Um exoplaneta gigante gasoso que orbita duas estrelas, parecido com o planeta Tatooine, da saga Star Wars, foi identificado por astrônomos a partir da reanálise de dados coletados há cerca de uma década. Batizado de HD 143811 AB b, o mundo distante está a aproximadamente 446 anos-luz da Terra e se destaca por orbitar seu par de sóis mais perto do que qualquer outro exoplaneta circumbinário já observado diretamente.

A descoberta foi detalhada em estudo publicado na revista Astronomy & Astrophysics e envolve pesquisadores da Northwestern University, dos Estados Unidos, e da Universidade de Exeter, do Reino Unido, que chegaram de forma independente à mesma conclusão ao revisitar registros do Gemini Planet Imager (GPI), instrumento do telescópio Gemini South, no Chile.

Um vídeo em time-lapse divulgado pela equipe mostra o planeta descrevendo sua órbita ao redor das duas estrelas, numa imagem comparada aos “dois sóis” de Tatooine, lar fictício do protagonista de Star Wars, Luke Skywalker.

Visão dos dois sóis de Tatooine, planeta fictício do universo Star Wars — Foto: Reprodução: IMDB Visão dos dois sóis de Tatooine, planeta fictício do universo Star Wars — Foto: Reprodução: IMDB

Apesar da proximidade relativa em relação a outros sistemas binários, o planeta ainda está cerca de 80 vezes mais distante de suas estrelas do que a Terra está do Sol. Mesmo assim, essa distância é pequena para padrões de exoplanetas circumbinários: ele orbita a cerca de 60 unidades astronômicas (UA), unidade de medida que usa a distância entre a Terra e o Sol como referência, contra 500 UA do exoplaneta binário mais próximo já imageado anteriormente.

O resultado é um período orbital extremo: HD 143811 AB b leva cerca de 300 anos para completar uma volta, enquanto suas estrelas companheiras giram uma em torno da outra a cada 18 dias. O planeta também é um verdadeiro colosso: seis vezes maior que Júpiter e com temperatura estimada em cerca de 769 °C, quase duas vezes maior que a de Vênus.

Jovem em termos cósmicos, ele teria cerca de 13 milhões de anos, uma fração da idade da Terra, que se formou há 4,6 bilhões de anos. Suas estrelas pertencem à associação Scorpius-Centaurus, uma das regiões de formação estelar mais próximas de nós, o que ajuda a explicar o intenso calor irradiado.

Segundo o especialista em imageamento de exoplanetas Jason Wang, da Northwestern, sistemas como esse são raros e valiosos para a ciência. “Dos 6.000 exoplanetas que conhecemos, apenas uma fração muito pequena orbita sistemas binários”, afirmou em comunicado.

“Destes, só temos imagens diretas de alguns poucos, o que significa que podemos ver o sistema binário e o próprio planeta.” Ele acrescentou: “Registrar tanto o planeta quanto seus sóis é interessante porque é o único tipo de sistema planetário em que podemos traçar, ao mesmo tempo, a órbita das estrelas e a do planeta no céu.”

A confirmação exigiu paciência e método. Ao comparar dados de 2016 e 2019 do GPI com observações do Observatório W. M. Keck, no Havaí, os pesquisadores notaram um ponto fraco de luz que se movia junto com a estrela. “As estrelas não ficam paradas na galáxia; elas se movem”, explicou Wang.

“Se um planeta está ligado a uma estrela, ele se moverá com ela.” Ele completou: “Às vezes, quando revisitamos um ‘planeta’, descobrimos que ele não está se movendo com a estrela — era apenas uma estrela passando ao fundo. Se ambos se movem juntos, é sinal de que se trata de um planeta em órbita.”

Curiosamente, a descoberta ocorreu justamente quando o GPI encerrou suas atividades no hemisfério sul e se preparava para uma atualização e transferência para uma área próxima ao vulcão Mauna Kea, no Havaí.

O movimento motivou equipes a revisar o vasto arquivo do instrumento, que observou mais de 500 estrelas, mas conseguiu imagear diretamente apenas seis exoplanetas, o que mostra como é difícil capturar esses mundos próximos a estrelas brilhantes.

O achado também levanta um enigma sobre a formação de HD 143811 AB b. A maioria dos planetas circumbinários imageados teria se formado por instabilidade gravitacional, quando o disco protoplanetário colapsa.

No entanto, este pode ter surgido por acréscimo de núcleo e migrado depois, ou ainda pelo mesmo processo de instabilidade. “O processo exato de como isso funciona ainda é incerto”, disse Wang. “Como detectamos apenas algumas dezenas de planetas como esse, ainda não temos dados suficientes para montar o quadro completo.”

Embora as comparações com Tatooine sejam inevitáveis, os cientistas ressaltam que o planeta real está longe de ser habitável: além do calor extremo, seu longo período orbital e a dinâmica violenta do sistema binário tornam a vida como conhecemos improvável. Ainda assim, o caso ilustra o potencial escondido em dados antigos.

Com o GPI aprimorado e operando no hemisfério norte, os astrônomos esperam obter imagens diretas de exoplanetas ainda mais próximos de suas estrelas — e, desta vez, sem precisar esperar mais dez anos para encontrá-los.