Paleontólogos que atuam no nordeste da China vêm lidando com um enigma desde 2001, quando pequenos restos fósseis de dinossauros foram encontrados na região. Recentemente, uma investigação publicada na revista Journal of Vertebrate Paleontology trouxe esclarecimentos significativos sobre esses achados.

O que era inicialmente interpretado como sendo dinossauros pequenos, medindo cerca de 40 centímetros de comprimento e possuindo características de armadura, foi agora identificado como filhotes de anquilossauros, uma espécie conhecida por sua robustez e que pode alcançar mais de três metros em tamanho. Os fósseis em questão, conhecidos como Liaoningosaurus paradoxus, foram descritos pela primeira vez em 2001, mas somente agora foram reconhecidos como pertencentes a essa categoria específica após duas décadas de pesquisa.

A paleontóloga Pau Barrett, do Museu de História Natural de Londres, destacou em comunicado a relevância dessa pesquisa: “O Liaoningosaurus tem gerado muita discussão porque há muito que não sabemos sobre essa espécie e não conseguimos identificar um adulto. Mas a nossa pesquisa confirma que esses são dinossauros bebês, e não adultos pequenos. Fósseis de anquilossauros jovens são raros, então esses restos podem nos dizer muito sobre o desenvolvimento inicial dos dinossauros blindados.”

O desafio inicial para os pesquisadores foi descartar a possibilidade de que os restos fósseis representassem anquilossauros em miniatura. Essa suposição era apoiada pelo fato de que os fósseis foram descobertos em proximidade uns dos outros e apresentavam dimensões semelhantes. Para elucidar essa questão, a equipe decidiu investigar a estrutura do tecido ósseo de dois espécimes: um deles sendo o maior já encontrado e o outro um dos menores.

A análise do tecido ósseo revelou linhas de crescimento, as quais podem indicar não apenas a idade do indivíduo, mas também a taxa de seu desenvolvimento. Surpreendentemente, as investigações não revelaram linhas nos dois fósseis examinados, sugerindo que ambos tinham menos de um ano.

Frustrados com a falta de informações conclusivas, os cientistas prosseguiram com uma avaliação mais detalhada da microestrutura óssea do fóssil menor. As semelhanças com outras espécies em estágios iniciais foram evidentes, incluindo a presença da linha de eclosão — uma pequena marca circular no osso resultante do momento em que o animal sai do ovo. Essa descoberta indicou que o anquilossauro havia falecido logo após seu nascimento.

Vale mencionar que os primeiros fósseis do Liaoningosaurus, encontrados na província homônima no nordeste da China, datam do período Cretáceo, entre 145 e 66 milhões de anos atrás. A preservação excepcional desses restos é atribuída às condições únicas criadas por atividades vulcânicas que selaram os animais sob camadas de cinzas em lagos rasos.

Ainda assim, a ausência de fósseis adultos limita o entendimento sobre as fases posteriores da vida dessa espécie. Apesar disso, os exemplares juvenis já fornecem percepções importantes sobre o desenvolvimento dos anquilossauros, repercute a Revista Galileu.

Osso da perna de um dos fósseis de anquilossauro descobertos na China / Crédito: Divulgação/Journal of Vertebrate Paleontology

A raridade dos fósseis jovens é notável; quando encontrados, geralmente carecem da armadura característica presente na fase adulta. Isso levou alguns especialistas a questionar se tal proteção óssea estaria ausente ao nascimento. O caso do Liaoningosaurus desafia essa hipótese ao indicar que um certo nível de armadura já se manifestava nas primeiras etapas da vida do animal.

Barrett concluiu: “Como encontramos pouquíssimos fósseis de filhotes, o Liaoningosaurus é realmente a única boa janela que temos para entender como os anquilossauros eram logo após o nascimento. Os fósseis já apresentavam algum tipo de armadura. Agora que sabemos que são filhotes, e não adultos em miniatura, podemos dizer com mais segurança que essas características surgiram muito cedo durante o crescimento do animal.”


Éric Moreira

Éric Moreira é jornalista, formado pelo Centro Universitário Belas Artes de São Paulo. Passa a maior parte do tempo vendo filmes e séries, interessado em jornalismo cultural e grande amante de Arte e História.