Esta quinta-feira, os presidentes da Liga Portugal debatem a mudança. Nada de especial nisso. Sempre discutiram a mudança e nunca se acanharam. Nos últimos 30 anos, a arbitragem (por exemplo) esteve em Lisboa, no Porto, na federação, na liga, na federação outra vez, foi presidida por benfiquistas, portistas, sportinguistas, as nomeações dos árbitros foram sorteadas, os árbitros foram amadores e semiprofissionais, veio o VAR. Só não mudou o resultado final. Mas, esta semana, os presidentes vão discutir o que nunca quiseram mudar: o formato da Liga.
O campeonato já teve 20, 18 e 16 equipas. Os clubes aceitaram aparar as pontas, de vez em quando, coisa que não configura exactamente uma mudança de penteado. E, apesar de tudo, poucas alterações podem influenciar tanto a dinâmica da Liga portuguesa como um novo formato. Ao longo dos anos, choveram (no molhado) vários modelos. Aquele que está agora na mesa prevê duas partes. A primeira é aquilo a que podemos chamar uma purga: os clubes fazem dez ou 12 ou 17 jogos sempre com adversários diferentes, sorteados à moda suíça, como a actual Liga dos Campeões. Numa segunda fase, os oito ou dez mais pontuados jogam entre si, a duas voltas, pelo título e pelos apuramentos europeus. Os outros entretêm-se com a descida de divisão.
Há razões para mudar? A pergunta faz-se ao contrário: quais são as razões para não mudar? Prevalece uma estranha negação dos riscos que a Liga corre no ranking da UEFA, depois de (talvez) duas décadas de domínio pleno sobre os campeonatos médios (Países Baixos, Bélgica, em tempos a Rússia). A fábula do ciclo resiste aos factos. Até aqui, sempre que Portugal caiu do sexto lugar (que acrescenta uma vaga na Liga dos Campeões), o ciclo matemático devolveu-lho. Como os pontos são a dividir pelas vagas de cada país, e o sétimo lugar oferece menos uma, quase sempre sucedeu uma dança rítmica nessas duas posições: agora subo eu, agora sobes tu. Mas…
Nos últimos cinco anos, a Liga portuguesa ficou atrás de neerlandeses e belgas (ambos) por mais do que uma vez. Teria ficado três vezes se o Vitória de Guimarães houvesse repetido a sua média de pontos habitual em 2024-25. Em vez disso, atingiu uma pontuação recorde, que até clubes do calibre do Sporting raramente atingem. Será coisa para sossegar os presidentes da Liga? O problema é que sim. A maioria dos presidentes da Liga ganha pouco, ou nada, em ralar-se com o ranking da UEFA.
O formato do campeonato pode não mudar nesta quinta-feira, mas só um tolo negará que os clubes mudaram. Agora pertencem a interesses privados, às vezes privadíssimos. Tirando uma ou duas excepções, vendem jogadores e mais nada. Preocupam-se com a descida de divisão, porque vender na prateleira de baixo é mais difícil, e talvez com alguma ânsia de aparecer no espaço social. Apenas isso. Como se altera o comportamento dos novos clubes (e o atentado à verdade desportiva que personificam) sem mexer no formato da Liga?
O modelo de campeonato em debate reduz a “prateleira” de cima e aumenta o estado de alerta na “prateleira” de baixo. Apurando-se na primeira metade, jogam a segunda parte da época sem receios da descida, com os jogadores mais valorizados e talvez – dependendo da futura distribuição dos direitos audiovisuais – com melhores estímulos, se a Europa não for suficiente para os arrancar da indolência actual (veja-se quantos desses clubes entraram na UEFA nos últimos 10 anos).
Aos que já estão no patamar europeu, o formato promete adversários mais competitivos, mais vezes na época, e em particular quando o grau de dificuldade dispara na UEFA. Ou será que também se vai negar as óbvias diferenças de andamento para clubes da Liga inglesa? E fingir que isso se resolve com a centralização dos direitos televisivos?
Direitos televisivos. Outra boa razão para, pela enésima vez nestas três décadas, se recusar uma mudança de formato. Podemos estar sossegados, porque os operadores interessados fazem fila à porta da Liga nacional, carregando contentores de euros, mas imagine-se, por tolice, que não estão interessados. Vai-se convencê-los como? Alterando a geografia do país? Deslocando 500 mil habitantes para Arouca, já com cartão de sócio e bilhete de época? Ou assumindo a realidade de que são poucos os clubes relevantes e alterando o formato para potenciar esse lote escasso, em vez de dispersar esforços em dezenas de causas perdidas (e desinteressadas), ano após ano?