O debate começou atrasado porque André Ventura chegou em cima da hora aos estúdios da TVI. Mas esse seria o menor dos problemas da noite: a mesa do frente a frente entre o líder do Chega e Catarina Martins transformou-se num ringue de batalha desde o primeiro minuto. O nível de decibéis foi largamente excedido, os ataques pessoais multiplicaram-se e, no fim, pouco ou nada se discutiu sobre o que está em causa: a Presidência da República.
Logo que teve a palavra e a possibilidade de reagir ao caso dos militares da GNR detidos por tráfico de imigrantes, André Ventura reverteu o assunto para se focar no tema da imigração, mostrando uma fotografia das rusgas ao centro comercial Babilónia, na Amadora, justificando que a fila visível era “dos que não tinham documentos”. A culpa, reiterou ao longo de todo o debate, é dos partidos que “aprovaram leis” que permitiram o aumento do tráfico de seres humanos e escravatura.
Catarina Martins procurou explicar a sua posição: “Se estamos a falar de coisas ilegais, estamos a falar de coisas ao arrepio da lei”, argumentou. Logo a seguir, partiu ao ataque, mostrando-se “chocada” com a conversa do líder do Chega. “André Ventura tem dois deputados que foram imigrantes ilegais”, atirou. Ventura negou, Catarina Martins reiterou. Mas estava dada a primeira machadada num debate sem fim.
Perante a acusação, André Ventura não foi de meias medidas e colocou na mesa de debate o caso em que o Bloco de Esquerda despediu cinco trabalhadoras que ainda amamentavam. “Nunca despedimos grávidas no Chega, não me venha falar de humanismo. Quem explora grávidas é o Bloco de Esquerda.”
Ventura começou a irritar-se com o sorriso e riso constante de Catarina Martins: “Não se ria daquilo que fez”, ia criticando Ventura. “Continua a fazer números de TikTok ou posso falar?”, questionou a candidata apoiada pelo Bloco de Esquerda. Ventura irritou-se mais uma vez. “Sei que é atriz”, provocou. “Sei que é pantomineiro”, devolveu a bloquista. “É atriz e má atriz”, apontou Ventura; “Tire o microfone e vá embora”, ripostou Martins.
Mas não ficou por aí. Catarina Martins pediu a André Ventura que não fosse “tonto”. “Tonto não me chama. Se alguém é tonta é você, porque não percebe que os portugueses querem uma coisa diferente.” Era este o nível do debate por esta altura.
André Ventura elevou novamente o tom de voz para dizer que “Catarina Martins nem quis esperar para ser eurodeputada” e foi logo “contratada pelo seu partido, às escondidas, para ficar a trabalhar até ser eurodeputada”. “Quis garantir um tachinho”, provocou o líder do Chega. “Eu incomodo-o tanto”, devolveu Catarina Martins.
Ainda na imigração, Ventura tentou mostrar que o Bloco é incoerente na defesa de Gaza, justificando que os países islâmicos “tratam as mulheres abaixo de cão”. Catarina Martins acusou André Ventura de “racismo”. E assim continuou até que a bloquista terminou dizendo que Ventura “nunca vai ser primeiro-ministro”. “Sei que tem essa arrogância, respeite os portugueses”, rematou Ventura. O debate acabou como começou: mais gritos do que ideias, mais ataques do que política.
André Ventura: “Sei que é atriz”
Catarina Martins: “Sei que é um pantomineiro”