O motivo pelo qual algumas pessoas experimentam efeitos físicos e mentais duradouros da Covid-19 pode estar ligado à inflamação crônica, de acordo com nova pesquisa que especialistas afirmam poder ajudar a desenvolver novos tratamentos para a doença que continua a afligir milhões.

Algumas pesquisas iniciais sobre a condição sugeriram que os sintomas da Covid longa persistem porque o vírus permanece no corpo das pessoas. Mas o novo estudo publicado na sexta-feira (12) na revista Nature Immunology descobriu que pessoas com Covid longa apresentavam defesas imunológicas ativadas e respostas inflamatórias elevadas por mais de seis meses após a infecção inicial em comparação com aqueles que se recuperaram completamente.

A pesquisa mais recente “leva a uma hipótese de que pode haver alvos terapêuticos relacionados à inflamação que valeriam a pena explorar em estudos clínicos”, dizDan Barouch, autor principal do estudo e diretor do Centro de Virologia e Pesquisa de Vacinas do Centro Médico Beth Israel Deaconess.

As descobertas do estudo sinalizam progresso na compreensão de uma condição que se estima afetar mais de 400 milhões de indivíduos em todo o mundo, enquanto o coronavírus continua a infectar pessoas todos os dias, diz Ziyad Al-Aly, epidemiologista clínico da Universidade Washington em St. Louis que estuda a Covid longa. Não há medicamentos aprovados para o tratamento a condição, deixando os médicos a combater sintomas individuais com várias terapias.

“Este é um pedaço do quebra-cabeça”, afirma Al-Aly, que não esteve envolvido no novo estudo. “É revelador no sentido de que nos dá mais informações de que essas vias parecem estar reguladas para cima ou ativadas em pessoas com Covid longa.”

O que significa a nova pesquisa?

Qualquer pessoa, independentemente da idade ou gravidade dos sintomas originais, pode desenvolver Covid longa, embora algumas pessoas tenham um risco maior, de acordo com a OMS (Organização Mundial da Saúde).

As pessoas relataram uma constelação de sintomas, até 200 diferentes, incluindo névoa cerebral, fadiga, tontura, problemas gastrointestinais, palpitações cardíacas e problemas com o desejo sexual. Os efeitos podem estar presentes quatro ou mais semanas após a infecção com Sars-CoV-2, e podem durar semanas, meses ou até anos.

Os pesquisadores estudaram pessoas durante os primeiros anos da pandemia de 2020 a 2021, bem como outro grupo entre 2023 e 2024. Os 180 participantes incluíam pessoas saudáveis, infectadas com o coronavírus mas que se recuperaram completamente, e pessoas com Covid longa. Os cientistas analisaram níveis de proteínas, níveis de expressão gênica, respostas imunológicas e medições virais para ver se havia diferenças entre as pessoas que desenvolveram sintomas persistentes.

Em ambos os grupos, os pesquisadores observaram que múltiplas vias inflamatórias —como o corpo responde quando está ferido ou combatendo infecção— foram desencadeadas e permaneceram ativadas em pessoas com Covid longa.

“Especularíamos que a infecção inicial por Covid desencadeou inflamação crônica no hospedeiro e que provavelmente não é o único fator, mas provavelmente um dos fatores que foi associado à Covid longa posteriormente”, diz Barouch. Ele observa que, embora os pesquisadores não tivessem acesso a dados anteriores à infecção dos pacientes, eles não tinham “nenhuma razão para suspeitar” que essas pessoas já tivessem inflamação crônica.

Barouch afirma que as descobertas de seu estudo foram limitadas, em parte, por um pequeno grupo de participantes. Embora os pesquisadores tenham documentado observações semelhantes entre ambos os grupos, o que sugere que as descobertas poderiam ser generalizadas, ele pontua a necessidade de estudos maiores de populações mais diversas acompanhadas ao longo do tempo.

Com base nos dados do estudo, Barouch diz que iniciou um ensaio clínico para testar um medicamento anti-inflamatório que é tipicamente usado para tratar eczema e que tem como alvo uma dessas vias. O ensaio recrutou 45 participantes e está em andamento, diz ele.

Ele também alerta que mais pesquisas precisam ser feitas. Ainda permanecem questões, diz ele, sobre se o uso de um medicamento em uma via é suficiente para tratar a covid longa quando múltiplas vias estão ativadas.

Cuide-se

Quais são as novidades sobre tratamentos?

Entender as causas biológicas da Covid longa é fundamental para desenvolver tratamentos, dizem Barouch e outros especialistas.

Como algumas pesquisas sugeriram que o coronavírus poderia estar persistindo em pessoas com Covid longa, houve estudos do antiviral Paxlovid, que é usado para tratar infecções agudas da Covid-19. Pelo menos dois estudos iniciais usando o medicamento para tratamento de Covid longa não mostraram eficácia terapêutica, mas outras pesquisas estão em andamento.

Barouch destaca que sua pesquisa não contradiz nenhuma teoria existente, mas adiciona dados que podem ser usados para apoiar mais estudos de outras terapias.

O novo estudo marca uma mudança bem-vinda em direção a mais investigação de tratamentos alternativos, diz Alba Azola, médica de reabilitação e co-diretora da Clínica de Covid Longa/Síndrome de Fadiga Crônica da Johns Hopkins Medicine.

A Covid longa pode ter diferentes vias biológicas e respostas a tratamentos.

“Se pudermos chegar a um ponto onde potencialmente encontremos biológicos específicos que serão eficazes contra as vias que estamos vendo em comum, isso pode nos dar uma arma maior para atingir mais desses sintomas que estão se apresentando”, diz Azola.