[RESUMO] Denise Fraga deve ser a atriz brasileira que mais trabalhou em 2025. Ficou em cartaz com duas peças durante o ano todo, lançou um filme polêmico no Festival de Gramado —”Sonhar com Leões”, uma tragicomédia sobre eutanásia— e protagoniza mais um, “Livros Restantes”, que entra em cartaz na próxima semana. No plano pessoal, perdeu a mãe, o que a fez refletir sobre os sentidos da vida e da morte.
Denise Fraga é muito engraçada. Não que ela faça graça, conte piada, nada disso. Pelo menos não em uma entrevista. Ela é engraçada de jeito. Toda alongada, tem braços compridos que quando abraçam parecem dar duas voltas na outra pessoa. E ela quando abraça, abraça mesmo, traz para perto, segura firme no outro corpo.
Os braços longos —e bem torneados, daqueles que a gente inveja em mulheres adultas que podem dar tchauzinho de regata sem nada balançar— terminam em mãos também enormes, e o conjunto todo gesticula muito quando ela fala, ocupando todo o espaço ao redor. Nada de cotovelos grudadinhos na lateral da cintura, como preferiria minha avó.
“Uma vez eu estava contando uma história para uma amiga, na calçada, e parou um táxi. O motorista achou que eu estava acenando para ele”, me conta a atriz, numa conversa de quase duas horas no jardim do apartamento dela, em Higienópolis.
Mas aí começou a chover, uma dessas chuvas recentes que parecem que alguém no céu jogou um balde de água na gente, dura um minuto, mas molha tudo. Entramos na sala de TV que vira sala de ensaio ou academia conforme a necessidade, com um bar com uma cafeteira de expresso dessas chiques e novinha, em que Denise ainda não aprendeu a mexer direito. Mas ela não desiste até termos um café fresquinho.
“Minha mãe morreu em janeiro”, me conta a atriz, agora sentada em uma cadeira na frente do sofá onde ela indica que eu me sente. “Ela estava morrendo há três anos, tinha enfisema e fumava quatro maços de cigarro por dia. Além disso, pesava 120 kg e nunca deixou de comer nem beber nada do que quis. No final eu me mudei para a casa dela, levamos uma cama de hospital para o meio da sala e eu dormia no quarto dela, aí levantava todo dia e perguntava ‘o que você quer fazer hoje?'”, diz.
E foi assim, fazendo as vontades da mãe durante o dia e dois espetáculos que se alternavam no mesmo teatro à noite, o solo “Eu de Você” e “O Que Só Sabemos Juntos”, este ao lado de Tony Ramos, ambos co-criados por ela a partir do desejo de contar histórias reais, de gente normal, que a atriz viveu os últimos meses da mulher que a deu à luz, uma personagem bem real, mas que parece de ficção.
“Um dia ela pediu cerveja e rissole de camarão, eu mandei comprar, como fazia com qualquer coisa que ela pedisse, e, não sei por que, este pedido ficou marcado em mim. Quando ela morreu, escrevi uma crônica sobre esse dia, em que tiramos uma foto linda dela na cama e eu do lado, a gente tomando cerveja depois de ter comido o rissole.”
Denise viveu tão intensamente o final da vida de dona Wilma que, quando ela morreu, achou que teria, de certa forma, se antecipado ao luto e estaria livre para seguir em frente sem passar pelo corredor polonês emocional que a gente habita por tempo indeterminado, e cheio de idas e vinhas, quando perde a mãe.
“Minha mãe queria morrer. Ela sempre perguntava ‘não tem um comprimidinho?'” Não tinha. A eutanásia, ou suicídio assistido, não é permitida pelas leis brasileiras. Denise é 100% a favor de que cada um determine a hora de sua vida chegar ao fim e que a morte aconteça sem sofrimento. Mas diz que hoje, depois de ter passado pelo que passou, acredita que temos que discutir esse assunto junto com outro, os cuidados paliativos, esse, sim, permitido pelas nossas leis.
“A gente reconhecer a finitude da vida é algo muito poderoso, isso cria uma urgência de viver. É como se ficasse tocando uma sineta na sua orelha dizendo que você tem que tomar sua vida nas mãos e fazer o que ainda quer fazer enquanto tem tempo”, afirma a atriz. “Talvez esse, sim, seja o grande tabu, e não a morte propriamente dita. O assunto tabu é a vida, né? O que você está fazendo com a sua vida?”
Esse é exatamente o tema do primeiro filme da atriz lançado neste ano, dois meses atrás, “Sonhar com Leões”, dirigido por Paolo Marinou-Blanco, um português nascido em Nova York que descobriu Denise Fraga assistindo à websérie “Horas em Casa”, que ela e o marido, o cineasta Luiz Villaça, fizeram durante a pandemia.
“A gente tava trancado em casa em 2020, eu tinha parado de fazer o [espetáculo] ‘Eu de Você’, a gente super agoniado para produzir alguma coisa e fizemos esses monólogos, que eu decorava enquanto limpava o chão, fazia um arroz e botava roupa para lavar”, lembra. “Eram dez minutos de texto, só eu em cena, e foram 87 episódios, uma loucura”.
O diretor português procurava uma atriz brasileira acima de 50 anos para interpretar a protagonista Gilda, uma ex-professora brasileira radicada em Lisboa com câncer terminal que decide procurar uma alternativa para morrer com dignidade enquanto ainda a tem e acaba envolvida com uma organização clandestina que explora outros na mesma situação.
Ah, é uma comédia. Mas Denise não faz uma graça, sua personagem está furiosa e vai ficando com mais ódio conforme percebe que não tem coragem nem aptidão para tirar a própria vida, depois de quatro tentativas fracassadas, e ainda se envolve em um esquema para tirar dinheiro de doentes terminais.
