O que estamos a fazer ao planeta é um pouco como ignorar de propósito os problemas do carro em vez de levá-lo à revisão e fazer a manutenção recomendada: o custo de não fazer nada poderá ser a inutilização ou colapso total do automóvel, que rapidamente excederá o custo dos investimentos necessários para que o veículo circule de forma eficiente e continue a gerar valor a longo prazo.
O investimento anual necessário para atingir emissões líquidas zero até 2050 e financiar a conservação da biodiversidade está estimado em cerca de oito biliões de dólares por ano – cerca de sete biliões de euros -, descreve uma análise de referência publicada nesta terça-feira pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (UNEP, na sigla em inglês). Sim, a escala é na ordem dos milhões de milhões de euros (trillions, em inglês). Em jeito de comparação: em 2022, os subsídios aos combustíveis fósseis totalizaram sete biliões de dólares (seis biliões de euros), cerca de 7,1% do PIB global, contabilizando-se um aumento de dois biliões de dólares desde 2020 devido aos apoios governamentais face ao aumento dos preços da energia.
Apesar dos desafios, o consenso dos investigadores é que o custo do cenário business as usual traz uma factura muito superior. Se o mundo continuar a seguir a trajectória de “mais do mesmo”, as alterações climáticas cortarão 4% do PIB global anual até 2050 e 20% até ao final do século.
Há várias formas de conduzir esse investimento de forma equilibrada. O relatório Perspectivas Globais para o Ambiente: Um Futuro que Escolhemos (GEO-7), a sétima edição da enorme análise científica sobre o ambiente global, que resulta do trabalho multidisciplinar de 287 cientistas de 82 países, traça vários caminhos de “mudança transformadora” dos sistemas humanos para conseguir benefícios muito maiores para o planeta do que apenas fazê-lo “funcionar” como um automóvel.
A directora executiva do Programa das Nações Unidas para o Ambiente (UNEP), Inger Andersen, observa que esta análise apresenta uma escolha simples para a humanidade: “continuar no caminho para um futuro devastado” ou “mudar de direcção para garantir um planeta saudável, pessoas saudáveis e economias saudáveis”.
Acção sem precedentes
O diagnóstico já é conhecido: o caminho actual de desenvolvimento focado no crescimento económico sem limites levará a consequências catastróficas, com um cenário futuro devastado por alterações climáticas, destruição da natureza e da biodiversidade, degradação da terra e desertificação, e ainda uma poluição mortal persistente. Se nada for feito, a poluição atmosférica continuará a reclamar mais de oito milhões de vidas por ano e os custos de saúde atingirão biliões de euros.
Ao longo de mais de mil páginas, este relatório de referência mostra que a concretização dos objectivos que resultam dos acordos internacionais, como o Acordo de Paris sobre o clima ou o Quadro Global de Biodiversidade de Kunming-Montreal, ainda é possível, mas exigirá uma acção sem precedentes. Isto implica transformações radicais e abordagens de “toda a sociedade” e “todo o governo” nos cinco “sistemas humanos interligados”: economia e finanças, materiais e resíduos, energia, alimentação e ambiente.
Em matéria de economia e finanças, uma mudança crucial é mover-se para além do PIB, utilizando métricas de riqueza inclusivas que também contabilizem o capital humano e natural. A reforma financeira é identificada, aliás, como a “pedra angular da transformação”, numa reorientação que incentivaria as economias às mudanças nos outros sistemas interligados: a circularidade, a descarbonização, a agricultura sustentável e a restauração de ecossistemas.
No que diz respeito aos materiais e resíduos, o relatório recomenda a integração de princípios de economia circular (como o ecodesign dos produtos) e a transparência das cadeias. A transição exigirá, em particular nos países mais desenvolvidos, a implementação de “ecotaxas”, assim como o incentivo ao consumo mais sustentável e à redução, em geral, dos padrões de consumo.
