Sempre se identificou com a imagem de «uma mulher forte». «Acredito que, no que faço e na minha autoestima, há uma afirmação das mulheres. Há poder», disse numa entrevista. Gosta de fazer as coisas à sua maneira e tem a sua própria linguagem. Defende que a música tem a magia de transcender territórios e acha bonito quando as pessoas se permitem chorar. E, na verdade, muitos são os fãs que o têm feito nos últimos dias depois desta apresentar ao mundo o seu quarto álbum de estúdio, LUX – que produziu 97% sozinha –, descrito por muitos como «avassalador» e «visionário».
Segundo o Pitchfork – site de notícias de música conhecido pelas suas críticas detalhadas de álbuns –, este disco é visto como um salto artístico para a Rosalía. Não é apenas mais um álbum pop, mas «um projeto com uma visão mais ampla, quase ‘ópera-pop’ experimental». A cantora espanhola de 33 anos resolveu misturar o pop orquestral, art pop, pop experimental e elementos clássicos num só projeto. O álbum está estruturado em quatro movimentos, o que dá uma sensação de composição quase clássica/ sinfónica. Nas edições físicas há 18 faixas, mas nas versões digitais são omitidas três músicas. Nele, a artista fala do misticismo feminino, de transformação, transcendência e espiritualidade. As músicas exploram a sua relação com o divino, a fé, mas também com o desejo e o sofrimento pessoal.
Um álbum complexo e completo
De acordo com o El País, com quem a cantora falou recentemente, a fé e o «Todo-Poderoso» sempre estiveram presentes na sua obra, «mas nunca com esta centralidade musical, ética e estética». Num esforço para não limitar o discurso a uma «única fé» ou «linguagem», o álbum é cantado em mais de 13 idiomas: espanhol, catalão, inglês, latim, italiano, siciliano, português, francês, alemão, japonês, mandarim, árabe, ucraniano e hebraico. E foi gravado em Barcelona, Sevilha, nas montanhas de Montserrat, na Catalunha, em Paris, Los Angeles, Nova Iorque e Miami. Entre os colaboradores estão Sílvia Pérez Cruz, Estrella Morente, Björk, Yves Tumor, Yahritza, Carminho, a Orquestra Sinfónica de Londres, o coro Montserrat Escolania e o coro Orfeó Català.
«Sempre tive uma conexão com a espiritualidade, curiosidade por línguas e, aos poucos, fui procurando leituras específicas, ouvindo mais álbuns de música clássica (…) A palavra ‘lux’ sempre esteve presente na minha cabeça. De repente, entendi por que é que pensava tanto nela», explicou ao jornal espanhol. Segundo a artista, durante muitos anos, esteve focada «em fazer coisas mais externas» e queria ir «mais fundo». «Passei um ano inteiro dedicada apenas às letras: a ler e a escrever letras. Outro ano foi só para arranjos, produção e gravação», detalhou. Rosalía revelou ainda que o ano que dedicou às letras foi um período de «isolamento», de «ficar em casa sem fazer mais nada». Ia ao ginásio de manhã, preparava o pequeno almoço e deitava-se para escrever. Sim, porque a artista não consegue escrever sentada. «Não consigo escrever sentada, só deitada. Deitada, cabeça apoiada, laptop no colo», contou à mesma publicação. De acordo com a cantora, este é o álbum em que «houve uma maior intenção de criar uma composição rica e envolvente». «Há um esforço de composição maior do que em qualquer outro trabalho que eu tenha feito», garantiu ao El País.
Sobre o leque de línguas: «Eu não falo essas línguas, e não é natural (…) No princípio, é como vomitar as ideias, depois aprimorá-las. Colocar para fora, escrever, fazer esboços (…) Depois, usei o Google Tradutor ou enviei (as minhas ideias) para um tradutor», adiantou. Às vezes, Rosalía também tentava ler em outros idiomas. «Poesia escrita por esses ‘santos’ que habitam o álbum. Observar a maneira como escrevem, tentar absorver tudo. Algumas palavras surgiam, e eu pensava: ‘Esta palavra vem por um motivo’. ‘Ok, talvez ela tenha algum significado, preciso de fazer algo porque ela precisa de dizer alguma coisa’», disse.
Interrogada se este é um álbum «espiritual», talvez «politeísta», ou que «pelo menos sugere que, neste momento da história, a religião deve ser entendida mais como algo que construímos a partir de crenças já existentes», a jovem artista admitiu que gosta da ideia e que deveria estudá-la. «Sinto-me atraída pela ideia de pós-religião, de que poderia haver uma forma mais inclusiva e aberta de compreender a fé e a espiritualidade», explicou. «Para mim, existem ideias em diferentes religiões com as quais me identifico. Identifico-me com o budismo, o islamismo, o cristianismo, o hinduísmo. Acho que todas elas têm coisas com as quais me conecto (…) Diego Garrocho [que leciona filosofia moral na Universidade Autónoma de Madrid] diz que as relações humanas valiosas são permeadas pela experiência do perdão. A família é um espaço de perdão, a amizade é um espaço de perdão, os relacionamentos amorosos são um espaço de perdão. O desejo é a base do sofrimento. Acho que cada religião nos oferece coisas diferentes, e todas me interessam», acrescentou.
O dom de fazer chorar
A cantora nasceu no dia 25 de setembro de 1992 em Sant Esteve Sesrovires, perto de Barcelona, numa família sem inclinações musicais. Nunca teve vergonha, sempre foi alegre e nunca conseguiu estar quieta. No entanto, desde cedo mostrou muita sensibilidade e, aos sete anos, descobriu o seu dom: «fazer toda a gente chorar com a sua voz». Foi durante uma refeição familiar que o pai lhe pediu para cantar. «Acabaram todos a chorar. Não entendi o que é que se estava a passar, mas soube que podia fazer algo com a música», disse a cantora numa outra entrevista ao El País, em 2019. Começou então a canalizar toda a sua energia para essa direção.
Rosalía subiu aos palcos pela primeira vez aos 13 anos. Cantava em bares e restaurantes e só ganhou fama quando foi semifinalista do programa de televisão Tú Si que Vales, aos 15 anos. Aos 16 anos, ingressou no Taller de Músics, em Barcelona. Por se esforçar tanto e, muitas vezes, cantar em lugares que não tinham sistema de amplificação, um ano depois perdeu a voz e precisou de ser submetida a uma cirurgia nas cordas vocais. Mas isso não a fez desistir. Estudou depois na Escola Superior de Música da Catalunha, onde aprofundou os seus estudos em flamenco que descreve como a raiz da sua formação e «o lugar para onde acaba sempre por voltar». «O flamenco é uma arte em constante transformação», defende. Apesar de já ter sido duramente criticada por «estar a modernizar o estilo», a artista garante que esse não é o seu objetivo. Vê o flamenco quase como algo «sagrado» e acredita que só se deve usá-lo se houver um grande respeito. Os seus estudos ajudaram-na a conseguir cruzá-lo com outros estilos musicais nos seus trabalhos.
Além da música, a espiritualidade também esteve sempre presente. Segundo o The Guardian, aos 19 anos, caminhou durante 32 dias pelos 800 quilómetros do Caminho de Santiago, no norte da Espanha. «Um familiar disse-me: ‘Tu não vais conseguir porque não estás preparada fisicamente’. Mas encontrei pessoas muito boas ao longo do caminho que me ajudaram, e percebi que se eu conseguisse fazer isso, conseguiria fazer outras coisas’», partilhou. E tinha razão. Hoje, parece capaz de fazer qualquer coisa. Conquistou o mundo e está a revolucionar o pop.