Jean-Claude Hanon/Wikipedia

Vista aérea da ilha de Tromelin.

Em 1776, franceses abandonaram cerca de 80 malgaxes escravizados numa minúscula ilha praticamente sem nada, aproximadamente do tamanho do Parque da Cidade do Porto. Eis a história do naufrágio de Tromelin.

A história que se segue parece o enredo de um filme de aventura, mas é muito mais abominável do que o título indica e aconteceu, no século XVIII, numa ilha francesa do Índico que tem sido praticamente um “fantasma” desde a sua existência.

Assim que comprou (ilegalmente) 160 negros escravizados no Madagáscar, a tripulação da Companhia Francesa das Índias Orientais, liderada por Jean de La Fargue, seguia para Maurícia para os vender quando o seu navio, L’Utile, encalhou num recife de coral e ficou gravemente danificado.

O desastre aconteceu a 31 de julho de 1761. Trancados na cave por medo francês de um motim, apenas cerca de metade das pessoas escravizadas viria a sobreviver ao desastre, enquanto a maioria dos franceses, que viajava mais protegida, saiu com vida do naufrágio.

No entanto, todos os sobreviventes, brancos e negros, encontraram-se perdidos no mesmo local: uma ilha minúscula e desabitada, de apenas 800m². O que encontraram lá? Muito pouco, além de areia e arbustos. Não havia árvores, nem água potável. Estavam completamente perdidos no meio do oceano, em cima de um pedaço cheio de nada.

Contam-nos registos recolhidos em investigações mais tardias que, rapidamente, negros e brancos uniram-se e reuniram tudo o que conseguiram aproveitar do naufrágio. Em dois meses, conseguiram construir um navio improvisado, batizado de La Providence, para regressar a casa. Mas quando o barco ficou pronto para navegar, os franceses avisaram os escravizados: não havia espaço para todos.

Disfarçando uma mentira sob a forma de promessa, só os brancos partiram, deixando para trás dezenas de escravizados, que ficaram à espera dos seus donos que disseram que voltariam para os ir resgatar.

No dia 27 de setembro de 1761, a tripulação branca abandonou a ilha até então desconhecida, mas não voltou como tinha prometido. Afinal, os escravos eram para si apenas mercadoria perdida, uma perda de stock aos olhos franceses. Os altos funcionários franceses recusaram enviar ajuda para resgatar os negros que tinham ficado para trás, possivelmente sob o pretexto de que a Guerra dos Sete Anos estava a decorrer. Ninguém regressou à ilha — durante 15 anos.

“Cultivo impossível, sem água potável”. Como (quase) só mulheres sobreviveram após 15 anos em Tromelin

Em 1776, Jacques Marie Boudin de Tromelin de La Nuguy, alegadamente movido com o objetivo concreto de procurar sobreviventes, voltou a colocar franceses na ilha. Provavelmente nunca pensou que iria encontrar o que encontrou.

Regressando a 2012, um relatório do Senado francês descreve uma ilha “com 1,5 km de comprimento por 0,7 km de largura, […] sem água potável e varrida pelos ventos alísios, o que torna qualquer cultivo impossível e só pode ser alcançada em condições difíceis” — e mesmo assim, quase sem valor económico, a ilha “é ferozmente reivindicada pela República da Maurícia”, descrevia o Le Monde em 2017.

Livres há 15 anos, sete mulheres e um pequeno rapazinho de oito meses de idade viram o navio La Dauphine chegar ao pequeno ilhéu. Tinham sobrevivido à base de caranguejos, tartarugas e alguns peixes e ovos de aves e construído abrigos a partir de corais, pedras e restos da madeira dos destroços. Como roupa, usaram tangas feitas de penas.

E em várias ocasiões tentaram sair da ilha, sem sucesso, revelaram, décadas mais tarde (em 2006), escavações arqueológicas lideradas por Max Guérout, que ajudariam a reconstituir parte desta trágica história. Uma história difícil de ignorar por ‘meia dúzia’ de meteorologistas da Météo France, que trabalharam  na ilha desde 1954 e ficaram habituados a ver, nomeadamente, a simbólica âncora do sombrio naufrágio — dos poucos vestígios que estavam acima da areia antes da equipa de Guérout ir ao local.

“Encontrámos documentos sobre a história do navio e do naufrágio com bastante facilidade, porque os arquivos da Companhia Francesa das Índias Orientais em Lorient estão extraordinariamente bem preservados”, explica Guérout, citado em artigo do Slate. “No entanto, não tínhamos praticamente nenhuma informação sobre o que aconteceu durante os quinze anos em que os náufragos estiveram desaparecidos.”

O arqueólogo revelou que foram recolhidos testemunhos dos sobreviventes, que também sobreviveram numa carta bem preservada.

“Dizem que 18 pessoas partiram rapidamente numa jangada e que várias mulheres morreram durante o parto. Explicam que os náufragos comeram pássaros e tartarugas, que construíram casas, mantiveram o fogo aceso até ao fim e que usavam tangas feitas de penas de pássaros. Isto é praticamente tudo o que sabemos”, adiantou o investigador francês.

“Considerando que esta história é extraordinária, a pessoa a quem o relatório foi dirigido deve tê-lo mostrado à pressa ao vizinho, e o documento acabou por ficar num escritório, sem que ninguém pensasse em recuperá-lo para arquivo”, especula ainda.

Realmente livres?

Aquele pedaço de areia viria a ser identificado mais tarde como ilha de Tromelin, em homenagem a Jacques Marie Boudin de Tromelin de La Nuguy, o capitão que resgatou os oito escravizados a quem foi concedida a liberdade, em Maurícia. Os oito sobreviventes recusaram regressar a casa, no Madagáscar, com medo de voltarem a ficar à mercê dos franceses.

E o resto é história que não se conhece, por falta de registos. Mais um grupo de pessoas silenciadas pela história, apagadas desta. Hoje, resta a cicatriz, marcada naquela ilha desabitada, da lógica desumana do tráfico esclavagista.

Três meses de estadia, no mínimo

Até hoje, os escravizados malgaxes foram os únicos humanos a habitar a ilha (o funcionamento da estação meteorológica francesa automatizado há vários anos). Mas ainda há quem lá vá, num regime de “reality show”.

Hoje em dia, como contava em 2022 a jornalista Emmanuelle Trecolle na AFP, o território ultramarino francês abriga rotações de três meses para garantir presença permanente, manter a pista de aterragem operacional e apoiar programas de estudo e conservação.

A cada trimestre, o navio de reabastecimento Marion Dufresne traz uma nova equipa e abastece a base com toneladas de mantimentos e materiais, muitas vezes transportados por helicóptero: comida, água e equipamentos essenciais para uma comunidade reduzida viver naquela ilha “apertada” que conta com um refeitório, biblioteca, ginásio e o mínimo de quartos.


Tomás Guimarães, ZAP //


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