Problemas nos dentes e na gengiva não afetam apenas a estética ou a mastigação. Um estudo publicado na revista Neurology, da Academia Americana de Neurologia, revelou que a presença simultânea de cáries e doenças periodontais está associada a um aumento de 86% na probabilidade de AVC isquêmico. Especialistas reforçam que a prevenção passa, sobretudo, pela manutenção de uma rotina regular de consultas ao dentista.
A pesquisa acompanhou mais de 5 mil adultos, com idade média de 63 anos, sem histórico prévio de acidente vascular cerebral, ao longo de 20 anos. Nesse período, 10% dos participantes com problemas bucais apresentaram AVC, contra apenas 4% entre aqueles com saúde bucal preservada.
Segundo os pesquisadores, tanto as cáries quanto a doença periodontal envolvem processos infecciosos e inflamatórios capazes de contribuir para a aterosclerose e facilitar a formação de trombos que comprometem os vasos sanguíneos. O estudo também aponta que pessoas que mantêm bons hábitos de higiene oral tendem a adotar estilos de vida mais saudáveis e a ter maior acesso aos serviços de saúde.
O cirurgião-dentista Dickson Fonseca, diz que a relação entre saúde bucal e saúde geral é conhecida há décadas. “Em 1965 já se constatava que a inflamação da gengiva parte de algumas bactérias específicas que existem na boca. Com esse estudo, provou-se que todas as pessoas, se passarem 15 dias sem escovar os dentes, inflamam essas bactérias”, explica.
Além do AVC, a pesquisa indica que a má saúde bucal está associada a uma probabilidade 36% maior de ataques cardíacos e outros problemas cardiovasculares. Em contrapartida, a frequência de visitas regulares ao dentista mostrou efeito protetor expressivo: participantes que realizavam acompanhamento periódico apresentaram 81% menos chance de desenvolver a combinação de gengivite e cáries, além de 29% menos risco de doença gengival isolada.
Fonseca relata que o processo inflamatório começa na gengiva e pode evoluir para estruturas mais profundas. “Essa bactéria sangra a gengiva, numa inflamação chamada gengivite que depois vai para o osso, que se chama periodontite, que antigamente, chamava-se de piorréia”, afirma.
Ele alerta ainda para os riscos sistêmicos desse processo. “Quando você tem todos os dentes e ainda tem o potencial de ter esse problema, tanto da gengiva como do osso, ela pode, através dos vasos sanguíneos, chegar no coração.” Isso pode desencadear uma endocardite bacteriana, inflamação no coração, levando o paciente a necessitar até de cirurgia de válvula, visto que a bactéria é muito agressiva.
No Brasil, pesquisas reforçam essa associação. Um estudo publicado pelo Instituto do Coração (Incor) em 2023 apontou que cerca de 45% das doenças cardiovasculares, como AVC e aterosclerose, têm origem bucal. A má higiene favorece a proliferação de bactérias e inflamações na cavidade oral, que podem desencadear complicações cardíacas.
Os impactos da saúde bucal também alcançam o sistema nervoso. Um trabalho publicado em 2019 na revista Science Advances identificou a presença da bactéria Porphyromonas gingivalis, principal agente da periodontite, no cérebro de pacientes com Alzheimer. Já uma pesquisa divulgada pela revista Nature, em 2021, identificou uma relação entre doença periodontal e Parkinson, possivelmente associada aos processos inflamatórios gerados por bactérias orais.
O cirurgião-dentista destaca que hábitos simples fazem diferença significativa. “Hoje, a pessoa que teve acesso à saúde básica, que escova os dentes com frequência, passa fio dental, o risco desse problema é muito pequeno”, afirma.