O Presidente deposto da Guiné-Bissau, Umaro Sissoco Embaló, deixou uma crítica dura a Portugal, apontando o dedo a políticos e média portugueses pela sua queda. Já instalado no Senegal, onde chegou depois de abandonar a Guiné-Bissau nesta quinta-feira, Embaló deu uma entrevista em que critica Portugal e atira: “Cada vez que há um Presidente muçulmano eles são muito hostis”.

Num excerto da entrevista ao canal de televisão 1 Africa TV, publicado nas redes sociais, Embaló frisa que a Guiné é um país onde existe uma “coabitação” entre populações muçulmanas, católicas e protestantes, “o que não se vê em Angola”.

Mas a atitude portuguesa é “hostil”, apesar de a Guiné ter mais de 60% de população muçulmana: “Assim que há um Presidente que se chama Mamadou, Omar ou Ibrahim, eles tornam-se muito hostis”. A crítica surge apesar de a oposição guineense ter acusado por diversas vezes o Estado português de compactuar com o regime do Presidente agora deposto.

Na quinta-feira, o governo senegalês anunciou que fretou um avião para Bissau, de forma a transportar Embaló, que o executivo acrescentou ter chegado “são e salvo” ao país. A Guiné-Bissau tem agora um novo presidente da Transição Militar, Horta N’Tam. Numa declaração, em português, após ser investido pelo Alto Comando Militar para Restauração da Segurança Nacional e Ordem Pública, o político disse que “não foi uma opção fácil” a ação que resultou na tomada de poder do Estado pelas Forças Armadas guineenses.

A ação dos militares visou estancar “uma ameaça crescente que podia por em causa a democracia e a estabilidade política do Estado guineense”, explicou, referindo-se a “uma ameaça portadora de ingerência do Estado, de desordem pública e da própria desintegração das instituições do Estado de direito democrático, ameaça essa que era preciso prevenir e travar”.

O general foi empossado Presidente de transição da Guiné-Bissau, numa cerimónia que decorreu no Estado-Maior General das Forças Armadas guineense, um dia depois de os militares terem tomado o poder no país, antecipando-se à divulgação dos resultados das eleições gerais de 23 de novembro.

Os militares anunciaram a destituição do Presidente, Umaro Sissoco Embaló, suspenderam o processo eleitoral, os órgãos de comunicação social e impuseram um recolher obrigatório. Entretanto deram posse a Ilídio Vieira Té, um dos homens de confiança de Embaló, como primeiro-ministro.

Esta quinta-feira, o ministro dos Negócios Estrangeiros, Paulo Rangel, recusou fazer “especulações” ou “interpretações” sobre o que se está a passar no país e apelou à contenção do uso de força no Estado “amigo”. “O Governo apenas verifica que há uma falta de regularidade no funcionamento institucional, que houve uma quebra feita pela força e faz um apelo, a par de outros países amigos da Guiné-Bissau e organizações internacionais, no sentido de se voltar à normalidade”, apelou Rangel.