O protesto começou na estação de Santa Apolónia, de onde muitos vieram de comboio, mas foi ao passar no Terreiro do Paço que a região da Beira Baixa mostrou a todos os que por lá passavam um pouco do seu imaginário popular. 


Alexandre Barata, do Fundão, traz cânticos da região para o protesto enquanto outros dão ritmo com bombos, chocalhos e adufes.


“Estamos a tocar à moda dos bombos, que tem a ver com a tradição”, explica Alexandre, com ditados populares ligados ao povo do Souto da Casa e ao sítio do Carvalhal. 



Mas há outro ditado que reflete a luta que a população local está a enfrentar: “O sol é de quem o ganha e a terra é de quem a amanha”.

“Não estou afetado diretamente porque os painéis não vão estar à porta da minha casa, mas estão na minha região”, diz, sem acreditar nos benefícios económicos prometidos – “isso é greenwashing”, apostando que “não vão conseguir fazer nem metade do que se propõem fazer”, como a plantação de árvores para compensar as que serão deitadas abaixo.

Reportagem Antena 1


Nos últimos anos têm sido preparados dois grandes projetos de painéis solares: a central Sophia, com uma área total que supera os 1.700 hectares, e a central da Beira, com cerca de 675 hectares. 

A central Sophia, que teve a maior participação pública de sempre, é a que mais corre nas bocas dos manifestantes. Depois da consulta pública, aguarda a declaração de impacte ambiental, pelo que, se tudo correr nos prazos previstos pela BP, a central começa a ser construída em 2028 para entrar em funcionamento dois anos depois. 


Os portugueses e os estrangeiros que vivem nos concelhos abrangidos pela Sophia – Fundão, Penamacor e Idanha-a-Nova – e pela Beira – Castelo Branco e Idanha-a-Nova – temem o futuro das propriedades que têm. 


Em Vale dos Prazeres, no Fundão, Andrea tem uma quinta onde faz licores, vinhos, azeitonas, azeite e ervas medicinais. 



Veio da Suíça há 12 anos, mudou de casa muitas vezes e agora “é a primeira vez que encontro o sítio onde eu quero também morrer”, mostrando que criou raízes na região. 


Também Manuela, de 84 anos e de Idanha-a-Nova, mostra-se preocupada com a transformação que pode acontecer na Serra da Gardunha. 


“A Serra da Gardinha é a serra onde eu nasci e vão enchê-la de painéis solares”, afirma à Antena 1. Veio de autocarro para este protesto e diz que tinha de mostrar o seu desagrado: “Eu não posso olhar para aquela serra toda negra quando ela era verdinha”. 


O protesto terminou depois das 16 horas junto à escadaria da Assembleia da República, onde ainda há pedaços de vidro e cinzas dos objetos incendiados depois da manifestação da greve geral de quinta-feira.


Região abandonada? “Isso revolta-me”

Com vários manifestantes a salientarem que não estão contra a energia solar, mostram sim oposição à escala dos projetos e ao impacto que podem ter na agricultura e no turismo. Associações ambientalistas e autarquias têm alertado para os prejuízos na paisagem e na biodiversidade numa zona que inclui o Parque Natural do Tejo Internacional e o geoparque NaturTejo classificado pela UNESCO. 

Declarações de Samuel Infante, da Plataforma de Defesa do Parque Natural do Tejo Internacional, uma das promotoras da manifestação

Também a Comunidade Intermunicipal da Beira Baixa emitiu um parecer desfavorável ao projeto Sophia, no âmbito da consulta pública. 


Ouvida pela Antena 1 na sexta-feira, a vice-presidente desta comunidade intermunicipal e presidente da Câmara Municipal de Idanha-a-Nova, Elza Gonçalves, afirma que já teve uma primeira conversa com a ministra do Ambiente, em que lhe foi dito que ia ser marcada uma audiência para falar sobre as preocupações da população.

A autarca recusa a ideia de que está abandonada a região onde os painéis solares vão ficar: “Isso revolta-me”.

com Camila Vidal – Antena 1