Nuno Loureiro e Cláudio Valente frequentaram juntos o curso de Engenharia Física e Tecnológica. Mais de duas décadas depois, Cláudio Valente matou a tiro Nuno Loureiro. A filha da vítima assistiu a tudo. “John”, um anónimo, ajudou a desvendar o caso

 

FOTOGRAFIAS DE AMBOS NO IST

 

TRÊS MORTOS

Tudo começou com um tiroteio na Universidade Brown, uma das mais reputadas dos Estados Unidos, durante o qual morreram duas pessoas. Dias depois, Nuno Loureiro foi assassinado a tiro em casa, em Boston. Foi o ministro dos Negócios Estrangeiros português, Paulo Rangel, a anunciar a morte do brilhante cientista português. Dias depois soube-se que foi outro português a estar na origem de tudo – tanto do tiroteio na universidade como no assassínio de Nuno Loureiro

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Cerca de 45 alunos entraram na faculdade naquele ano. Estavam entre os mais brilhantes dos brilhantes, com médias que por vezes até fazem corar Medicina. Nuno Loureiro e Cláudio Valente começaram assim, há 30 anos, no Instituto Superior Técnico (IST).

Entraram juntos no ano de 1995 para frequentar o curso de Engenharia Física e Tecnológica, que, à data, era dividido por duas turmas mas cujos alunos partilhavam perto de 90% das aulas.

Diz quem os conheceu que eram os melhores dos melhores. Tanto que Cláudio Valente foi convidado, logo no terceiro ano, para dar aulas enquanto ainda era aluno. Era o que acontecia no IST com os melhores estudantes.

Puxamos a fita à frente, bem à frente, e tudo isto acaba em tragédia. Os dois colegas acabam no meio de um caso que chocou os Estados Unidos e, por arrasto, Portugal.

O homem que se procurava há quase uma semana por aquilo que se pensava ter sido mais um tiroteio indiscriminado numa instituição de ensino norte-americana era finalmente identificado.

Cláudio Manuel Neves Valente – ou Neves-Valente, como escreveram as televisões norte-americanas – era o rosto que um utilizador do Reddit reconheceu e que as câmaras acompanharam por toda a cidade de Providence, que entrou em sobressalto com o ataque a uma das melhores universidades do país. A publicação desse homem naquela rede social foi a chave para a investigação avançar.

A Brown faz parte da Ivy League – também é das melhores entre as melhores – e foi surpreendida com um homem mascarado que entrou numa aula de Economia a disparar contra tudo e contra todos.

Ella Cook e Mukhammad Aziz Umurzokov foram mortalmente apanhados pelos tiros ocorridos quando um jovem professor de 21 anos dava uma aula opcional de revisão para o exame final de Economia.

O atirador era o mascarado, era Cláudio Valente, que tinha frequentado aquela mesma universidade no início do século, depois de se ter graduado ainda com a licenciatura de cinco anos, antes do Acordo de Bolonha, e que atualmente corresponde ao grau de mestrado. Foi lá que tentou continuar a estudar a sua área, a Física, conseguindo entrar na reputada instituição em 2000.

Acabou por tirar uma licença pouco depois, em abril de 2001, antes de dar por completamente terminada a sua relação com a Brown, em 2003.

Como escreve o New York Times, já aí havia preocupação com Cláudio Valente, nomeadamente da parte da família, que não o via desde que o português foi para os Estados Unidos.

Mirita Domingues é próxima da família e falou ao jornal norte-americano, referindo que Cláudio Valente, o outrora melhor aluno do curso e que antes disso até participou nas Olimpíadas Internacionais de Física, na Austrália, desapareceu por completo.

“Estão devastados. A mãe dele dizia esta manhã que estava sempre preocupada que a próxima vez que ouvisse falar dele, ele estaria morto”, contou, sabendo-se agora que o receio da mãe se confirmou.

Durante o curto período que lá passou, na Brown,, foi entre os edifícios de Barus e Holley, onde o tiroteio ocorreu, que passou a maior parte do tempo. Um estudante introvertido e demasiado stressado com a escola, de acordo com Luk Chong Yeung, um brasileiro que estudou na Brown na mesma altura de Cláudio Valente e que costumava interagir com o português num grupo de estudantes falantes de português.

“Ele era um bocado deslocado”, afirmou este homem, hoje com 49 anos, ao New York Times.

Também àquele jornal norte-americano, um professor de Física de Syracuse, em Nova Iorque, descreve Cláudio Valente como um homem que podia ser “bom e gentil” mas que tinha “momentos”. Scott Watson descreveu-se como o amigo mais próximo que o português tinha, relembrando-o como brilhante, sim, mas com alguns problemas.

“Uma vez tive de separar uma briga”, recordou o professor, falando sobre a relação entre Cláudio Valente e uma colega brasileira que o português por vezes maltratava, chegando mesmo a apelidá-la como escrava dele.

Teorias da conspiração

Depois de matar Ella Cook e Mukhammad Aziz Umurzokov e de ferir nove pessoas, Cláudio Valente conseguiu escapar à polícia: andou vários quilómetros por Providence, de onde seguiu para Brookline, perto de Boston, já no estado do Massachussets.

Dois dias depois sabia-se que Nuno Loureiro, um brilhante físico português que liderava um centro de investigação nuclear do Instituto de Tecnologia de Massachussets (MIT), tinha sido morto a tiro em casa. Não se sabia por quem.

A notícia da morte de Nuno Loureiro, que foi lamentada por toda a comunidade científica de Portugal e dos Estados Unidos, foi dada de forma surpreendente pelo ministro dos Negócios Estrangeiros, Paulo Rangel.

Rapidamente surgiram teorias de conspiração sobre a morte de Nuno Loureiro, como, por exemplo, estar a par de informação sensível desenvolvida no MIT.

Acabaria por se descobrir que foi um colega seu de há 25 anos a matá-lo à frente da filha. Cláudio Valente chegou a Brookline e foi até casa de Nuno Loureiro, com quem não se sabe se mantinha relação, para o matar.

Percorreu praticamente toda a costa para chegar até aqui, já que a sua última morada conhecida é em Miami, na Florida.

Semanas antes do ataque, Cláudio Valente alugou um pequeno armazém em Salem, New Hampshire, a norte de Brookline e Providence. Já depois disso há registo do aluguer de um Nissan Sentra em Boston, a 1 de dezembro.

Foi com esse carro que chegou até à Brown, foi nesse carro que foi visto por “John”, o anónimo que ajudou a desvendar tudo e a ligar as mortes na universidade ao homicídio de Nuno Loureiro.

O carro acabaria por ser encontrado, tal como o corpo do próprio Cláudio Valente, nessa mesma garagem alugada, onde estavam também algumas armas.

Neste momento, e como assume o procurador-geral de Rhode Island, existe uma série de “incertezas”, incluindo o “mistério” do porquê do ataque à Brown, onde Cláudio Valente estudou anos antes.