Já as mudanças profundas do sistema energético global exigem a diversificação do mix de geração de energia, a descarbonização rápida através de energias renováveis e alternativas como o hidrogénio verde e combustíveis sustentáveis, e ainda a gestão da procura através do aumento da eficiência energética e do combate à pobreza energética. As acções prioritárias recomendadas pelo relatório para os países mais desenvolvidos incluem o fim dos subsídios aos combustíveis fósseis – algo a que a União Europeia, por exemplo, já se comprometeu a fazer – e a implementação de redes inteligentes (smart grids).
A transformação do sistema alimentar é crucial, já que a produção tem sido ameaçada por fenómenos climáticos. Práticas como a agricultura regenerativa, a mudança para dietas vegetais e a redução do desperdício alimentar devem fazer parte deste mix. A implementação de soluções baseadas na natureza, por fim, é considerada um imperativo, sendo essencial melhorar a monitorização global dos ecossistemas.
Retorno a longo prazo
Investir na transformação sistémica, ao invés de intervenções pontuais, trará um retorno claro a longo prazo. O relatório prevê que os benefícios macroeconómicos globais resultantes desta mudança radical comecem a surgir por volta de 2050, cresçam para 20 biliões de dólares (cerca de 17 biliões de euros) por ano até 2070 e aumentem ainda mais, podendo atingir 100 biliões de dólares (cerca de 85 biliões de euros) por ano.
Além dos ganhos financeiros, as vias de transformação prevêem que nove milhões de mortes prematuras podem ser evitadas até 2050, e que quase 200 milhões de pessoas poderão ser retiradas da subnutrição e mais de 100 milhões da pobreza extrema até 2050.
Publicado por ocasião da sétima sessão da Assembleia das Nações Unidas para o Ambiente, em Nairobi, o relatório sublinha que o sucesso das soluções transformadoras depende da colaboração e da co-implementação paralela das soluções por diversos actores, incluindo governos, organizações multilaterais, o sector privado, a academia, as organizações da sociedade civil e as comunidades locais. A consideração de diversos sistemas de conhecimento, em particular o conhecimento indígena e das comunidades tradicionais, é crucial para garantir transições justas que conciliem a sustentabilidade ambiental com o bem-estar humano.
Países desenvolvidos em foco
A região da Europa Ocidental e Outros Estados, onde predominam as economias desenvolvidas (incluindo Portugal), também enfrenta crises ambientais interligadas, como a perda de biodiversidade, a alteração dos ecossistemas, eventos climáticos extremos e o aumento da poluição e resíduos.
Prevê-se uma perda substancial de biodiversidade na América do Norte, no norte da Europa e em partes da Austrália. As alterações nos recursos hídricos, por seu lado, serão drásticas, com o sul da Europa e a Austrália a enfrentarem secas e ondas de calor mais graves. Se a região mantiver as tendências actuais, a deterioração ambiental pode levar a problemas socioeconómicos significativos, alertam os investigadores.
Os países do grupo representam cerca de 10% da população mundial, mas detêm quase 60% da riqueza global – uma posição económica mais favorável que coloca sobre estes países a responsabilidade de facilitar as transições necessárias.
As soluções recomendadas incluem a introdução das já referidas “ecotaxas” e impostos sobre o carbono para compensar as chamadas “externalidades”, ou seja, os custos ambientais que de outra forma não são incluídos no valor monetário da produção e dos produtos finais.
Os governos devem ainda reorientar os investimentos de actividades de consumo de curto prazo para bens públicos de longo prazo, como o restauro de ecossistemas, a gestão sustentável de resíduos ou a descarbonização do sector energético e de áreas como a mobilidade. No plano internacional, sugere-se a redução dos riscos associados ao investimento estrangeiro directo em países de baixo rendimento e a expansão de instrumentos como as obrigações verdes.
Os investigadores alertam que a janela de oportunidade para liderar a transformação global está a fechar-se, o que exige acções coordenadas em todos os sistemas para garantir um futuro sustentável, sendo preciso haver vontade política, cooperação regional e coordenação de políticas económicas.