Kdu dos Anjos recebeu a reportagem na sua casa, ou barraco, como ele prefere chamar. É ali, em um canto da sala, que ele vem se dedicando há dois anos à pintura, prática que começou descompromissadamente, quase de improviso, tanto que converteu itens do dia a dia em objetos para este fim – a bandeja de gelo, por exemplo, virou recipiente para a tinta.

De início, ele mirava a produção de telas decorativas. “Tentei fazer aquelas que você pinga a tinta, vem com um rodinho de pia e passa por cima, depois completa com uma canetinha preta. Mas ficou horrível”. ri. Com o tempo, porém, foi encontrando uma linguagem. “A primeira que curti foi quando fiz a silhueta dessa máscara de Senegal”, explica, apontando para uma espécie de carranca em madeira, que fica presa à parede na área contígua à mesa onde conversava com O TEMPO

Esse primeiro desenho, hoje, integra o Acervo da Laje, em Salvador – um espaço multifacetado, abrigando bibliotecas, hemeroteca e diversas coleções, focado sobretudo na memória artística, cultural e de pesquisa sobre o Subúrbio Ferroviário da capital baiana. Mas há uma forma mais simples de descrever o lugar: “É um museu acervo que é um dos mais chiques do Brasil”, resume Kdu, que, agora, se prepara para a realização de sua primeira mostra individual, que será aberta em Montes Claros na próxima segunda-feira, dia 1° de dezembro. Intitulada “Sentinelas: Carrancas Pinceladas”, a exposição será montada no Museu Regional do Norte de Minas e tem curadoria de Luiz Vitral, reunindo uma diversidade de produções do artista, em diferentes dimensões e suportes, além de obras de outros nomes das artes visuais que pertencem à coleção de Kdu, como uma peça escultórica do mestre Petrônio, de Alagoas, e uma série de fotos de WS Saint.

O título da individual dialoga com um elemento recorrente nos trabalhos e na vida do artista: as carrancas, objetos pelos quais Kdu já era aficionado mesmo antes de começar a pintar. Tradicionalmente feitas em madeira ou barro, muito usadas na proa de barcos no Rio São Francisco para afastar maus espíritos e garantir viagens seguras, elas foram sendo também incorporadas ao ambiente doméstico.


Kdu dos Anjos vem trabalhando na montagem de sua primeira mostra individual | Crédito: Fred Magno/O Tempo

Na casa do artista, as carrancas se espalham por todos os lados, em diferentes tamanhos e estilos. Ele conta que elas dialogam com sua ancestralidade barranqueira. “Meu pai (Wanderlei Alves dos Anjos) é ribeirinho, de Manga, uma cidade do Norte de Minas que você não entra sem ser de balsa. Então, é uma cidade que tem tempo do rio”, comenta, admitindo que na infância, como é muito comum, tinha medo dessas criaturas, até ser alertado pela avó que elas, na verdade, eram para sua proteção. 

Além de conectadas às origens da família dos Anjos, ele empresta outro significado que o aproxima das carrancas. Para Kdu, elas são uma boa metáfora para a favela: “Eu acho que as pessoas enxergam a favela como algo feio, perigoso, que dá medo. E, na verdade… Ouviu o galo cantando? Olha a paz que está nesse lugar. Um motorista pode deixar o carro aberto e ir tomar um café. Enfim, a favela é segura. Como a carranca, traz segurança”, defende ele que, nascido e criado na Vila Cafezal, maior aglomerado de favelas de Belo Horizonte, tem neste espaço urbano um elemento fundamental da constituição de sua identidade.

Outras fases

A pesquisa de Kdu dos Anjos na pintura, embora recente – ele começou a pintar há dois anos –, já atravessa ao menos três fases. 

A primeira é identificada por um traço escuro, que delimita e contorna as figuras que representa em telas. Em um segundo momento, ele parte para a experimentação em outros suportes. O ponto de virada foi uma visita ao ateliê da artista gaúcha Lucia Koch – em 2021 ela apresentou no Inhotim a instalação ‘Propaganda’, extensamente fotografada. 

“Eu saí de lá transformado, porque nada ali era convencional. Fiquei me perguntando se eu iria mesmo só pintar em telas e, imediatamente, pensei nos tijolos, por conta da favela e da história da minha própria casa, que tem essa identidade do tijolo à vista”, comenta, fazendo referência à Casa no Pomar do Cafezal, no Aglomerado da Serra, que faturou o prêmio de Casa do Ano 2023 no concurso internacional do ArchDaily, um dos principais portais de arquitetura do mundo, em 2023.


Algumas peças das série ‘Tijolada’, que Kdu apresentou na feira Junta em outubro | Crédito: Fred Magno/O Tempo

A partir daquela ideia, surgiu a série “Tijolada”, em que representa 20 orixás, cada um em um bloco de tijolinho maciço comum. O conjunto foi apresentado na feira Junta, realizada na Funarte-MG no mês passado, reunindo trabalhos de artistas independentes. “Foi um sucesso! Vendi quase todos e sobraram só esses quatro, que vou levar para Montes Claros”, orgulha-se.

