Condições meteorológicas extremas, 24 horas de luz, alimentação à base de latas, neve por todo o lado e visitas pontuais de famílias de pinguins. É assim que têm sido os últimos meses para Tiago Figueiredo, português que foi selecionado para trabalhar no lugar mais remoto do mundo — a Antártida.

Natural de Cascais, Tiago partiu em direção à ilha de Goudier, cuja área equivale a um campo de futebol, no passado dia 27 de outubro. Desde então, e até março do próximo ano, é ali que vai viver, a trabalhar como gerente da loja de presentes da United Kingdom Antarctic Heritage Trust (UKAHT), uma instituição dedicada a preservar o património histórico britânico na Antártida e responsável pela viagem. 

Anualmente, a instituição envia uma equipa para estudar e acompanhar o desenvolvimento da colónia de mais de mil pinguins-Gentoo da ilha. O objetivo é que os membros estejam atentos aos animais e também ao património britânico na região. Ali, o trabalho é dividido entre um posto de correios, um museu e uma loja de recordações.

Entre milhares de candidatos, Tiago foi um dos escolhidos. “Durante algum tempo não pareceu real, foi difícil acreditar que tinha sido selecionado entre tantos candidatos”, começa por contar à NiT Tiago, de 48 anos, licenciado em Engenharia Industrial. “Tive imenso tempo para me preparar, por isso durante algum tempo foi uma realidade algo distante.”

Além de gerente da loja, Tiago acompanha o trabalho de colegas no posto de correios e também na monitorização dos pinguins, sobretudo em assuntos relacionados com os ovos e as crias.

A ideia de se juntar à equipa surgiu por acaso, quando a mulher, Raquel, viu uma reportagem televisiva sobre a UKAHT. “Conhecendo-me melhor do que ninguém, pensou logo que era o tipo de projeto em que eu adoraria participar”, recorda Tiago, que vive desde 2012 no Reino Unido. Sem pensar duas vezes, o português enviou a candidatura e acabou por ser selecionado para a época de 2025/2026. Em setembro, os treinos de preparação arrancaram em Cambridge, Inglaterra.

Até à data da viagem, teve de aprender como sobreviver em condições extremas, primeiros socorros e como tratar eventuais cortes. Recebeu também treino em comunicações e como aprender a viver na base — por exemplo, como reciclar, como remover resíduos e como sobreviver na Antártica, respeitando o acordo e as regras da Associação Internacional de Operadores Turísticos da Antártida (IAATO).

Para o cargo que desempenha neste semestre, o português aprendeu a trabalhar no posto de correios e a manusear artefactos históricos guardados no museu local. Ambos são anualmente visitados por um número seletivo de turistas, que necessitam de autorização para se deslocarem à região. “O projeto interessou-me imenso desde o início”, sublinha, acrescentando que um dos maiores desafios foi adaptar-se às condições. “Não temos água corrente ou aquecida, nem frigorífico ou recursos ilimitados de qualquer espécie”, aponta.

Outra dificuldade foi preparar-se para o inverno da região. O português levou “muita roupa quente de boa qualidade”, como camadas-base de lã merina, gorros, meias e botas. “Somos patrocinados pela Alpkit, o que facilita muito a preparação”, refere. “Pessoalmente tento manter-me em boa forma e alimentar-me bem, porque acho que se nos mantivermos ativos estamos mais preparados para enfrentar qualquer desafio.”

A própria alimentação, por sua vez, foi uma grande mudança. A falta de frigorífico faz com que a equipa só consiga comer aquilo que possa ser mantido a temperatura ambiente — é tudo vegetariano e em latas, como leite em pó, chá, lentilhas, feijão, grão, massas e arroz. No entanto, levou alguns produtos de casa. “Trouxe café e chocolates”, acrescenta. “Os navios que passam vão deixando alguns presentes, normalmente fruta e legumes, queijo e ovos.”

Tiago está atualmente a viver numa estrutura “tipo guarita militar”, conhecida como Nissen Hut. Na equipa, conta com o apoio da holandesa Alette Kattenberg, da galesa Lisa Ford e das inglesas Amanda Barry e Rachel Wilkinson.

“Até agora, a maior dificuldade é descansar. Como temos luz durante 24 horas, por vezes não pensamos em parar e há sempre coisas para fazer e paisagens para ver”, afirma.

“Tudo demora mais tempo aqui, porque caminhamos lentamente pelo gelo e sair de casa implica vestir dois casacos, calças impermeáveis, botas, luvas, gorro e óculos. Além disso, temos de testar o rádio e garantir que estamos em contacto com a base.”

Embora estejam completamente isolados do resto do mundo, um dos pontos altos da experiência é a proximidade dos pinguins. “No nosso caso, contamos os pares residentes, os ovos e as crias, que nascem 30 dias depois de os ovos serem postos”, revela. “Verificamos também quanto tempo demoram a perder as penas e a ir para a água pela primeira vez.”

O objetivo deste trabalho, de acordo com Tiago, é saber se a população está estável, a crescer ou a decrescer, ou se corre riscos relacionados com predadores, subida das marés, entre outros. “Os nossos pinguins são Gentoo, ou seja, fazem ovos em terra e não no gelo como os imperadores. Por isso, têm um potencial de migração e de desenvolvimento grande, em especial se os níveis de gelo diminuem.”

Além dos pinguins, Tiago tem esperanças de ver outros animais nos próximos meses. Está entusiasmado por “conhecer melhor a ilha, passear pela maré baixa e vigiar as águas — à procura de baleias, orcas e focas — e os céus, à procura de aves.”

Em casa, o português deixou temporariamente os familiares, os amigos e o seu fiel companheiro, o cão Goonie. “Tivemos tanto tempo para nos mentalizarmos que acho que vai correr tudo bem”, sublinha. “Tenho a certeza de que a minha família vai aproveitar a minha ausência para celebrar o Natal de forma inesquecível, porque vai ser sempre o Natal em que o pai estava na Antártida.”

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