DEBATE COTRIM VS. SEGURO || João Cotrim de Figueiredo começou com elogios a António José Seguro que a seguir pareceram uma armadilha. Depois: Seguro ficou estupefacto. No entretanto: irritaram-se um com o outro, por vezes muito, por vezes assim-assim. No fim: o moderador ironizou, perguntou se já podia fazer o que era esperado dele – perguntas -, depois de tantas perguntas até ali terem sido feitas diretamente entre os candidatos

“É um gosto particular debater consigo, António José Seguro.” João Cotrim de Figueiredo abre o frente a frente desta terça-feira com um elogio, não se fica por aí na panegírica: reconhece “integridade e transparência” ao adversário, qualidades que considera “requisitos básicos” para quem se candidata a Belém. Mas o tom elogioso dura pouco: “O requisito mínimo não chega”. 

Minutos depois, o elogio inicial parece uma miragem armadilhada: Cotrim acusa Seguro de não inspirar, de não mobilizar e de não conseguir sequer construir consensos dentro do próprio PS. “Nem no PS consegue fazer o pleno, dificilmente conseguirá fazê-lo no país.” Pelo contrário, apresentou-se como “o único candidato” capaz de transcender a sua área política e de mobilizar pessoas “praticamente sozinho”, convencido de que chegará à segunda volta.


João Cotrim de Figueiredo no debate desta terça-feira foto Pedro Pina/RTP

A revisão da legislação laboral marca a cadência inicial do debate: Cotrim mostra-se confiante no diálogo que o Governo teve esta terça-feira com a UGT e que terá entretanto com a CGTP, diz que espera um acordo que não represente um recuo do Governo. Seguro traça uma linha vermelha: se fosse Presidente da República, vetaria a lei “tal como estava”.

“A nossa diferença é muito grande”, sublinha Seguro. Para o candidato apoiado pelo PS, a proposta falhou na concertação social, não constava do programa eleitoral e induz precariedade, com efeitos diretos na natalidade e na vida dos jovens. “A precariedade faz com que muitos casais adiem o primeiro filho.”

Cotrim contra-ataca. Diz que aquela era “talvez a única matéria” em que Seguro foi inequívoco – mas não é um elogio, é outra armadilha. “Alguém que se candidata a Presidente e quer mudar o país não pode dizer que nada faz sentido num anteprojeto.”

A discussão evolui para o papel do Presidente da República. Seguro afirma que a sua candidatura serve para equilibrar um sistema político dominado pela direita. Cotrim reage de imediato e ataca a lógica do “equilíbrio de cores”. “Se durante o seu mandato for eleito um Governo do PS, faz o quê? Demite-se?”, questiona, acusando Seguro de defender uma teoria “perigosa” para o equilíbrio institucional.

Seguro responde que estava a ser mal interpretado. “O que eu disse é que o sistema político precisa de equilíbrio e de sensibilidade social.” 

Quando o frente a frente passa para o tema SNS, Cotrim torna-se moderador do debate: pede a Seguro para explicar concretamente o que defende para a saúde, “diga lá!”, é uma exclamação que soa a ordem; Seguro responde que defende um pacto para a saúde, uma nova organização do sistema e melhores condições para captar profissionais. “Não percebi”, afirma Cotrim – que pede a Seguro que diga coisas concretas, é outra armadilha: Cotrim está a tomar conta do debate, torna-se o entrevistador com tantas perguntas e torna-se o provocador de Seguro com tantas insinuações sobre a alegada falta de ideias concretas do candidato apoiado pelo PS. Seguro responde novamente, lembra que Portugal tem mais médicos por habitante do que a média europeia – “mas não estão no SNS” e deviam, defende Seguro. Cotrim insiste: “O que é uma nova organização da saúde?” E volta a insistir na pergunta, está a reforçar a insinuação de que Seguro só diz, no entender do próprio Cotrim, generalidades. Seguro pára com aquilo, com a armadilha: “Eu já percebi. A sua técnica para este debate é só fazer perguntas para ganhar tempo”.

António José Seguro no debate desta terça-feira. (Pedro Pina/RTP)

No tema da Lei da Nacionalidade, Cotrim identifica um “normal funcionamento das instituições” após o chumbo parcial do Tribunal Constitucional e mostrou-se tranquilo quanto às correções necessárias. E vinca: considera legítima a exigência de registo criminal limpo para a atribuição da nacionalidade.

Seguro reage: acusa Cotrim de incoerência e lembra declarações anteriores em que Cotrim teria dito que promulgaria a lei. “Em que é que ficamos?”, pergunta Seguro. “O senhor diz uma coisa na Golegã e outra no estúdio da RTP.”

Cotrim responde que se pronuncia “à luz da atualidade” e que teria mesmo “promulgado” a lei da nacionalidade. Seguro diz que está “estupefacto” mas garante estar “esclarecido”.

No fim, o moderador ironizou: “E agora, já posso fazer uma pergunta?”.