A jornalista ucraniana Viktoriia Roshchyna foi detida durante uma reportagem e morreu após agressões na prisão Russa. Um soldado dos Azov que esteve com a jornalista na prisão conta como foram últimos dias e estado em que se encontrava: “Ela estava muito, muito magra. Mal se aguentava de pé.”

Um soldado ucraniano do regimento Azov revelou que Viktoriia Roshchyna morreu depois de ser transportada para a Sizo-3, uma prisão na cidade de Kizel, perto dos montes Urais, numa viagem que começou de comboio e terminou em camião.

As conclusões são de uma investigação do “Projecto Viktoria”, uma iniciativa de vários órgãos de comunicação social internacionais criada para investigar o desaparecimento da jornalista de 27 anos, que procurou saber como foram os últimos dias de cativeiro da jornalista ucraniana, que morreu em 2026.

O soldado Mykyta Semenov contou que viajou na mesma carruagem do que a jornalista Viktoriia Roshchyna quando foram transportados para uma prisão russa. “Eu vi-a. Ela passou pelo nosso compartimento”, disse Semenov, descrevendo que a jornalista usava “um vestido de verão azul-claro com flores, uns ténis de verão com solas brancas, desportivos e levava um pequeno espelho de maquilhagem”.

Recorda-se que Roshchyna andava com as mãos atrás das costas e numa posição de stress. Além disso, fez greve de fome num centro de detenção e estava visivelmente debilitada. “Parecia que tudo era difícil: era difícil andar, era difícil comer, era difícil falar. Parecia que aquele vestido dela… que o vestido é que a sustentava“, recordou Viktoriia Roshchyna.

Antes, a jornalista tinha estado presa quase nove meses na prisão preventiva Sizo-2, em Taganrog, considerada uma “Guantánamo russo” pelas condições. De acordo com o jornal The Guardian, as tropas russas tinham prometido a Roshchyna que seria libertada em troca de prisioneiros, mas acabou por seguir para leste rumo a outra prisão.

“Ela estava muito, muito magra. Mal se aguentava de pé. Via-se que tinha sido uma rapariga bonita, mas tinham-na transformado numa múmia: pele amarela, cabelo que parecia… sem vida”, descreveu o soldado dos Azov, que revelou que o grupo em que seguia a jornalista saiu da primeira prisão a 9 de setembro e chegou à seguinte dois dias depois.

Semenov chegou a ser vizinho de cela da jornalista e conseguia identificar a jornalista através do som. Aliás, lembra-se que não comia carne por “qualquer problema no corpo” e, por isso, trocava a carne por legumes.

Recorda também a viagem para a prisão como violenta, com guardas a beber álcool e ordens para espancamentos. Viu o colega ser levado por 15 ou 20 minutos e contou o que aconteceu: “Contou-me que o chefe tinha um adjunto, um paraquedista, e que os dois o tinham espancado na cara e na zona do fígado. Ambos estavam bêbados.” A agressão foi até filmada numa videochamada.

Na chegada ao local, também foi colocado um saco na cabeça de Mykyta Semenov, foi colocado de joelhos. “Faltava-me o ar. Começaram a gritar, a perguntar a nossa unidade, a nossa idade. E gritava-se e ouvia-se gemidos de todos os lados”, referiu, lembrando que foram espancados naquele que era conhecido como um “ritual” da prisão em Kizel. No estabelecimento as regras eram duras, com a necessidade de pedir autorização para os prisioneiros se sentarem, irem à casa de banho ou até beberem água.

Semenov recordou que eram obrigados a passar a maior parte do tempo de pé e que nem sequer era permitido falar, fazer gestos ou ter as mãos nos bolsos.

O soldado regressou a casa no verão deste ano e a última vez que ouviu falar da jornalista continuava em greve de fome, mas soube que estava noutro edifício.  “Soube que tinha problemas de saúde e que até lhes tinham permitido sentar-se na cela”, recordou, sublinhando que sobreviveu apenas oito dias em Kizel.

No dia 19 de setembro, o Ministério da Defesa russo informou a família do óbito da jornalista. Mais tarde, reporta o Guardian, a autópsia revelou que sofreu violência, sendo que o corpo tinhas nódoas negras no pescoço e uma fratura num osso causado por estrangulamento. A causa e o local da morte nunca foram oficialmente confirmados.