A concorrência enfrenta o mesmo muro. A Apple, com os seus óculos de realidade aumentada Vision Pro, debate-se com vendas fracas e pausas na produção, enquanto a Sony foi forçada a cortar o preço do PSVR2 para 350 euros, menos 100 do que antes e bem menos do que os quase 600 no lançamento, em fevereiro de 2023. Em dois anos, o fabricante japonês vendeu menos de 1,5 milhões de unidades desta segunda versão do seu sistema de VR para a PlayStation.
Para agravar todo este cenário, o desenvolvimento do metaverso enfrenta agora um inimigo invisível: a própria Inteligência Artificial. A atual “corrida ao ouro” da IA criou um buraco negro que absorve todo o hardware disponível. Relatórios de dezembro de 2025 indicam que o preço da memória RAM disparou até 600% em certos mercados, com os fabricantes a desviarem toda a produção para servidores de IA. A situação atingiu contornos insólitos na Samsung, onde a Divisão Móvel reporta dificuldades em adquirir chips à sua própria Divisão de Semicondutores, que prefere vender a capacidade de produção a gigantes de IA a preços premium [ler texto ao lado]. Com o “silício” a preços proibitivos, criar headsets acessíveis tornou-se uma impossibilidade financeira.
Entra o projeto Avocado. E goodbye open-source
O dinheiro poupado no metaverso não ficará nos cofres da empresa. A Meta está a redirecionar maciçamente estes recursos para a nova obsessão de Silicon Valley. A estratégia passa agora pelo abandono da filosofia open-source do modelo Llama em favor de um novo modelo comercial e proprietário, com o nome de código Avocado, previsto para o primeiro trimestre de 2026.
Para liderar esta frente, a empresa criou a unidade Superintelligence Labs, contratando talento da OpenAI e da Apple a peso de ouro. A previsão é que a Meta gaste cerca de 72 mil milhões de dólares em IA só este ano, mais do que perdeu no metaverso em quatro anos.
No campo do hardware, a lição parece ter sido aprendida. O sucesso dos óculos Ray-Ban Meta ditou o fim dos “tijolos na cara”: o lançamento do Quest 4 foi adiado para 2027 e o foco muda para dispositivos ultraleves com processamento externo, desenhados sob a alçada de Alan Dye, ex-executivo da Apple recentemente contratado.
Wall Street entre a euforia e o medo
A resposta dos investidores a esta reestruturação foi volátil. Inicialmente, a notícia dos cortes no metaverso fez as ações da Meta dispararem mais de 4%, com Wall Street a celebrar o fim de uma “distração dispendiosa”. No entanto, o sentimento azedou esta quinta-feira, 11 de dezembro, com o mercado a recuar cerca de 1% após a Oracle apresentar resultados dececionantes, devido aos custos de infraestrutura de IA.
O medo dos investidores é simples foi resumido pelo analista Craig Huber, da Huber Research: a mudança foi “inteligente, mas tardia”. Zuckerberg pode assim ter fechado a torneira do metaverso apenas para abrir outra, igualmente cara e incerta, na Inteligência Artificial, tendo em conta a forte concorrência e o atraso que a sua empresa enfrenta.