renováveis. Estes barris adicionais serão dirigidos ao mercado internacional, ampliando a oferta num contexto já marcado por excesso de produção.

Visão 2030: maximizar receitas hoje para diversificar amanhã

A decisão integra a estratégia Visão 2030, que pretende reduzir a dependência económica do petróleo. O príncipe herdeiro Mohammed bin Salman defende que o Reino deve acelerar o crescimento económico investindo os lucros petrolíferos em novas indústrias e fontes de energia. O reforço da exportação, aliado ao desenvolvimento de mais projetos de gás, serve esse duplo objetivo: financiar a modernização interna e diminuir a vulnerabilidade perante possíveis quedas globais da procura por petróleo.

A empresa ‘Julius Baer’ considera que Jafurah confirma que o mercado entrou no auge da oferta. A consultora prevê que os preços do petróleo se aproximem dos 60 dólares, ou até menos, à medida que a nova vaga de produção se concretiza.

Gás para o mercado interno, petróleo para o mundo

Especialistas da S&P Global sublinham que Riade pretende reduzir significativamente o uso de combustíveis líquidos até 2030, recorrendo a gás e fontes renováveis para alimentar o sistema energético. A empresa estima que o consumo doméstico de petróleo bruto desça para 390 mil barris por dia em 2026, tendência que deverá acelerar com a entrada em operação da primeira fase de Jafurah no final de 2025. O investimento total ronda os 11 mil milhões de dólares, com participação de grandes fundos como GIP e BlackRock.

Segundo a Argus, hoje 57% da eletricidade saudita depende do gás e 43% de combustíveis líquidos. Com Jafurah, a Aramco prevê aumentar em cerca de 60% a sua produção de gás até 2030, garantindo um fluxo adicional anual entre 9 e 10 mil milhões de dólares no final da década.

A Aramco pretende direcionar esta expansão sobretudo para o abastecimento interno e para indústrias petroquímicas e de refinação, permitindo reduzir o uso de petróleo na produção de eletricidade. A ‘Julius Baer’ estima que cerca de um milhão de barris por dia acabará por ser libertado para exportação.

Norbert Rucker afirma que o setor petroquímico enfrenta sobrecapacidade, mas beneficia do baixo custo das matérias-primas provenientes da crescente disponibilidade de gás. Para o analista, Jafurah simboliza a nova era do mercado: um excedente estrutural de oferta que deverá manter os preços do petróleo em níveis baixos nos próximos meses.