Cotswold Archaeology

Uma mutatio romana descoberta por uma equipa de arqueólogos em Gloucestershire, no Reino Unido, é uma janela extraordinária para o quotidiano na Britânia romana: vestígios do que só pode ser descrito como uma “área de serviço” com cerca de 2.000 anos — algo que, na altura, era revolucionário.

Em 2024, uma equipa de arqueólogos da Oxford Cotswold Archaeology que realizava escavações no âmbito do projeto de infraestruturas A417 Missing Link, encontrou um raro exemplo de uma mutatio romana — uma estação de paragem designada onde os viajantes podiam descansar, comer e, sobretudo, trocar de cavalos.

O sítio arqueológico situa-se junto à atual e movimentada A417, a cerca de oito quilómetros a sul de Cheltenham, ao lado de uma importante via romana que ligava Corinium (atualmente Cirencester) a Glevum (Gloucester) — dois dos mais importantes centros urbanos da Britânia romana ocidental.

As mutatio romanas eram uma peça vital do cursus publicus, a rede estatal de correio e transporte que permitia a Roma deslocar funcionários, mensagens e mercadorias de forma eficiente por todo o seu vasto império.

Segundo o Arkeonews, os indícios sugerem que esta mutatio em Gloucestershire esteve em funcionamento entre os séculos II e IV d.C., um período em que a Britânia romana prosperava, tanto do ponto de vista económico como militar.

Embora os edifícios sejam simples na conceção, o seu traçado revela uma clara divisão de funções: uma área dedicada às pessoas e outra reservada aos animais.

No espaço destinado aos animais, os arqueólogos encontraram freios, peças de arreios e equipamento para cavalos, confirmando que se tratava de um local específico para substituir animais exaustos por montadas frescas.

Na zona humana surgiram vestígios de fornos romanos rudimentares, mós para triturar cereal, áreas de confeção de alimentos e objetos pessoais — pistas de calor, refeições e abrigo temporário para viajantes cansados.

Os restos de comida indicam que aqui se consumiam pão, carne e até caracóis, uma iguaria em algumas regiões do mundo romano.

A descoberta de fogueiras de cozinha e de grandes quantidades de ossos de animais reforça a ideia de que isto era muito mais do que um simples estábulo: tratava-se de uma verdadeira área de descanso, com uma pequena rede de abastecimento própria.

Um autêntico tesouro arqueológico

A escavação revelou um conjunto impressionante de mais de 460 moedas romanas, 420 quilogramas de cerâmica e ossos de animais, 15 fíbulas decorativas (alfinetes de vestuário), um anel de bronze com incrustação de vidro e uma marcante conta de vidro azul e branco.

Um dos achados mais invulgares é um corta-unhas romano em osso e metal, um lembrete de que, mesmo em viagens longas, os cuidados pessoais não eram descurados.

O diretor de projeto das escavações, Alex Thompson, descreveu a descoberta como “um extraordinário olhar sobre a infraestrutura romana”, sublinhando que o sítio “superou todas as expetativas” e poderá representar um dos mais antigos conceitos formalizados de “área de serviço” rodoviária na Europa.

Os viajantes modernos tendem a dar por garantida a existência de áreas de serviço nas autoestradas, mas, na Antiguidade, a presença de pontos de paragem bem organizados era revolucionária.

Os romanos construíram mais de 80.000 quilómetros de estradas estruturadas em todo o império, muitas delas equipadas com mutationes e mansiones — estalagens de maiores dimensões para pernoita.

A localização desta mutatio sugere que terá servido tanto viajantes civis como funcionários ao serviço da administração romana. A proximidade de Corinium, então a segunda maior cidade da Britânia, reforça ainda mais a sua importância.

A descoberta reaça a curiosa continuidade entre as antigas e modernas rotas de transporte. Tal como a atual A417 canaliza condutores para grandes nós viários, a via romana que lhe corre ao lado transportava soldados, mercadores, correios e colonos através da província.

A estação agora posta a descoberto lembra-nos que, muito antes das bombas de gasolina e das lojas de conveniência, os viajantes já precisavam de locais para descansar, reabastecer e seguir caminho.


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