A investigação encerra décadas de debate científico sobre como os Neandertais se adaptaram aos climas frios europeus.

Reconstrução digital da cavidade nasal direita (a amarelo) do crânio neandertal de Altamura
Costantino Buzi
Uma nova investigação sobre o Neandertal de Altamura (Itália), um dos esqueletos fósseis mais excecionais e um verdadeiro símbolo da paleoantropologia analisou as estruturas internas do nariz desta espécie extinta e apresentou novas ideias sobre a morfologia facial desta espécie e a sua adaptação ao frio.
O estudo, liderado por investigadores italianos e publicado na revista Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS), concluiu que os Neandertais não possuíam características internas únicas na cavidade nasal, encerrando décadas de debate científico sobre como esta espécie se adaptou ao frio europeu.
A investigação demonstra que, apesar da grande abertura nasal e do prognatismo médio-facial, o nariz do Neandertal era perfeitamente eficiente para as suas necessidades energéticas.
Um crânio de Neandertal foi descoberto numa gruta em Altamura, Itália, em 1993.
Constantino Buzi/IPHES-CERCA
O Neandertal mais antigo que se conhece
Durante décadas, a dificuldade de acesso à parte da gruta onde se encontra impediu o estudo dos restos mortais, inicialmente atribuídos ao Homo heidelbergensis, até 2015, quando uma equipa de cientistas da Universidade Sapienza de Roma (Itália) inseriu um braço robótico e extraiu uma amostra da omoplata direita do esqueleto.
Esta análise genética confirmou que se tratava de um Neandertal de há entre 130.000 e 172.000 anos, um dos mais antigos conhecidos até à data.
Os Neandertais, espécie humana extinta que habitou a Europa, o Médio Oriente e a Ásia Central durante o Pleistoceno e coexistiu com o Homo sapiens, são essenciais para a compreensão da evolução humana.
A sua anatomia, muito mais robusta do que a dos humanos modernos, incluía um tórax amplo, uma bacia larga e membros curtos – uma série de características que provavelmente permitiram à espécie adaptar-se ao clima frio.
Contudo, embora o corpo do Neandertal reflita essa adaptação, o seu rosto e nariz não se encaixam nesse padrão: esses humanos possuíam uma abertura nasal muito ampla e um rosto projetado para a frente – conhecido como prognatismo médio-facial – características aparentemente contraditórias às adaptações usuais ao frio.
Para explicar este paradoxo, alguns cientistas propuseram que os Neandertais desenvolveram características internas únicas na cavidade nasal que os ajudaram a compensar a falta de adaptação externa do nariz, argumentos que alimentaram um debate complexo e prolongado durante décadas sobre a adaptação desta espécie ao frio.
Adaptação do Neandertal ao frio da Europa
A nova investigação liderada por Constantino Buzi, investigador da Universidade de Perugia e afiliado no Instituto Catalão de Paleoecologia Humana e Evolução Social (IPHES-CERCA), analisou a morfologia nasal dos Neandertais, recorreu a tecnologia endoscópica de alta resolução e conseguiu analisar as estruturas internas do nariz do Neandertal de Altamura com um detalhe sem precedentes, apresentou resultados conclusivos: a espécie não apresenta características internas únicas nem adaptações internas específicas.
Alguns cientistas fizeram suposições “baseadas em evidências incompletas”, explicou Antonio Profico, investigador da Universidade de Pisa e coautor do estudo.
Mas tais características não existem e “mesmo sem estas supostas adaptações, o nariz do Neandertal era perfeitamente eficiente para satisfazer as elevadas exigências energéticas da espécie”, concluiu.
“Quando incorporamos a bioenergética, o ‘paradoxo’ da grande abertura nasal desaparece. É exatamente o que seria de esperar numa espécie adaptada ao frio, mas com uma morfologia craniana arcaica”, explicou, por sua vez, o coautor Carlos Lorenzo, investigador do IPHES-CERCA e da Universidade Rovira i Virgili.
A equipa defende que o prognatismo médio-facial característico dos Neandertais não se desenvolveu, provavelmente, como resposta direta às necessidades respiratórias, mas sim como resultado de uma combinação de diversas pressões evolutivas e restrições morfológicas que, em conjunto, moldaram um rosto diferente dos atuais humanos, porém “totalmente funcional nos ambientes frios da Europa do Plistocénico”, salientaram os autores.
O estudo incluiu um modelo tridimensional completo da cavidade nasal derivado de imagens endoscópicas, que permitirá futuros estudos sobre o desempenho respiratório dos Neandertais e as suas adaptações fisiológicas.