Martin Parr é um artista de muitos predicados. Morto neste sábado (6), aos 73 anos, o britânico foi um dos últimos grandes nomes a mudar a fotografia de maneira profunda, e em diferentes áreas. Além de fotógrafo de imensa influência, foi curador, pesquisador, presidente da Magnum, a agência mais mítica entre todas as agências, e alguém com o poder de impulsionar a carreira de jovens apenas por elogiar um trabalho.
A maioria dos obituários de Parr vai, com certa razão, destacar o protagonismo das fotografias que fez em praias por mais de quatro décadas em diversas partes do mundo, da Tailândia à China, do Brasil à Itália, dos EUA ao Japão e, claro, no Reino Unido, onde produziu “Last Resort”, uma de suas séries mais conhecidas.
No balneário de New Brighton, Parr fez um retrato melancólico das famílias inglesas da classe trabalhadora, explorando o contraste entre um espaço que deveria oferecer diversão —ou onde há pressão para se divertir— e pessoas que pouco sorriem em meio a lixo por todo lado, poses desconfortáveis e choro de crianças.
Ali ele já usava o recurso do flash estourado, mesmo em locais ensolarados, uma marca da visão cáustica que definiu sua carreira. A luz forçada trazia comicidade às fotos, sem sutilezas, e expunha a situação das classes média e baixa do Reino Unido que enfrentavam uma economia deteriorada na década de 1980.
Essa abordagem, claro, também gerou críticas de que Parr era cruel ao, de certa forma, rir daquele cenário, embora dissesse que seu interesse era menos pelo tema das classes e mais pelo do lazer, “das banalidades do dia a dia com as quais todas as pessoas têm de lidar, como gritos de bebês e um dia de tempo ruim”.
De fato, nas décadas seguintes Parr expandiu os assuntos que abordou nas praias, focando a indústria do turismo e absurdos estéticos de todo tipo, sempre cheio de cores e formas curiosas, como nas imagens do rosto de uma mulher tomando sol na Espanha com um protetor nos olhos e de uma sunga com a bandeira dos EUA numa bundinha murcha em Miami, dispostas lado a lado na coletânea “Life’s a Beach”, de 2013.
No decorrer dos anos, também intensificou o contraste das imagens, e seu flash ficou ainda mais forte. Se nos anos 1980 e no início dos 1990 as fotos eram mais “lavadas”, agora elas apareciam ultravívidas, o que também fez a crítica social perder força frente à abordagem mais pop. Ficou mais fácil de digerir sua obra.
A morte precoce, logo depois de inaugurar uma grande mostra em Nuremberg, na Alemanha, toda baseada em mais de seus 200 fotolivros, deve impulsionar um novo olhar para a carreira de Parr, resgatando séries menos conhecidas, como as do início dos anos 1970, em que curiosamente fotografou em preto e branco.
Nada ali é muito diferente do que fez na sequência. Pelo contrário, explica a gênese do olhar atento ao que é ordinário e que, por isso, muitas vezes passa despercebido. São registros de pequenos gestos e de poses que captam o absurdo do dia a dia. Chama a atenção uma fotografia de 1972, de uma piscina na Inglaterra, da série “Butlin’s by the Sea”, que parece ter sido atualizada numa praia artificial lotada no Japão em 1996.
Ao ser um dos responsáveis por consolidar o fotolivro como a principal plataforma de difusão da fotografia, Parr também teve uma atuação prolífica em outras áreas da prática, editando livros, curando exposições e à frente de pesquisas que organizaram ou revelaram a produção de diferentes partes do mundo. Com Gerry Badger, lançou os três volumes de “The Photobook: A History”, grande referência aos interessados no tema.
Sua influência era tão forte que, em 2014, o fotógrafo Lewis Bush publicou “Martin Parr’s Money”, um chiste com a fama do britânico no mundo dos fotolivros. De capa dourada e encadernada com fios de ouro, a obra tirava sarro do impulso que artistas ganhavam cada vez que Parr os citava entre as melhores publicações do ano. Ao abrir o livro, o leitor encontrava apenas uma nota de 20 libras, o que certamente divertiu o seu homenageado, um crítico do consumismo global desenfreado e, ao mesmo tempo, alguém que o reforçou.
O legado de Parr ainda repercutirá por anos, pois seu olhar, embora impossível de ser copiado, foi emulado à exaustão por fotógrafos e revistas atuais, que por vezes o repetem sem nem mesmo conhecê-lo a fundo.