Todas as semanas, publicamos contos ficcionais sobre o amor, a partir de casos reais.

Chamo-me Vítor e estive casado com a Maria da Luz durante mais de vinte anos. Conhecemo-nos ainda miúdos, na escola primária da aldeia onde ambos nascemos e crescemos. Sentávamo-nos na mesma fila, partilhávamos o mesmo caminho de regresso a casa, os mesmos recreios, os mesmos silêncios. Aos 19 anos, quando muitos ainda não sabem quem são, nós achámos que sabíamos tudo. Casámos cedo, porque “era o normal”, porque toda a gente esperava isso, porque sempre andámos juntos e ninguém questionava que assim continuasse a ser.

Construímos uma vida inteira lado a lado. Tivemos dois filhos — um rapaz e uma rapariga — hoje já adultos, independentes, com as suas próprias vidas. Fomos uma família respeitada na aldeia. Trabalhadores. Discretos. Nunca demos motivos para falatório. Por fora, éramos um casamento sólido. Por dentro… eu carregava um segredo que me acompanhava desde sempre.

Nunca soube dar nome ao que sentia. Desde novo percebia que o meu olhar demorava mais nos rapazes do que devia. Que havia uma inquietação que não desaparecia. Cresci num tempo e num lugar onde isso não se dizia, não se pensava, não se admitia. Casei com a Maria da Luz porque gostava dela, porque a estimava, porque achava que o amor podia ser aprendido. E durante muitos anos convenci-me de que bastava.

Com o tempo, a chama apagou-se. A rotina ocupou tudo. Tornámo-nos companheiros de casa, gestores da família, pais dedicados, mas deixámos de ser casal. Dormíamos juntos, mas longe. Falávamos do dia a dia, nunca de nós.

No início de dezembro, no dia do meu aniversário, a Maria da Luz tentou algo diferente. Preparou o ambiente romântico na sala: velas acesas, a mesa posta com cuidado, uma música baixa a tocar. Vestiu um vestido que já não usava há anos e que eu sempre elogiara.

Tinha-lhe dito que ia chegar cedo, mas não aconteceu. “Tenho de trabalhar até tarde”, disse eu ao telefone quando ela ligou. Não era verdade.

Quando finalmente regressei, já de madrugada, não reparei logo que a luz da cozinha ainda estava acesa. Estacionei o carro e despedi-me do homem que me acompanhava. Um beijo demorado, daqueles que não deixam dúvidas a quem vê.

A Maria da Luz viu tudo da janela.

Mal abri a porta, ela estava à minha frente. Não gritou. Não chorou. Perguntou apenas:

— Há quanto tempo?

Não confirmei. Mas também não neguei. Acho que naquele momento já não tinha forças para continuar a mentir.

No dia seguinte, sentámo-nos à mesa da cozinha como tantas outras vezes, mas nunca tinha sido assim. Contei-lhe a verdade: que sempre sentira atração por homens, que nunca soubera como lidar com isso, que o medo do julgamento me tinha paralisado durante décadas. Ela ouviu em silêncio. Depois disse que se sentia enganada, usada, como se toda a vida que tinham construído fosse uma encenação.

Pensou em pôr-me fora de casa naquele mesmo dia. Acabámos por decidir que eu ficaria até encontrar outro sítio. Era um acordo frágil, sustentado pelo cansaço e pela história que nos ligava.

Chegou o Natal.

Como sempre, a casa encheu-se. Os nossos filhos, os irmãos dela, os meus, sobrinhos, risos, pratos a mais na mesa. Fizemos o possível para manter as aparências. Eu sentia-me um intruso na minha própria casa.

Durante a ceia, depois do vinho, quando já todos falavam ao mesmo tempo, a Maria da Luz levantou-se. Pediu silêncio. Olhou para mim e depois para os outros.

— Há coisas que já não consigo guardar — disse. — O Vítor tem um amante. Um homem. E enganou-me durante mais de vinte anos.

O silêncio caiu como uma pancada. Senti o sangue fugir-me da cara. Olhares cravaram-se em mim. Alguns chocados. Outros confusos. Outros cheios de pena. Os meus filhos ficaram imóveis, como se o chão lhes tivesse desaparecido debaixo dos pés.

Nunca me esquecerei daquela humilhação. Não por terem sabido — isso era inevitável — mas pela forma, pelo momento, pela exposição pública de algo que eu próprio ainda estava a tentar compreender.

Pouco depois saí de casa. Não consegui ficar.

Hoje, um ano depois, vivo com o homem por quem me apaixonei. Pela primeira vez, sinto que não estou a representar um papel. Os meus filhos aceitaram-me melhor do que eu alguma vez esperei. Falaram comigo, ouviram-me, abraçaram-me.

A Maria da Luz seguiu o seu caminho. Não lhe guardo ódio. Houve dor de ambos os lados. Fizemos o melhor que soubemos com as ferramentas que tínhamos.

Perdi um casamento. Mas ganhei a possibilidade de ser inteiro.

E, apesar da noite de Natal que nunca esquecerei, aprendi que a verdade, mesmo quando chega tarde e de forma cruel, acaba sempre por libertar.

Este conteúdo contou com a participação de inteligência artificial na sua elaboração.

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