O primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, garantiu ao Presidente russo, Vladimir Putin, que a Índia não é neutra no que toca à guerra na Ucrânia – está “activamente” empenhada na paz.
Putin está, nesta sexta-feira, numa visita oficial à Índia, a primeira em quatro anos, desde que começou a guerra na Ucrânia. Foi recebido na quinta-feira com pompa e circunstância, com uma quebra de protocolo e um abraço de Modi ainda na pista de descolagem. Um abraço lido como simbólico, numa visita que acontece num clima de grande tensão internacional: face às tentativas norte-americanas de conseguir um acordo de paz na Ucrânia, Moscovo assume uma postura desafiadora. Na quinta-feira, Putin garantiu ao India Today que irá anexar todo o Donbass, “pela força das armas” ou pelo abandono das tropas ucranianas.
Os dois líderes terão falado por duas horas e meia na noite de quinta-feira. Já nesta sexta-feira, no arranque de uma ronda de conversas bilaterais, Putin garantiu que a Rússia estava a trabalhar numa “solução pacífica para o conflito na Ucrânia”. Ao seu lado, Modi disse que a Índia não era neutra; está “do lado da paz”. O conflito deve terminar através do “diálogo e diplomacia”, reforça. Esta tomada de posição contrasta com as críticas ocidentais que lêem a abstenção da Índia na ONU como indiferença ou apoio tácito a Moscovo.
Índia e Rússia deverão abordar vários temas no âmbito desta visita – entre eles, a cooperação “militar e técnica”, disse Putin ao India Today. A Índia “destaca-se por ser um dos nossos parceiros mais estáveis e privilegiados”, afirmou o líder russo. “Não estamos só a vender tecnologia – estamos a partilhá-la, o que é muito raro ver na esfera da cooperação técnica e militar.”
Moscovo tem sido o maior fornecedor de armas da Índia das últimas décadas. Nova Deli é também um dos seus principais clientes de petróleo – a Índia é um dos principais importadores de crude russo. As compras baixaram nos primeiros nove meses do ano, e estão sob pressão devido às taxas aduaneiras de 25% impostas pelos EUA para dissuadir as compras de petróleo russo.
A energia vai ser um dos tópicos relevantes da visita, a adivinhar pela comunicação conjunta dos dois líderes nesta manhã. Putin comprometeu-se a “continuar os carregamentos ininterruptos de combustível” para a Índia e referiu ainda a construção de uma central nuclear no país (com ajuda russa).
Para o jornalista Vikas Pandey, da BBC, a visita parece, até agora, “ser só sobre negócios”. Os destaques das declarações são o “evidente respeito mútuo” e a “ausência de qualquer anúncio bombástico”, sem nenhum grande acordo na área da defesa, algo que era esperado. “Houve muitos outros anúncios, todos com o objectivo de impulsionar o comércio. Foram assinados acordos e memorandos nas áreas de construção naval, formação de navegadores indianos para operar em águas polares, investimentos em novas rotas marítimas, energia nuclear civil e minerais críticos”, resume. Mas, até agora, está aquém do esperado.