Afonso Camões, próximo de José Sócrates e até aqui mandatário regional de Henrique Gouveia e Melo, renunciou ao lugar. Num texto publicado nas suas redes sociais, e repartilhado pela candidatura do almirante na reserva, o antigo presidente da Lusa e ex-diretor do JN, diz que o faz para que a sua presença na lista de apoiantes não sirva de pretexto para “embaraçar” o caminho de Gouveia e Melo.

Henrique Gouveia e Melo tinha escolhido como mandatário por Castelo Branco Afonso Camões, um homem da estrita confiança do antigo primeiro-ministro. Esta segunda-feira, em entrevista à CMTV, o almirante defendeu que a escolha de Afonso Camões nada tinha de “contraditório” com o discurso de higienização do regime que tem tentando trazer para esta campanha eleitoral. Gouveia e Melo fez questão de sublinhar que o “único critério” que tinha e tem para a sua campanha é rejeitar apoio de “pessoas condenadas” ou que “estejam num processo que indique que a pessoa tem culpa ou um passado que possa fazer considerar”.

Afonso Camões foi apanhado em escutas a negociar com José Sócrates a sua nomeação para diretor do jornal ‘JN’. Na altura, Camões afirmava estar disponível para assumir a direção do ‘DN’, do ‘JN’ ou de ambos, e dizia: “Era bom que eles percebessem que eu sou um joker em qualquer posição para mandar. E que também sei que um general prussiano não se amotina”.

As escutas também revelaram que Camões pediu a Sócrates para interceder junto de Daniel Proença de Carvalho, então presidente da Global Media e advogado do antigo primeiro-ministro. Apesar das suspeitas, a Entidade Reguladora para a Comunicação Social decidiu não abrir qualquer investigação. Posteriormente, Camões foi presidente da Lusa entre 2009 e 2014, diretor do ‘JN’ durante cinco anos e diretor-geral da Global Media até 2020.  Afonso Camões, então na qualidade de administrador da agência Lusa, chegou a admitir ter avisado José Sócrates que estava a ser investigado.

No texto agora publicado, Afonso Camões atira diretamente aos órgãos de comunicação social que recuperaram agora o seu percurso. “Senhor Almirante, a pretexto da minha ligação de juventude ao antigo primeiro-ministro, um cronista e um jornal decidiram desenterrar uma ilegítima escuta telefónica com mais de 10 anos, prática em que se especializaram no chamado ‘jornalismo pelo buraco da fechadura’. A mim não me atingem.”, escreve o jornalista.

Logo a seguir, Afonso Camões sugere que a intenção desta e de outras notícias é atingir Gouveia e Melo. “Querem prejudicar a candidatura do Senhor Almirante em favor dos seus candidatos bem identificados, um dos quais, aliás, foi criado e sustentado pela estação de televisão do jornal que faz eco da injúria, vegetando na sarjeta. São gente menor, daqueles que Filipe II de Espanha, conhecedor dessa estirpe de portugueses e escrevendo à mãe, dizia: ‘Sofrem mais com a ventura alheia do que com a dor própria’, patologia que na minha terra é conhecida por ‘dor de corno‘”.

Mesmo a terminar, Camões explica o porquê de ter pedido renúncia. “É preciso não dar troco a essa gente, e é imperioso derrotar os candidatos que representam. Por isso mesmo, e porque não admito que a invocação do meu nome ou meu incondicional apoio à candidatura do senhor almirante sirvam de pretexto para lhe embaraçar o caminho, declaro com efeitos imediatos a renúncia à qualidade de mandatário distrital que honrosamente aceitei por convite de vossa excelência.”

Há uma semana, em entrevista à CNN, José Sócrates declarou o apoio a Henrique Gouveia e Melo. No mesmo dia, em pleno debate com Jorge Pinto, o almirante foi confrontado com esse apoio e irritou-se com a pergunta do moderador, José Alberto Carvalho.  Luís Bernardo, ex-assessor de Sócrates, assumiu ter colaborado na campanha de Gouveia e Melo.

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