De Nuremberga se disse, desde o primeiro instante, que é um filme de época com fragilidades, dependente em demasia no seu ás de trunfo — Russell Crowe devora todo o espaço à sua volta na pele do nazi Hermann Göring. A prestação do neozelandês talvez até cause surpresa na temporada de prémios que se avizinha, mas o conjunto tende para a repetição dos cânones do género, não faz sombra aos abundantes registos que existem sobre os julgamentos, ao longo de 1946, de várias figuras do III Reich (incluíndo o supracitado comandante da Luftwaffe), nem à obra realizada em 1961 por Stanley Kramer, O Julgamento de Nuremberga, com Spencer Tracy e Burt Lancaster.
Contudo, certos aspectos mereceram breve conversa com James Vanderbilt na última edição do Festival de San Sebastián. Um deles relacionado com a originalidade do ponto de vista do filme, centrado não em Göring ou na acusação, mas na figura ambígua do tenente-coronel Douglas Kelley (Rami Malek), psicólogo enviado pelo exército americano para acompanhar o oficial nazi — e que, lamentavelmente, não convence enquanto personagem. Foi Kelley quem avaliou o estado de saúde de Göring nas semanas que antecederam a condenação deste à morte. O filme (que já está nas salas portuguesas) é uma adaptação inspirada no livro The Nazi and the Psychiatrist, de Jack El-Hai, escrita pelo próprio Vanderbilt, guinoista que ganhou nome com o argumento de Zodíaco, de David Fincher.
Escreveu este filme há 13 anos. Já então tinha Russell Crowe na cabeça para o papel de Göring?
Logo de início, não, mas o Russell e eu já andamos à volta disto há muito tempo. Ele comprometeu-se com o papel há oito anos. Aceitou-o sem pestanejar. A sua dedicação foi incrível: trabalhou com um treinador vocal, aprendeu alemão e aquilo que acontece fisicamente com ele neste filme é impressionante. Não posso falar de tudo, nem por ele, porque um actor também é um mágico que nunca revela os seus segredos. Mas ele apostou muito forte neste papel. Estudou Göring ao pormenor. Diziam dele que era uma figura magnética e charmosa, descrita pelos seus pares como a melhor companhia possível para jantar. Russell entendeu essa exigência. Na verdade, a relação entre Göring e o Dr. Kelley é uma relação de sedução.
[o trailer de “Nuremberga”:]
De onde vem a originalidade do ponto de vista do filme?
Vem do livro de Jack El-Hai e de todas as coisas que ele explorou e que eu nem sabia. Eu desconhecia por completo que o exército americano do pós-II Guerra Mundial tinha psiquiatras nos seus quadros. Só pelo livro fiquei ao corrente de que Göring e Kelley travaram aquela batalha — uma perspectiva pouco comum sobre a natureza do Mal. Acho que nove em cada dez espectadores do filme vão descobrir-se na mesma posição.
Porque é que Nuremberga demorou tanto tempo a ser feito?
É um filme independente, sem um grande estúdio por trás, e o seu assunto é delicado. Um drama de tribunal, atravessado por impulsos muito sombrios. O Russell foi mantendo o barco à tona ao longo de todo este tempo. Sem ele, os financiadores teriam recuado. Quatro anos antes, Richard Saperstein, da Bluestone Entertainment, resolveu ligar-me. Disse-me que não queria apenas falar de Nuremberga: queria financiá-lo e mostrou-se pronto a aceitar as minhas condições.
Nuremberga não é um filme barato para a sua escala…
Mas é muito mais barato do que parece. Essa sensação deve-se menos à produção e aos meios que tivemos do que ao esforço da extraordinária equipa técnica que consegui reunir. O director de fotografia, Dariusz Wolski, foi um dos elementos que mais nos abriu os horizontes. Ele fez nove filmes com o Ridley Scott, dois com o Tony Scott, fotografou os primeiros quatro Piratas das Caraíbas, enfim, sabe o que está a fazer. A Eve Stewart é uma extraordinária directora de arte, ensinou-nos a tirar proveito de cada dólar gasto. Eu dizia-lhes que o filme tinha de parecer grande, que era preciso sentir uma certa gravidade, mesmo nos planos em que só temos dois homens face a face, dentro de uma cela.