O que vou dizer pode parecer masoquismo, mas há algo de maravilhoso na experiência de olhar para uma tela e ser incapaz de reconhecer o que está ali, principalmente quando se trata de um bicho deslumbrante que você já deveria ter visto antes. Meu orgulho de nerd da Era do Gelo saiu derrotado, mas acho que saí ganhando: estava diante de uma representação totalmente nova de um unicórnio da vida real.

Para ser mais exato, refiro-me ao “unicórnio siberiano”, batizado por cientistas menos românticos com o nome de Elasmotherium, que viveu até 40 mil anos atrás. As reconstruções tradicionais do bichão de 5 toneladas conferiam-lhe um chifre de quase 1,8 m de comprimento. Seria fácil reconhecê-lo com tamanha lança encarapitada na fronte. Mas os dados paleontológicos mais recentes indicam que o chifre na testa não passava de um calombão oco, deixando o monstro irreconhecível.

O mérito de não apostar na representação mais pop (ao contrário dos fabricantes de dinossauros de brinquedo, os quais raramente tem colhões para cobri-los de penas…) é todo da equipe de “Planeta Pré-Histórico: Era do Gelo”, série de documentários que acaba de ficar disponível na plataforma de streaming Apple TV.

Pode-se dizer que, nas duas temporadas anteriores, os produtores da série tinham jogado fácil, apostando nos suspeitos de sempre da fauna pré-histórica (dinossauros e companhia, é claro). Mas a Era do Gelo ou Pleistoceno, que durou de 2,58 milhões de anos até 11,7 mil anos atrás, tem seus próprios atrativos.

“Por um lado, é um alívio perto do desafio de tentar recriar dinossauros”, disse-me o britânico Mike Gunton, produtor-executivo da série e diretor da Unidade de História Natural da rede BBC. “Costumamos esquecer que nós também fomos criaturas da Era do Gelo: nossos ancestrais viram esses animais e até desenharam alguns”, lembra ele. “A quantidade de evidências sobre eles é imensa, alguns ficaram mumificados –são quase espécies contemporâneas.”

Os cinco episódios da temporada, ademais, têm um atrativo especial para um espectador brasileiro: estamos falando de bichos que deveriam ser conhecidos de todo mundo que é portador de um CPF. Faz pouquíssimo tempo –ao menos em termos geológicos– que a chapada Diamantina, os pampas do Rio Grande do Sul ou o que um dia seria o centro de Brasília estavam repletos de parentes dos tatus do tamanho de um Fusca, de preguiças do tamanho de um elefante e do maior dente-de-sabre de todos os tempos (Smilodon populator) tentando caçar ambos.

O trio, é claro, está entre as estrelas da série, com uma representação maravilhosamente ousada da preguiça-gigante, sem pelos no corpo, numa floresta tropical, comendo os frutos redondos de 25 cm de diâmetro (e 1 kg de peso!) do abricó-de-macaco, também conhecido em inglês como “árvore-bala-de-canhão”, por motivos óbvios.

E alguns bichos simplesmente parecem ter saído de um ecossistema de “Star Wars”. O melhor exemplo brasileiro é a Macrauchenia, outrora comparada a uma lhama gigante de tromba, mas que, na computação gráfica da série, ganhou um hilário focinho inflável. Ou o leão-marsupial Thylacoleo, da Austrália, uma versão assustadoramente carnívora dos coalas.

Os bastidores da série no final de cada episódio contextualizam de forma eficiente a ciência por trás das cenas impactantes –inclusive o possível papel do Homo sapiens no fim daquele mundo de gigantes. A imaginação capaz de devolver a eles a vida nas telas precisa ser capaz de salvar também os muitos gigantes de carne e osso que ainda restam.


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