Um cesto de ovos e uma grande mosca marcaram o debate entre Luís Marques Mendes e Jorge Pinto, em que dois adversários distantes em termos ideológicos discutiram educadamente pontos de vistas opostos. Jorge Pinto quis colar Marques Mendes ao Governo, o social-democrata jurou independência.

Se Luís Marques Mendes puxou dos galões da experiência durante todo o debate — chegou a atirar ao jornalista Vítor Gonçalves que nunca esteve num Conselho de Ministros —, Jorge Pinto trouxe a debate o argumento de que é relevante contrariar na Presidência da República um “controlo tremendo” que o PSD tem atualmente no país: lidera o Governo, a Madeira, os Açores e a Associação Nacional de Municípios. O candidato apoiado pelo Livre está crente de que “os portugueses não querem os ovos todos no mesmo cesto”.

Mendes quis “desmontar a teoria” dando conta que de “é igual a Mário Soares, Jorge Sampaio, Cavaco Silva e Marcelo Rebelo de Sousa”, todos ex-líderes nos respetivos partidos, e jurando que é (“já dei provas disso”) e será “rigorosamente independente”. Mais do que isso, recuperou a memória dos tempos em que Jorge Sampaio e António Guterres estiveram ao leme do Palácio de Belém e do Palácio de São Bento, respetivamente. “Esse exemplo já aconteceu e ninguém se queixou.”

Aproveitando o embalo, Marques Mendes colocou em cima da mesa a questão da revisão constitucional para mostrar que é um tema que “separa completamente ambos”. Explicou que, na sua opinião, a ideia de dissolver o Parlamento por causa da revisão constitucional — como Jorge Pinto tem vindo a sugerir — até pode ser “sexy”, mas é “errada”, argumentando que “não precisamos de mais dissoluções, precisamos de estabilidade” e que “quem introduz este tema tem as prioridades erradas”. Entretanto, assumindo uma postura contra o amigo e atual Presidente da República, Mendes assumiu que houve “dissoluções a mais”. Seja como for, também considera que não vai haver qualquer revisão porque estas se fazem “sobretudo com PS e PSD”.

“Enquanto comentador, pode dizer ‘eu acho que isto não vai acontecer’. Mas hoje é sábado, não é domingo”, atirou Jorge Pinto, numa referência aos muitos anos em que Marques Mendes foi comentador habitual na antena da SIC aos domingos — uma estratégia que usou em vários momentos do debate, procurando sempre usar declarações do adversário contra si próprio.

Por sua vez, Mendes foi puxando da experiência. Recuperou a proposta de fazer um Conselho de Estado sobre a reforma da Justiça e combate à corrupção, argumentando que conhece bem a importância que outros Conselhos de Estado já tiveram até na “viabilização de orçamentos”. “Nunca esteve na agenda a reforma da justiça e combate à corrupção”, realçou, frisando que “nunca ninguém deu um passo” para uma reforma da Justiça. Jorge Pinto preferia que a discussão fosse feita a partir da prevenção: “É quase como se desejassem que Portugal fosse corrupto.”

Ainda sobre a Saúde, Jorge Pinto criticou a Comissão Contra a Fraude no SNS, descrevendo-a como uma “jogada de marketing político” e questionando a experiência que Carlos Alexandre tem na Saúde. Marques Mendes tem a ideia oposta, afirmou que é “uma belíssima decisão”. “Acho que o juiz Carlos Alexandre é muito bem escolhido”, reiterou, sublinhando que “incute respeito, para não dizer medo”.

E relativamente à legislação laboral, Jorge Pinto ainda acusou Marques Mendes por ter “criticado de maneira bastante dura” as decisões do Tribunal Constitucional em defesa dos direitos laborais nos tempos da troika. Já Marques Mendes reforçou apenas que “é essencial um acordo com entidades patronais e sindicais” e que “uma alteração à legislação laboral sem acordo é má”. Teve ainda tempo para defender o Governo ao dizer que houve “uma alteração de atmosfera política” depois de Luís Montenegro ter recebido a UGT.

Sobre o poder mais importante do Presidente da República aos olhos de cada um: Jorge Pinto revelou que seria a “válvula de escape da República”, enquanto Marques Mendes destacou o poder “da palavra e da magistratura de influência”.