ZAP // André Kosters / Lusa; António José Seguro / Flickr; Depositphotos

Debate entre candidatos presidenciais focado em experiência profissional, equilíbrio – e lei da nacionalidade.
Os candidatos presidenciais António José Seguro e João Cotrim de Figueiredo confrontaram-se sobre a sua experiência profissional e capacidade de equilibrarem um sistema político dominado pela direita, num debate em que divergiram em matérias como a saúde ou trabalho.
Num frente a frente transmitido na RTP, a conversa começou com cordialidade e elogios: João Cotrim de Figueiredo, apoiado pela IL, começou por dizer que “é um gosto particular” debater com António José Seguro e reconheceu que o antigo líder do PS é um candidato que tem “qualidades de integridade e transparência”.
Seguro, nos segundos iniciais da sua intervenção, agradeceu as “palavras amáveis” do adversário e sublinhou a “gentileza” de Cotrim, que adiou o debate e encontrou uma nova data quando Seguro estava doente. “Ora essa”, reagiu João Cotrim de Figueiredo.
No meio dos elogios, o candidato apoiado pela IL deixou uma ‘farpa’ quando avisou: “Acho que não chega, é um requisito mínimo e não chega. António José Seguro tem querido dizer que é um candidato que pretende ser inspirador – e eu francamente não tenho visto grande coisa – e abrangente e, se nem no PS consegue fazer o pleno, dificilmente conseguirá fazer isso no país”, referiu.
Cotrim defendeu que é “o único candidato que consegue claramente transcender a sua área de origem política”, o que foi de seguida negado pelo seu adversário, que salientou que, entre os seus apoiantes, tem Ricardo Valente, ex-vereador da Câmara Municipal do Porto e militante da IL.
Seguro pediu, no entanto, que as principais divergências se assinalem no plano ideológico, abordando a questão do pacote laboral apresentado pelo Governo para salientar que, se fosse Presidente da República, o vetaria, enquanto Cotrim Figueiredo o promulgaria.
“Essa é uma diferença muito grande que serve para demonstrar como a sua eventual possível eleição como Presidente da República reforçava o poder absoluto que já existe no nosso espetro político da direita em Portugal”, disse, antes de afirmar que é o único candidato que pode contribuir para a “moderação e equilíbrio do sistema político”.
Cotrim criticou de imediato estas afirmações de António José Seguro, considerando que a “teoria dos ovos e dos cestos” – numa alusão à ideia de que ter personalidades de direita a liderarem todos os órgãos de soberania em Portugal – é “bastante perigosa do ponto de vista do equilíbrio institucional”.
“O que é que vai acontecer, António José Seguro, se, durante o seu mandato, for eleito um Governo do PS, faz o quê? Demite-se? Os cestos, nessa altura, já não têm ovos? Faz o quê?”, perguntou, antes de defender que o fundamental é que os candidatos “sejam independentes relativamente aos detentores do poder executivo”.
Depois, Cotrim acusou Seguro ser “vago em relação às suas propostas”, considerando o pacto para a saúde já apresentado por Seguro não apresenta nada de concreto.
O “golpe”
Os dois candidatos abordaram depois o chumbo da lei da nacionalidade pelo Tribunal Constitucional, com Cotrim Figueiredo a afirmar que o chumbo foi um “normal funcionamento das instituições”, que as normas essenciais foram validadas pelos juízes e que espera que a “Assembleia da República não cometa a loucura de insistir naquela redação”, o que mereceu um reparo de António José Seguro.
“Estou estupefacto a ouvir o João Cotrim Figueiredo sobre esta questão, porque eu ouvi-o a dizer que promulgava esta lei. Disse na Golegã. Em que é ficamos? O senhor diz uma coisa na Golegã e outra aqui no estúdio da RTP”, acusou.
E aqui reinou o silêncio. Cotrim até ficou paralisado, algo pálido, sem saber o que responder. Porque é difícil dizer, ao mesmo tempo, que promulgaria a lei e que espera que o texto dessa lei seja alterado.
“Portanto, em que é que ficamos?”, insistiu Seguro. Após o silêncio e a hesitação, o liberal respondeu: “Promulgava esta lei”. António José Seguro reagiu, a sorrir: “Bem. Estou esclarecido”.
Numa altura em que abordavam aquele que consideram dever ser o comportamento institucional do Presidente da República, Seguro afirmou que não pretende ser “um primeiro-ministro sombra em Belém”, aproveitando para salientar que, ao contrário do seu adversário, tem “experiência governativa”.
“Fui ministro do engenheiro António Guterres, no único Governo a que pertenci. (…) Portanto, conheço bem, tenho experiência de como é que funciona, em relação ao meu adversário”, disse, com Cotrim a acusar Seguro de ter “desvalorizado 35 anos de experiência profissional”.
Depois de concordarem que são necessárias medidas para aumentar a natalidade em Portugal, os dois candidatos divergiram sobre um programa de incentivos fiscais para empresas que se queiram adquirir ou fusionar – plano defendido por Seguro e que Cotrim disse já existir –, antes de terminarem em sintonia na crítica à Estratégia de Segurança Nacional de Donald Trump.