Se tentou comprar um voo de última hora esta semana, provavelmente deparou-se com duas realidades: preços proibitivos e aviões lotados. Não é coincidência. O aeroporto Humberto Delgado, em Lisboa, e o Francisco Sá Carneiro, no Porto, estão a viver dias de azáfama que, tradicionalmente, só víamos nos picos de julho ou agosto. O casaco de penas substituiu o biquíni na mala de mão e a tendência é clara: viajar em dezembro deixou de ser um luxo de poucos para se tornar algo mais comum.
Estudos recentes da ONU Turismo e dados preliminares da IATA (Associação Internacional de Transportes Aéreos) para este final de 2025 confirmam o que as agências de viagens já sentiam ao balcão: o turismo de inverno não só recuperou totalmente da pandemia, como está a crescer a um ritmo superior ao do verão em várias latitudes.
Mudança de paradigma: memórias vs. coisas
O que mudou na cabeça dos portugueses? A resposta parece estar na redefinição do “espírito natalício”. Segundo dados da Associação Nacional das Agências de Viagens (ANAV) e relatórios de consumo da Mastercard Economics Institute, há uma transferência direta do orçamento que antes era alocado a prendas físicas (tecnologia, roupa, brinquedos caros) para experiências.
“As pessoas perceberam que um iPhone dura três anos, mas uma viagem à Lapónia ou um fim de ano no Rio de Janeiro dura para sempre na memória”, explica uma fonte do setor. Este comportamento, que começou a desenhar-se em 2022 como uma “vingança” pós-confinamento, cristalizou-se em 2025 como um novo hábito de consumo.
As famílias preferem cada vez mais oferecer uma viagem conjunta, onde todos contribuem ou que serve como “prenda única”, do que gastar centenas de euros em presentes individuais que acabam esquecidos numa gaveta em janeiro.
O fator “workcation” e o fim da sazonalidade
Outro motor silencioso deste crescimento é a flexibilidade laboral. Mesmo com o regresso aos escritórios, o modelo híbrido veio para ficar. Dezembro de 2025 vê um pico de bleisure (negócios + lazer) e workcations.
Muitos portugueses estão a aproveitar as semanas de feriados para trabalhar remotamente a partir de destinos diferentes, guardando os dias de férias efetivos para a semana entre o Natal e o Ano Novo. Isto permitiu alargar a janela de viagens. O que antes era uma viagem de 4 dias (28 a 1 de janeiro), agora transforma-se frequentemente numa estadia de 10 a 15 dias, diluindo a pressão sobre os voos em dias específicos, mas aumentando o volume total de passageiros ao longo do mês.
Inflação? Sim, mas viaja-se na mesma
O dado mais surpreendente deste dezembro de 2025 é a resiliência da procura face aos preços. A hotelaria e a aviação registam aumentos de tarifas na ordem dos 12% a 15% em comparação com o ano passado. No entanto, os aviões continuam cheios.
Isto indica que a viagem passou de um produto de “excesso de rendimento” para um produto de “primeira necessidade” no orçamento de lazer das classes média e alta. Os portugueses estão a cortar noutras despesas ao longo do ano (restauração semanal, vestuário) para garantir a “escapadinha” de dezembro. O orçamento médio por pessoa para viagens de fim de ano ronda agora, segundo estimativas do setor, os 1.200€ a 1.500€, valores impensáveis para a classe média portuguesa há uma década.
O mapa das viagens: para onde vão todos?
A procura em dezembro divide-se, de forma quase tribal, em dois grandes grupos: os que perseguem o espírito natalício do frio e os que fogem dele desesperadamente em busca de calor.
A Lapónia, na Finlândia, continua entre os destinos mais sonhados durante a época do Natal
Créditos: 66 north | Unsplash
Aqui estão os destinos que lideram as reservas dos portugueses em dezembro de 2025:
1. Clássicos do frio e mercados de Natal
A Europa Central continua a ser o destino rei para as pontes de dezembro e para o Natal propriamente dito.
Alsácia (França): Estrasburgo e Colmar tornaram-se o “Disneyland do Natal” para os portugueses. A facilidade de voos para aeroportos próximos e o charme das vilas medievais mantêm este destino no topo.
Alemanha e Áustria: Munique, Nuremberga e Viena continuam imbatíveis na tradição dos mercados.
Lapónia (Finlândia): o destino premium de dezembro. Apesar dos preços elevados (facilmente superando os 2.500€ por pessoa), a procura por Rovaniemi e pela casa do Pai Natal esgotou meses antes.
Nova Iorque (EUA): o Natal em Manhattan continua a ser um sonho de consumo cinematográfico que atrai milhares de portugueses, beneficiando de um euro que se mantém competitivo face ao dólar.
2. A fuga para o sol (Fim de Ano)
Para a Passagem de Ano, a lógica inverte-se. O objetivo é entrar em 2026 de chinelos no pé.
Brasil: o “eterno” favorito. Rio de Janeiro (Copacabana) e o Nordeste (Salvador, Recife, Fortaleza) estão a registar ocupações máximas de turistas lusos.
Cabo Verde: a opção “sol garantido” mais rápida e económica (relativamente) para os portugueses. Sal e Boavista estão cheias.
Caraíbas: República Dominicana e México (Cancún/Riviera Maya) continuam a ser as opções prediletas para o regime de “Tudo Incluído”, ideal para famílias que querem controlar o orçamento final.
Sudeste asiático: com a normalização total das rotas aéreas para a Ásia, a Tailândia e o Vietname voltaram em força para quem dispõe de mais dias de férias.
Turistas lusas procuram o Rio de Janeiro para a Passagem de Ano
Créditos: Raphael Nogueira | Unsplash
3. “Cá Dentro”: as ilhas
Não é preciso sair do país para encontrar hotéis cheios.
Madeira: o Fim de Ano no Funchal continua a ser o evento turístico número um de dezembro em Portugal. A taxa de ocupação hoteleira para a noite de 31 de dezembro roça os 100%, com navios de cruzeiro a comporem a moldura do porto.
Lisboa e Porto: curiosamente, as duas grandes cidades estão cheias, mas de estrangeiros (espanhóis, franceses, americanos) que vêm viver o Natal português, compensando a saída dos nacionais.
O que esperar de 2026?
Se dezembro de 2025 nos ensina alguma coisa, é que o conceito de “época baixa” está moribundo. O turismo tornou-se uma atividade de ano inteiro. Para quem ainda não viajou e está a ler isto no sofá, fica o aviso: se planeia viajar em dezembro de 2026, comece a pensar nisso em… março. A era das viagens de última hora baratas acabou; bem-vindos à era do planeamento antecipado e do Natal passado nas nuvens.