“Sonhar com Leões” teve sua premiére no Festival de Gramado, em agosto, e entrou em cartaz no dia 11 de setembro. Foi filmado dois anos antes, em 2023, quando Denise já tinha se tornado, primeiramente, cuidadora de dona Wilma —todo o resto, atriz, mãe, mulher, dona de casa etc., ficando em segundo plano.
O filme só ficou pronto para ser exibido sete meses após a morte de sua mãe, e a ocasião acabou abrindo uma janela para que ela elaborasse o processo de luto ao mesmo tempo em que defendia tanto as escolhas artísticas do filme, que gerou polêmica por adotar o tom de tragicomédia para um assunto tão sério, quanto a opção de cada pessoa de decidir como morrer.
Opção que sua mãe não teve, apesar de pedir claramente por isso. “Esse filme abre muitas portas de conversa, adoro isso. Minha personagem tem um romance com um garoto muitas décadas mais novo e não há uma frase sobre o assunto”, diz a atriz.
O ator muitas décadas mais novo é o português João Nunes Monteiro. O brasileiro Roberto Bomtempo interpreta Lúcio, o marido de Gilda, que vai embora quando percebe que não tem forças para suportar a vida ao lado de uma suicida em potencial. Nem ao lado de uma doente terminal, na verdade. O personagem, como muitos maridos por aí, quer os holofotes todos sempre nele.
Antes de o ano acabar, Denise lança mais um filme, “Livros Restantes”, que entra em cartaz na semana que vem. Escrito e dirigido por Márcia Paraíso, documentarista de formação, o longa, por uma dessas coincidências da vida, conta a história de uma professora brasileira, de Florianópolis, que se aposenta e decide passar o “último ato” de sua existência em Portugal.
“Foi muito louco isso, eu tava em Portugal durante um tempão fazendo o filme ‘Sonhar com Leões’ quando apareceu esse convite para esse longa-metragem”, relembra a atriz, que conta suas histórias com olhos grudados no interlocutor, eu, neste caso, enquanto os braços, mas também as pernas, o torso e o resto todo se mexe muito, em todas as direções.
Belas pernas, aliás, que ela exibe em ambos os filmes. Nenhuma mancha de sol —como pode, sendo carioca?— nenhuma estria, celulite, flacidez, nada. Pernas longas e fortes, não musculosas, firmes, delineadas, pele grudada na carne, carne grudada no osso. Pernas de quem teve sorte genética e a usou com sabedoria e moderação. E de quem não perde um minuto pensando nisso, o que é até bem injusto.
Eu comento as pernas, ela acha que estou falando de outra pessoa, procura uma foto no jornal —que ela lê impresso— e demora a perceber que estou fazendo um elogio. Fica até meio sem jeito quando entende o comentário, como se alguém dizer que ela é uma gostosa não combinasse com ela.
Denise fica mais em paz quando eu digo que o cabelo dela está bonito. Ela tem o hábito de enrolar mechas no dedo e fazer a forma dos cachinhos. E me dá uma dica, já que temos esse traço em comum, cabelos bagunçados e pintados de um tom entre ruivo e acobreado.
“Descobri um pó que você aplica na raiz para dar mais volume, é da Aesop. Resseca um pouco, mas tudo bem”, afirma, referindo-se a um produto da marca originalmente australiana, vendida para a brasileira Natura e agora para a gigante francesa L’Oréal.
“Livros Restantes” é um filme delicado, curioso e cuja trama central surge como uma explosão na metade final do longa. No começo, parece uma história sobre a despedida de uma mulher, a tal professora, Ana Catarina, que esvazia sua casa para mudar de cidade e de vida, mas deixa de lado cinco livros que ganhou de pessoas importantes em sua vida, com dedicatórias escritas à mão pelos presenteadores, e que ela decide devolver, para que fiquem guardados.
Os títulos são: “Feliz Ano Velho”, de Marcelo Rubens Paiva, “A Obscena Senhora D”, de Hilda Hilst, “A Teus Pés”, da poeta Ana Cristina César, “Silencioso Corpo de Fuga”, de Valter Hugo Mãe e “A Doutrina do Choque”, de Naomi Klein. O plano de encontrar as pessoas e entregar os livros em mãos não sai como o esperado, mas no processo a gente conhece muito sobre essa personagem e também sobre o lugar de onde ela vem, em Florianópolis.
Enquanto sonha com Lisboa, Ana Catarina faz como um inventário de si mesma, e também da região onde nasceu e foi criada, onde mora toda a sua família, a comunidade pesqueira Barra da Lagôa, na capital catarinense.
Unindo a parte leste da ilha de Santa Catarina à lagoa da Conceição, este bairro de geografia peculiar promove vários encontros, desde a água doce com a água do mar, da vida ribeirinha e a do continente, das pessoas de várias gerações.
As famílias locais vivem da pesca artesanal de tainha, e as marés determinam o ritmo do cotidiano, enquanto os barcos coloridos enfeitam a paisagem. Mas são pessoas que vivem ali, pessoas e suas esquisitices, suas frustrações, seus desejos. E isso pode ser explosivo. No cenário que for.
“Eu fiquei louca por esse roteiro e me grudei a esse filme porque você se vê vivendo naquele lugar, com aquelas pessoas, os diálogos são muito simples, mas falam de coisas muito profundas”, diz a atriz. “E a personagem faz uma coisa que tenho certeza que já passou na cabeça de todo mundo, deixar tudo que é conhecido para trás e viver uma vida totalmente diferente, começar do zero de novo, sem nenhuma âncora.”
Mais ou menos como acontece quando a gente perde a mãe. O ano de 2025 começou de um jeito para Denise Fraga e vai terminar de outro. “Muito mais feliz”, diz a atriz. “Mais triste também.”