
Um novo estudo revelou que as proteínas do nosso sangue podem prever o risco de morte precoce.
Imagine se um simples teste ao sangue pudesse oferecer um vislumbre da sua saúde futura. Não apenas se tem hoje uma doença cardíaca ou cancro, mas se o seu risco global de morrer nos próximos cinco ou dez anos é superior ou inferior ao esperado.
É o tipo de ideia que tem pairado nas margens da medicina há décadas, surgindo nos títulos sempre que é descoberto um novo biomarcador. Na prática, porém, a previsão da saúde a longo prazo tem permanecido frustrantemente imprecisa.
Os médicos continuam a basear-se fortemente na idade, no peso, no historial tabágico e num pequeno conjunto de análises sanguíneas de rotina, a maioria das quais fornece apenas estimativas amplas ao nível populacional.
Ao mesmo tempo, a medicina moderna está a avançar rapidamente no sentido da deteção precoce e da prevenção. Os sistemas de saúde em todo o mundo estão a debater-se com o aumento das taxas de doença crónica e com o envelhecimento das populações.
Os clínicos precisam de cada vez mais de ferramentas que consigam identificar riscos antes do aparecimento de sintomas, permitindo uma intervenção mais precoce. A questão é saber se os indícios da saúde futura já poderão estar a circular no nosso sangue.
É isso que explora um novo estudo, publicado em novembro na PLOS One.
Ao medir milhares de proteínas no sangue de dezenas de milhares de pessoas e ao acompanhar quem sobreviveu ou morreu ao longo do tempo, descobriu-se que certos padrões de proteínas parecem estar associados a um maior risco de morrer por qualquer causa que não seja acidental.
A análise utilizou dados de mais de 38.000 adultos com idades entre os 39 e os 70 anos que participaram no estudo UK Biobank. Os participantes deram amostras de sangue e dados contínuos e abrangentes sobre saúde e estilo de vida.
Depois de ter em conta fatores de risco já conhecidos por afetarem negativamente a esperança de vida, como a idade, o índice de massa corporal (IMC) e o tabagismo, foram identificadas centenas de proteínas associadas à probabilidade global de morrer por qualquer causa, bem como à probabilidade de morrer de doenças específicas, incluindo cancro e doença cardiovascular.
Como detalha a autora correspondente do estudo, Nophar Geifman , num artigo no The Conversation, a equipa de investigação filtrou essas longas listas para isolar um pequeno número de proteínas conhecidas como painéis de proteínas. Estes painéis continham dez proteínas associadas ao risco de mortalidade por todas as causas a dez anos, e seis proteínas associadas ao risco a cinco anos.
Estes painéis melhoraram a capacidade de previsão em relação aos modelos tradicionais que se baseiam na idade, no IMC e em fatores de estilo de vida. Em termos estatísticos, os modelos baseados apenas em dados demográficos e de estilo de vida tiveram um desempenho fraco, com uma precisão próxima do aleatório. Os modelos que incorporaram os painéis de proteínas tiveram melhor desempenho, embora os ganhos continuassem a ser limitados.
Isto sugeriu que algumas proteínas no sangue podem transportar sinais ocultos sobre a saúde a longo prazo que vão além das doenças atuais.
Fatores de risco tradicionais como a idade, o peso, o tabagismo, o consumo de álcool e a atividade física oferecem pistas importantes, mas frequentemente imprecisas, sobre o declínio da saúde. As proteínas sanguíneas, por contraste, fornecem instantâneos em tempo real do que está a acontecer no interior do corpo.
Algumas podem refletir alterações crónicas lentas, como inflamação de baixo grau, degradação de tecidos ou stress subtil de órgãos. Outras podem indicar riscos mais imediatos ligados ao coração, aos vasos sanguíneos ou ao sistema imunitário. O novo estudo mostra que o risco de morrer também pode ser parcialmente captado nos níveis de proteínas circulantes.
Longe de ser teste perfeito
Ainda assim, este está longe de ser um teste perfeito, alertam os investigadores. O poder preditivo é melhor do que o acaso, mas continua a ser modesto. Estas assinaturas proteicas não podem ser tratadas como indicadores definitivos de quando alguém irá morrer. Poderão, no entanto, com validação adicional, funcionar mais como um aviso que pode levar a uma ação precoce.
Além disso, o estudo centrou-se também apenas em associações. As proteínas podem não estar a causar o aumento do risco. Podem simplesmente ser marcadores de processos biológicos subjacentes que ainda não produziram sintomas.
Os autores observam ainda que combinar todas as causas de morte num único desfecho dificulta a interpretação. Isto porque os caminhos que conduzem à morte variam amplamente. Doenças cardíacas, cancro, infeções e falência de órgãos envolvem mecanismos biológicos muito diferentes.
Mesmo com estas ressalvas, os resultados apontam para um futuro em que os testes sanguíneos de rotina poderão ir além do diagnóstico da doença atual. Um simples instantâneo poderá alertar os médicos de que um doente enfrenta um risco elevado de declínio da saúde, mesmo quando nada de óbvio parece estar errado. Isto poderá desencadear ações mais precoces, como uma monitorização mais apertada, aconselhamento sobre o estilo de vida ou tratamentos preventivos.
Este tipo de estratificação de risco está a tornar-se cada vez mais importante à medida que as populações envelhecem e as taxas de doença crónica aumentam, colocando uma pressão crescente sobre os sistemas de saúde. Um teste deste tipo poderá ajudar os médicos a direcionar os cuidados de forma mais eficaz.