“A cidade não deu certo. A tendência óbvia é de um esvaziamento pela tragédia urbana que ela mesma criou”, afirmou o arquiteto Fábio Penteado, à Folha, em 1994.

Mais de três décadas depois, diagnósticos similares ao de Penteado se repetem, à medida que os problemas citados por ele se mostram contemporâneos. Alguns deles são a falta de espaços verdes, a poluição dos rios e uma malha de metrô aquém do necessário —para ele, a cidade precisava de, no mínimo, 400 quilômetros de trilhos subterrâneos.

Essas preocupações refletem a relação de Penteado com a arquitetura, que, para ele, precisa incluir as multidões.

Um dos principais nomes da escola paulista e autor de importantes projetos no estado, Penteado tem parte de sua obra em exposição no Centro de Convivência Cultural, em Campinas, espaço com projeto do próprio arquiteto.

A mostra reúne projetos, maquetes, fotos, pertences e textos que dissecam sua obra. São dele os projetos do Hospital Escola Júlio de Mesquita Filho —hoje o Fórum Criminal da Barra Funda—, da Sede Harmonia de Tênis e do Centro de Convivência Cultural, em Campinas.

Com curadoria do arquiteto e crítico Guilherme Wisnik, a exposição explica de forma didática o trabalho de Penteado, detalhando alguns de seus projetos, executados ou não. Ali está, por exemplo, a maquete do Teatro Municipal de Piracicaba, que não chegou a se tornar uma obra, mas que expressa com precisão o olhar do arquiteto.

Seu estilo se caracteriza pela integração entre edifício e ambiente —e, muitas vezes, com o próprio solo. Trabalhando com desníveis, seus projetos transitam entre o subterrâneo e a superfície, de modo a tornar tudo uma coisa só. Penteado pensava em prédios que não se impusessem sobre a cidade, mas que fizessem parte dela.

“O acervo de Penteado mostra sua atualidade”, afirma Wisnik. “Na época de plena produção de sua criatividade, ele já projetava segundo um modelo organicista, mesclando arquitetura, paisagismo e urbanismo.”

O prédio do Centro de Convivência, em Campinas, é um exemplo dessa abordagem, talvez o mais importante projeto do arquiteto no interior do estado. Penteado parece brincar com os desníveis em uma praça de solo regular. O espaço abriga um teatro de arena com três grandes arquibancadas e um palco rebaixado.

As arquibancadas não se impõem como gigantes de concreto quando vistas de fora, embora revelem sua dimensão monumental a partir do centro do teatro.

Ao mesmo tempo em que não agridem o ambiente, como uma coisa qualquer de concreto erguida pela cidade, as costas dessas estruturas abrigam a entrada de outros ambientes, onde ficam o foyer, uma sala de teatro e duas galerias subterrâneas.

Na exposição, uma das salas concentra a parte museológica, com desenhos catalogados do artista. Estão ali os projetos do Hospital Escola Júlio de Mesquita, do Teatro Municipal de Piracicaba, do Condomínio Sunshine —uma obra particular— e do Teatro de Ópera de Campinas —este também não construído.

Ali também está o projeto do monumento “Playa Girón”, feito em homenagem à vitória dos revolucionários cubanos na Baía dos Porcos, em 1961. O projeto conquistou o segundo lugar em um concurso internacional que atraiu arquitetos de todo o mundo.

Comunista declarado, Penteado era afeito a Cuba e à arquitetura russa. Parte dos itens expostos é composta por livros de arquitetura soviética, fotos de viagens a Moscou e volumes sobre Cuba. Esses itens estão em uma segunda sala, que também reúne óculos, revistas, retratos e mais projetos.

Entre os destaques há uma carta enviada ao marechal Arthur da Costa e Silva, em que o arquiteto questiona a prisão do colega Geraldo de Sá Nogueira durante a ditadura militar. À época, Penteado presidia o IAB, o Instituto de Arquitetos do Brasil.

Chamadas “Pétalas e Estrelas”, a mostra deriva de uma exposição realizada em Portugal em 2018, ano em que o acervo de projetos de Fábio Penteado —gerido por sua filha, Adriana Penteado— foi exibido na Casa da Arquitectura, no Porto.

“‘Pétalas e Estrelas’ revela a singularidade de Penteado”, diz Wisnik. “Muitos de seus projetos rompem com a tradição da ortogonalidade, buscando um organicismo mais próximo das formas da natureza — conchas, casulos, colmeias, aranhas”.

Além dos itens descritos, a exposição inclui dois curtas-metragens sobre a vida e a obra de Penteado.