O debate presidencial deste sábado entre André Ventura e António Filipe começou com um tom menos agressivo do que o habitual, mas depressa se transformou num confronto marcado por profundas divergências ideológicas. Mais do que uma discussão sobre os poderes do Presidente da República, o frente-a-frente expôs duas leituras opostas do país: Ventura procurou moderar a forma, mas não conseguiu abdicar das provocações políticas, procurando colar o ex-deputado do PCP a regimes autoritários comunistas, enquanto António Filipe insistiu em recentrar o debate nos problemas concretos de Portugal e no quadro constitucional, rejeitando as “conversas da treta” do líder do Chega.
O frente-a-frente, transmitido na RTP, arrancou com André Ventura a ser confrontado com a evolução da sua posição sobre a greve geral, dado que em Novembro classificava a paralisação como “um erro em que só a extrema-esquerda e os partidos a ela ligados conseguem ver qualquer benefício”, e agora afirma-se a favor da greve. O líder do Chega negou qualquer contradição e respondeu que o Chega foi o “primeiro a dizer que o Governo tinha de mudar coisas”, classificando o pacote laboral como um “ataque a quem trabalha”. Repetindo o que já tinha dito na sexta-feira, o líder do Chega afirmou que “ou o Governo muda” ou o Chega não aprovará as mexidas à lei laboral.
António Filipe não deixou Ventura esquecer a posição que teve em Novembro e desafiou-o mesmo a votar contra o pacote laboral, até porque, para o ex-deputado comunista, o Governo já tencionava fazer cedências. “Foi por isso que colocou tanta alteração, para poder dizer que cedeu ali e acolá e manter o que lhe interessa”, traçou o candidato apoiado pela CDU.
Por sua vez, Ventura respondeu que estava “mais perto do Governo” do que o PCP (dado o tamanho da bancada parlamentar), o que António Filipe aproveitou para criticar, acusando o líder do Chega de estar a intervir “na sua outra qualidade, como deputado” e não como candidato presidencial, algo que considerou previsível num candidato “a tudo”.
Passos, Fidel e Cunhal
A clivagem ideológica tornou-se mais evidente quando António Filipe afirmou que Ventura está, “nas questões decisivas”, do lado dos grandes interesses económicos, lembrando o apoio às políticas do tempo da troika e a admiração por Pedro Passos Coelho. “Quem está contra este sistema sou eu, não é Ventura”, resumiu António Filipe. O líder do Chega respondeu subindo o tom ideológico, afirmando que não gostaria de ver Álvaro Cunhal ou Fidel Castro como Presidente da República, preferindo Passos Coelho. “Tenha respeito, Álvaro Cunhal sacrificou a sua vida na luta contra a ditadura”, respondeu António Filipe, antes de acusar Ventura de simpatias por regimes autoritários.
Seguiu-se o habitual pingue-pongue sobre a “geringonça“, imigração e responsabilidades políticas. Ventura responsabilizou PCP e PS pela subida dos preços da habitação, pelo aumento da imigração e pelo estado das pensões, acusando o Governo anterior de ter deixado “o país no estado em que está” e culpando o PCP pela lei da nacionalidade. António Filipe lembrou que votou contra a extinção do SEF e defendeu que o combate deve ser dirigido às redes de tráfico, não aos imigrantes, que são vítimas do processo.
Na recta final, o debate deslocou-se para a democracia, a Constituição e a segurança. António Filipe enquadrou a eleição como uma escolha decisiva para a defesa do regime democrático, acusando Ventura de declarações antidemocráticas e lembrando que um Presidente da República não tem poderes para alterar a Constituição. Ventura respondeu dizendo ser “o mais democrata” e acusou o PCP de querer sair do euro e da NATO, acusações que António Filipe rejeitou, voltando a classificar o discurso do adversário como “conversa da treta” e vincando que estes são temas sobre os quais tem falado.
O tema da segurança trouxe o registo mais duro de André Ventura, que reiterou posições já conhecidas, defendendo uma lógica de autoridade e excepção, elogiando o modelo de El Salvador e repetindo que prefere “um bandido morto a um polícia morto”. António Filipe contrapôs com uma leitura constitucional do cargo, lembrando que o Presidente não manda nas polícias nem prende ninguém e que a segurança não se constrói com apelos à morte, mas com melhores salários, condições de trabalho e respeito pelo Estado de direito.