“É uma responsabilidade infernal ser você mesmo. É muito mais fácil ser outra pessoa, ou ninguém”. Assim como ocorre na abertura de Jay Kelly, começo este texto com uma frase da escritora Sylvia Plath pois a materialidade desta ideia perpassa pelo corpo a ser apresentado – vide texto ou obra cinematográfica. Tolo por natureza, o humano rejeita a condição de enaltecimento de sua essência e recorre a uma incorporação de objetos, minando o seu próprio alcance. O novo filme de Noah Baumbach (em mais uma associação com a Netflix) retrata a história de um ator prestigiado pela carreira e imagem, mas amaldiçoado pelo real caráter de sua humanidade.
É sabido que o cineasta Noah Baumbach costuma pautar pelas reflexões a respeito das relações e das desconstruções quase existenciais de seus protagonistas. Neste filme, a sua quarta parceria com a produtora de streaming (Os Meyerowitz: Família Não se Escolhe, História de um Casamento, Ruído Branco), temos a história de um ator renomado chamado Jay Kelly (George Clooney) com a imagem cada vez mais em voga por sua trajetória profissional. Acompanhado sempre do empresário e amigo Ron (Adam Sandler) e da assistente Liz (Laura Dern), o veterano se vê em um dilema quando esbarra com um antigo amigo que expõe feridas antigas, que o faz embarcar numa jornada de autoconhecimento e procura do seu real valor que perdera na vida.
Por essa consideração, logo de cara entendemos o quão dúbia pode ser a figura de Jay Kelly. A alcunha de astro precede à própria configuração universal como cidadão, amigo e pai. Claro, para a realidade de uma estrela de Hollywood, tais condições nem são espantosas, porém, a cada descoberta feita pelos caminhos e decisões do personagem-título até ali, evidencia como este seguiu por lugares tortos e mesmo desvirtuosos a fim de se estabelecer na carreira. O surgimento de um velho conhecido, outrora amigo, por exemplo, é o ponto de virada logo no início, pois promove acusações contra o famoso ator sem dosar verdades – tanto profissionais quanto pessoais e familiares. Se não tendemos a ficar céticos com tamanhas palavras ditas, muito se vale pela reação atribulada do protagonista e da construção da obra ao apontar fatores bastante problemáticos de Kelly.
Dessa forma, o personagem de Clooney resolve percorrer a Europa para encontrar suas duas filhas, Jessica (Riley Keough) e Daisy (Grace Edwards) que lá se encontram de férias ou em residência. A tomada de atitude do ator é equivalente ao conhecimento de que sua filha mais velha Jessica decide se afastar ainda mais do seu encontro. Cabe dizer, decerto, a jornada quase desesperadora de Jay Kelly de encontrá-las, no que, logo, percebemos é a vontade maior de encontrar-se de fato.
Nisso, a produção tem como escolha um direcionamento de ruptura da narrativa, a qual o protagonista, em determinados momentos, revive memórias antigas na busca de ordenar respostas de autoconhecimento, e onde ficamos cientes da sua natureza surpreendente. Acredito que a falta de uma boa montagem prejudica essa escolha narrativa e tira um peso que valeria mais para o aprofundamento de Kelly.
O longa se vale de uma linguagem dramática sem abandonar um tom jocoso quase perverso do roteiro assinado por Baumbach e Emily Mortimer (presente também como a personagem Candy), onde as ambições e escolhas dos personagens andam juntos com uma comicidade absurda dos acontecimentos sucedidos. Grande parte desse humor surge pela interação de vários integrantes, ao passo que Jay Kelly e Ron formam uma boa dupla nesse sentido.
Falando em Ron, é preciso destacar a boa participação de Adam Sandler no filme; o empresário é empenhado excessivamente pela imagem e força de Kelly, responsável pelo mais ínfimo detalhe. Sandler desempenha mais ainda quando precisa ser o esteio amigo do grande ator famoso, pois, com a situação a piorar, Ron sempre estar a pairar como a força de equilíbrio e suporte para o personagem principal.
Nesse ponto, o Jay Kelly de George Clooney merece uma atenção e curiosidade que partem da sua premissa. Clooney está bem, no entanto, nessa ação metalinguística citada no filme de como Jay Kelly interpreta a si mesmo, aqui, acontece muito com o próprio Clooney. Desde a primeira cena – que se passa em um set de filmagens -, a obra não oculta e nem tenta disfarçar seu teor autorreferencial. Sobre o cinema e sua história, a indústria cinematográfica e seu tempo, pouco é pincelado e traduzido no filme com a paixão realmente merecida, restringindo a poucos momentos.
As linhas apresentadas criam um protagonista veterano, no alto de seus 60 anos, galã e um tanto retratado como “um herói esquecido do cinema (alô, Batman e Robin)”. Vai dizer que isso não lembra o supracitado ator que protagoniza essa produção? A coragem de se desafiar ao mesmo tempo que deseja engrandecer sua imagem é um assunto demais tocado no filme, se isso é um pensamento recorrente na mente de Clooney, não saberemos, no entanto, as possibilidades metalinguísticas a todo tempo inseridas pelas mãos e olhos de Noah Baumbach (creio este não ser inocente), permitem, em nosso cantinho, encaixar algumas peças.
A partir desses lugares, Jay Kelly, na verdade, é uma grande homenagem e exaltação à figura do seu ator principal. Com uma obra que procura ser interessante e justa do porquê da sua existência, mas derrapa na duração e no exagero de coisas a serem contadas sem a profundidade devida. Tanto apelo e referência não bastam ao filme-reverência feito para George Clooney.