A terceira fase, mais recente, é influenciada sobretudo pelos estudos que empreende no curso de arquitetura e urbanismo, que Kdu dos Anjos iniciou neste ano, aos 34, como bolsista contratado, pela Uni-BH. Concluindo o primeiro semestre, ele garante: “Sou um aluno nota 10”. “Até então, estou fechando todas as provas. Eu levo muito a sério, gosto muito”, diz ele, que reconhece ter se aproximado da arquitetura ao participar do projeto da própria casa – através do qual se aproximou do premiado arquiteto Fernando Maculan, que atualmente atua na reforma do Memorial Minas Gerais Vale.

Entusiasmado com os aprendizados, o estudante já iniciou estágio no renomado escritório de Tetro Arquitetura. Embora eventualmente precise ficar em home office por conta de outros compromissos, ele tem gostado da convivência no espaço de trabalho, das trocas com os colegas, dos aprendizados que encontra ali – e que reverberam em suas pinturas. “Agora estou iniciando uma série que chamo de ‘Neo Tropical’, que é uma mistura de neoconcretismo com tropicalismo, que acho que tem mais uma identidade brasielira, sem esse contorno preto, com pinceladas mais grossas”, situa.


Tela faz parte da série ‘Neo Tropical’, de Kdu dos Anjos; o artista tem o hábito de pintar temas relacionados à cultura do Norte de Minas vestindo um uniforme de trabalho de seu pai, Wanderlei Alves dos Anjos | Crédito: Fred Magno/O Tempo

Outras frentes

Além da faculdade, do estágio e da pintura, Kdu dos Anjos segue em atividade em outras muitas frentes. “Só está faltando tempo mesmo para a vida social”, brinca. 

No hall de atividades, há o Lá da Favelinha, projeto liderado por ele que está “entrando na adolescência”. “São 11 anos né? Então, agora, ele já começa a conseguir andar com as próprias pernas”, aponta, reconhecendo que, mesmo assim, todos os dias precisa dedicar algumas horas à iniciativa. “Mas, hoje, tenho a tranquilidade de ter ali uma equipe muito boa, competente mesmo, que consegue fazer essa gestão sem que eu precise estar presente o tempo todo”, diz, resumindo sua atuação à parte mais burocrática, envolvendo sobretudo negociações.

O projeto está encorpado. São mais de 20 pessoas envolvidas nas operações e mais de 70 gerando renda com o Lá da Favelinha, incluindo desde aqueles que só vão ali uma vez por semana para dar uma aula até aqueles que têm no projeto sua principal fonte de renda. 

“Todo mundo está mais maduro, levando a sério. O Remexe, nossa cooperativa de vestuário, emprega três mulheres e, hoje mesmo (na quinta, dia 27, quando a entrevista foi realizada), o nosso corpo de dança vai se apresentar com a Cia. de Dança do Palácio das Artes”, lista, inteirando que a atuação do projeto se estende por ao menos uma dezena de atividades, incluindo oficinas de libras, rap, funk, dança, pilates, bordado e capoeira. “E tem o nosso cine clube, que funciona de 15 em 15 dias graças a emenda da (deputada federal mineira) Duda Salabert.


Série de fotos de WS Saint, que integra a mostra ‘Sentinelas: Carrancas Pinceladas’, levou pinturas de Kdu dos Anjos para ‘passear’ por paisagens do Aglomerado da Serra | Crédito: WS Saint/Divulgação

Novas empreitadas

Acredite, Kdu dos Anjos ainda consegue tempo para empreender em outras frentes. Atualmente, por exemplo, trabalha na criação de uma agência de comunicação digital, a “Cria – agência de criadores periféricos”. “A ideia é cuidar da criação do conteúdo e da carreira de influenciadores, além de trabalhar com aluguel de equipamentos para fast filmes, como drones para coberturas rápidas, câmeras divertidas, estabilizadores…”, cita. Entre os parceiros está o Deivão, que viraliza com vídeos no formato “Brasileiro, Gringo & Mineiro”. “Ele está batendo 50 milhões de visualizações por mês”, anima-se.

Há ainda a previsão da estreia de um novo espetáculo, o Gambiarra, e a retomada da circulação nacional da peça Brinco de Ouro, que vai passar por 16 estados brasileiros, e a nova edição da Disputa Nervosa Nacional, um duelo de dança que celebra e fortalece a cena urbana do funk.

Outro trabalho que mobiliza Kdu é a criação da galeria de arte Torre de Bebel, que ele quer tirar do papel ainda em 2026. “A gente vai ter uma galeria aqui no morro, que tem o formato de uma torrezinha mesmo, com 12 m², sendo quatro andares empilhados, cada um de 4 por 4 metros. E, megalomaníaca que a Favelinha é, vamos colocar um farol na ponta. Então no dia que vocês voltarem, vou ligar um farol e dizer: ‘Segue a luz que vocês chegam’”, brinca. Quem sabe, em meio a tantos afazeres, o espaço fique pronto a tempo da estreia de uma nova série de pinturas do artista.

SERVIÇO:
O quê. Exposição ‘Sentinelas: Carrancas Pinceladas’, de Kdu dos Anjos 
Quando. Abertura nesta segunda (1º). Visitação de terça a sexta, das 9h às 17h; sábados e feriados, das 9h às 13h. Até 31/1.
Onde. Museu Regional do Norte de Minas – MRG (Praça Dr. Chaves, 32, Centro, Montes Claros)
Quanto. Gratuito