A fatura final de 400 milhões de dólares faz de Avatar: Fogo o Cinzas, o terceiro título dos cinco de ficção científica (FC) da série Avatar de James Cameron, iniciada em 2009, um dos filmes mais caros da história do cinema. É uma soma descomunal, como descomunal continua a ser a filosofia cinematográfica de Cameron. O realizador de Titanic pretende que este quinteto de fitas seja um espectáculo de proporções nunca vistas e características únicas, graças às inovações tecnológicas especialmente desenvolvidas para ele, e ao mesmo tempo uma epopeia de FC, uma saga familiar e um manifesto ecológico empapado em misticismo New Age.

[Veja o “trailer” de “Avatar: Fogo e Cinzas”:]

Nesta parte três, a família Na’vi de Jake Sully (Sam Worthington) e Neytiri (Zoe Saldaña) está a recuperar dos acontecimentos de Avatar: o Caminho da Água (2022), em especial da morte do filho mais velho. E acolheu no seu seio Spider (Jack Champion), o filho do seu grande inimigo, o coronel Miles Quaritch (Stephen Lang), que apesar de ter morrido em combate naquele filme, ressurgiu como um avatar Na’avi e continua a perseguir obsessivamente os Sully. Sendo humano, Spider não consegue respirar na atmosfera do planeta Pandora, o que dificulta muito a sua vida na nova família. O pai, pelo seu lado, não desistiu de o resgatar.

O enredo de Avatar: Fogo e Cinzas vai levar a família Sully a conhecer e enfrentar uma nova ameaça, e esta também Na’vi. A hostil tribo de piratas Mangkwan, que vive junto a um vulcão e é liderada pela cruel e ambiciosa feiticeira Varang (Oona Chaplin), que não venera Eywa, o superorganismo que é a essência espiritual e a protetora de Pandora. Varang vai acabar por se aliar a Quaritch e aos humanos que estão a explorar implacavelmente, e recorrendo a uma poderosa presença militar, os recursos minerais de Pandora, e ser armada por eles. O que conduzirá a fita a mais uma desmesurada batalha final, agora com a participação das ancestrais, enormes e inteligentes criaturas marinhas que os humanos caçam e ameaçam extinguir.

[Veja uma entrevista com James Cameron:]

Tal como sucedia nos dois primeiros filmes, Avatar: Fogo e Cinzas vive muito de realçar e detalhar o mundo alienígena de Pandora, com as várias tribos Na’vi que coexistem pacificamente e as suas mitologias e tradições partilhadas, o seu ecossistema próprio, a fauna multiforme e a flora luxuriante, e um sistema de espiritualidade partilhado coletivamente e umbilicalmente ligado ao meio ambiente. E que encontra aqui nos violentos e expansionistas Mangkwan, que juram pelo poder destruidor do fogo, um novo e perigoso elemento antagonista. Mas o worldbuilding só por si, e por mais imaginativo e detalhado que seja, não faz um filme.  

[Veja o realizador e o elenco falar do filme:]

Ainda mais do que os dois títulos anteriores, Avatar: Fogo e Cinzas deixa visível o abismo existente entre a macrocefalia visual e o simplismo narrativo, o desequilíbrio entre a espectacularidade da dimensão visual e a banalidade previsível da história. Apesar da novidade da tribo Na’vi rebelde, o enredo da fita é, no essencial, e apesar de um subenredo pueril sobre lealdade familiar, mais um confronto colossal e em grande azáfama, entre terrestres brutais e exploradores, agora com reforços locais, e alienígenas “bons selvagens” e o seu pequeno grupo de aliados humanos. O equivalente, em mistura de acção hard tech, fantasia “National Geographic” cósmica e cantilena místico-ambientalista, de um western tradicional com cowboys, cavalaria e índios.

[Veja uma sequência do filme:]

No meio do seu gigantismo e do seu frenesim, Avatar: Fogo e Cinzas não deixa de ter momentos conseguidos, como o combate entre a “força aérea” dos Na’vi empunhando apenas arcos e flechas, e a dos Mangkwan que dispõem de armas de fogo, ou a carga aquática contra os Marines das lulas tamanho-família com olhos esbugalhados. E Varang é uma vilã com estaleca sensual e maléfica. Mas é muito pouco para um filme tão descomunal, ambicioso e que se estica por mais de três horas, e para um realizador que já nos deu, dentro do género, títulos tão memoráveis como os dois Exterminador Implacável, O Abismo ou Aliens: O Recontro Final — em que, a propósito, os Marines Espaciais eram mais bem tratados do que nestes Avatar.

James Cameron insiste no 3D quando toda a gente já o abandonou, e que volta a não acrescentar nada ao filme e à desejada “imersão” do espectador nele. E apesar do impressionante arsenal de efeitos digitais e da sua estonteante sofisticação, Avatar: Fogo e Cinzas deixa ainda uma sensação de artificial, de sintético, nalguns aspetos da visualização de Pandora e em especial na dos Na’avi, que continuam deficientes em “realismo” na sua personalidade fantasiosa, sobretudo quando estão ao pé dos humanos. Tal como os dois que o antecederam, Avatar: Fogo e Cinzas é invulnerável à crítica, e a exemplo deles, irá decerto fazer receitas astronómicas (e terá que bater todos os recordes para dar lucro). Mas não é por isso que deixa de ser um mastodonte “high tech” com pés de barro.