Universal / DivulgaçãoMatt Damon em cena de “Jason Bourne” (2016), filme dirigido por Paul Greengrass.Universal / Divulgação

Sem alarde, a Netflix adicionou ao seu menu os cinco filmes de um personagem que exerceu grande influência nos gêneros da ação e da espionagem: Jason Bourne.

Como seu antecessor que tem as mesmas iniciais, James Bond, Jason Bourne nasceu nas páginas de um livro. Foi criado pelo escritor estadunidense Robert Ludlum (1927-2001), autor de uma trilogia publicada entre 1980 e 1990 — as adaptações para o cinema seguiram os mesmos títulos: A Identidade Bourne (The Bourne Identity, 2002), A Supremacia Bourne (The Bourne Supremacy, 2004) e O Ultimato Bourne (The Bourne Ultimatum, 2007). Depois, outro romancista, Eric van Lustbader, escreveu mais 11 aventuras do herói, entre 2004 e 2017.

Ludlum morreu pouco antes da estreia de A Identidade Bourne, em que personagem interpretado por Matt Damon surge flutuando no Mar Mediterrâneo, com dois tiros nas costas. Aos poucos, ele vai descobrir que é um assassino de elite da CIA, a agência de inteligência dos Estados Unidos.

UIP / DivulgaçãoMatt Damon em cena de “A Identidade Bourne” (2002), filme dirigido por Doug Liman.UIP / Divulgação

A direção coube ao estadunidense Doug Liman, mas quem deu rosto e corpo à saga foi o inglês Paul Greengrass, que assinou A Supremacia Bourne, O Ultimato Bourne e Jason Bourne (2016) — filme que, por enquanto, marcou a despedida do personagem (há rumores de que possa voltar, dependendo muito da disposição de Matt Damon). Entre o terceiro e o quinto título, houve O Legado Bourne (The Bourne Legacy, 2012), dirigido por Tony Gilroy e protagonizado por Jeremy Renner, também disponível na Netflix e sem impacto algum na trama que encerrou a franquia.

Greengrass trouxe para o universo de Bourne as armas de sua filmografia: o realismo cru, em tom semidocumental, mas com pontos de vista subjetivos, e o uso de câmera na mão. Esse senso de urgência é acentuado por uma montagem sufocante. 

Para esquentar ainda mais o ambiente, o diretor adota um método caótico: não isola seus cenários, ou seja, os atores misturam-se à multidão que frequenta, por exemplo, a estação de metrô Waterloo, em Londres, como visto em O Ultimato Bourne. Já em Jason Bourne, uma sequência de perseguição automobilística em Las Vegas destruiu 170 carros.

Tamanho verismo causa um paradoxo: se por um lado torna a ação mais espetacular, por outro é uma tentativa de evitar a espetacularização da violência — como já indicavam, por exemplo, o vômito da personagem Marie em A Identidade Bourne, após ver um homem se jogar para a morte, e também a romaria de Jason para pedir perdão a suas vítimas em A Supremacia Bourne. Sem o distanciamento dos efeitos especiais ou das frases de efeito, sentimos com os personagens cada golpe.

O cineasta também levou para os thrillers do espião sua veia política e jornalística. Paul Greengrass é o autor de Domingo Sangrento (2002), vencedor do Urso de Ouro no Festival de Berlim, uma reconstituição do massacre de manifestantes católicos por soldados britânicos na cidade de Derry, na Irlanda do Norte, em 1972; e de Voo United 93 (2006), que reencena as últimas horas da tripulação, dos passageiros e dos terroristas no único avião sequestrado no 11 de Setembro a não atingir seu alvo. Também com Matt Damon, ele fez Zona Verde (2010), sobre a guerra no Iraque, e, em Capitão Phillips (2013), contou a história do marinheiro mercante levado como refém por piratas somalis em 2009.

Sob o comando de Greengrass, Jason Bourne, criado na época da Guerra Fria, passou por um banho de contemporaneidade. Ele continua sendo um agente secreto que sofreu lavagem cerebral ao ser treinado para missões cuja responsabilidade não pode ser assumida publicamente pelo governo dos EUA — por exemplo, o assassinato de chefes de Estado. Mas, na ausência dos vilões soviéticos, agora lida com a globalização do terrorismo, a polêmica política de segurança e vigilância estadunidense, a perda da identidade.

Em Jason Bourne, o protagonista vai da Islândia a Las Vegas, passando por Atenas e Londres, tentando recordar de seu passado enquanto se enreda pelos bastidores das sujeiras do diretor da CIA (Tommy Lee Jones) e do agente secreto a quem este confia suas missões escusas (Vincent Cassel). O inimigo, portanto, é o próprio governo dos EUA. Além disso, ao abordar a obscura relação da agência com uma empresa global de tecnologia (cujo CEO é vivido por Riz Ahmed) para monitorar os passos virtuais de todos os cidadãos, Paul Greengrass cita explicitamente o caso Edward Snowden, informante que revelou esquema semelhante em 2013.

Universal / DivulgaçãoDaniel Craig em “007: Quantum of Solace” (2008): James Bond do século 21 foi influenciado por Jason Bourne.Universal / Divulgação

A saga de Jason Bourne obteve sucesso comercial (arrecadou US$ 1,6 bilhão nas bilheterias) e reconhecimento artístico: O Ultimato Bourne valeu o Oscar de melhor edição a Christopher Rouse, e a trilogia original foi adquirida pelo MoMa, o Museu de Arte Moderna de Nova York, que a exibiu e promoveu debates com diretor e equipe. Assim, seu estilo e sua abordagem inspiraram outras obras. 

A câmera e a edição nervosas podem ser vistas na trilogia Busca Implacável (2008-2015), que transformou o veterano Liam Neeson em um astro tardio do gênero. Salt (2010) é praticamente uma versão feminina de Bourne: Angelina Jolie encarna uma agente da CIA acusada de traição e colaboração com os russos. Atômica (2017), com Charlize Theron, também bebeu da fonte. A principal influência foi sentida na franquia 007. Em Cassino Royale (2006), a estreia do ator Daniel Craig no papel que imortalizou Sean Connery, James Bond assume uma persona mais bruta. O mesmo acontece nas cenas de ação, mais realistas e urgentes.

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