João Cotrim de Figueiredo deu o pontapé de saída, fintando a pergunta inicial do moderador para destacar a “integridade e transparência” do adversário. Como seria de esperar, o elogio vinha com um senão. “Tem querido dizer que é inspirador e não tenho visto grande coisa; e que é abrangente, mas nem no PS consegue fazer o pleno“. E para mostrar a superioridade da sua candidatura, quis coroar-se o melhor pescador em águas alheias. “Sou o único candidato que consegue transcender a área de origem política”, atirou o liberal.
O socialista ainda agradeceu as primeiras “palavras amáveis” do liberal, mas, na resposta, atirou nomes concretos para a mesa. “Sabe quem é o Ricardo Valente, do Porto? Foi vereador de Rui Moreira durante vários anos, membro da IL, é um dos meus apoiantes.” Seguro argumentou ainda que, a esse nível, Cotrim “não tem para a troca”, sendo que não há qualquer dirigente socialista a apoiar a sua campanha. O ex-líder da IL garantiu que Valente nunca foi membro da direção dos liberais e recentrou a questão: “Mas está de acordo que estou a abranger mais pessoas do que o eleitorado tradicional da minha área?”
Seguro rejeitou estar a “disputar apoios” e pediu mais debate para que se pudessem “diferenciar em termos ideológicos“. Não foi difícil. Sobre a reunião desta terça-feira entre a ministra do Trabalho e a UGT, Cotrim sublinhou que a mesma foi descrita como “produtiva e construtiva”, disse esperar um “acordo aceitável para todas as partes” e pediu ao Governo para não recuar com uma reforma à lei. Lançou mais um desafio a Seguro, pedindo-lhe que dissesse se há alguma medida do pacote laboral que o agrade.
O socialista não respondeu e apenas identificou um aspeto positivo no pacote laboral: “Fico satisfeito que o Governo tenha reconhecido que começou mal”, afirmou, em referência à nova ronda negocial entre Governo e uniões sindicais. Seguro justificou ainda a sua posição contrária à alteração à lei do trabalho, afirmando que esta “não foi apresentada a eleições”, que “não foi atingido um acordo na concertação social” e que a proposta do Executivo “induz precariedade“.
O ex-líder do PS alertava que Cotrim aprovaria o pacote laboral “tal e qual como está” e repetiu um truque utilizado no debate com Marques Mendes: “A sua eleição reforçava o poder absoluto que já existe da direita no nosso sistema político”, acusou. O eurodeputado esforçou-se para desmontar a “muito perigosa” teoria dos ovos no mesmo cesto. “Se durante o seu mandato for eleito um primeiro-ministro do PS faz o quê? Demite-se?”, perguntou Cotrim.
A pergunta ficaria sem resposta e o liberal carregava na ideia de que “nas poucas vezes em que não é vago, Seguro não quer mudar nada”. Foi aí que o candidato apoiado pelo PS recorreu a uma das suas bandeiras esta campanha: um pacto para área da Saúde. “Este Governo tinha tanto por onde começar, podia começar com uma proposta para uma nova organização do SNS”, disse, ainda criticando a aposta na alteração à lei laboral. “Eu gostava de saber o que é que é uma nova organização da saúde. O que é?”, perguntou Cotrim.
“A sua técnica neste debate é fazer-me perguntas para ganhar tempo. O senhor na forma e no marketing é exímio, mas isso não faz um Presidente”, devolveu Seguro. Por sua vez, o eurodeputado pedia “coisas concretas” e perguntou se o oponente tinha as “contas feitas” do modelo de saúde que propõe. Sem se atravessar, o socialista vestiu a capa da defesa da Saúde pública: “O que tem contra o SNS?”
Passando para a discussão a decisão de inconstitucionalidade sobre quatro normas da nova Lei da Nacionalidade, Cotrim admitiu que esta era a decisão “esperada” e pediu ao Parlamento que “não cometa a loucura de insistir naquela redação”, evitando “um braço de ferro com TC” para que se possa “rapidamente ter a lei em vigor”. Na reação, Seguro confessou-se “estupefacto“, lembrando que num evento de campanha o seu adversário tinha admitido promulgar as alterações à lei como Presidente. “O senhor diz uma coisa na Golegã e diz outra coisa aqui”, atirou. O liberal ficou sem resposta durante momentos e acabou por reafirmar que teria promulgado a lei, antes da pronúncia do TC.
De seguida, discutindo os poderes presidenciais, ambos concordaram que um Presidente deve “tratar privadamente” com o primeiro-ministro eventuais pedidos de demissão de governantes. Seguro afastou, porém, vir a ser “um primeiro-ministro sombra em Belém”. O socialista recuperou ainda os seus tempos na política ativa para lembrar que foi ministro de António Guterres e esteve, inclusivamente, encarregue da ponte do Executivo socialista com Belém. “Ao contrário do meu adversário, tenho experiência governativa”, atirou. Cotrim aguardou para responder com o seu currículo no setor privado, quando o debate evoluiu para a discussão de incentivos ao crescimento das pequenas e médias empresas portuguesas. “Se tivesse passado — não digo os meus 35 anos, mas 10 anos — na gestão privada sabia que não é com esse tipo de incentivos fiscais que as empresas se fundem”.
João Cotrim Figueiredo – António José Seguro tem querido dizer que é um candidato que pretende ser inspirador e, francamente, não tenho visto grande coisa; e abrangente e, se nem no PS consegue fazer o pleno, dificilmente conseguirá fazer isso no país. Vou puxar de um galão: ser o único candidato que consegue claramente transcender a sua área de origem política.
(…)
António José Seguro – Sabe quem é o Ricardo Valente, do Porto? Foi vereador de Rui Moreira durante vários anos, membro da IL, é um dos meus apoiantes. É só para lhe dar um exemplo que não tem para troca. Não tem um dirigente nacional do PS que seja seu apoiante.
JCF – Ricardo Valente nunca foi dirigente nacional [da IL].
AJS – Não precisamos de ir…
JCF – Tenho deputados municipais da Assembleia Municipal do Porto, do PS, do meu lado.
AJS – Estamos a falar de dirigentes nacionais. Nós não nos vamos disputar com os apoios, vamos-nos diferenciar em termos ideológicos, da visão que temos para o país.
JCF – Mas está de acordo que estou a abranger mais pessoas do que o eleitorado tradicional da minha área?
AJS – Ouça, no final vamos ver. O povo português no dia 18…
JCF – Fiz essa distinção que me parece factual
AJS – No dia 18 o povo português vai decidir, vai votar e vamos respeitar.