É uma automotora vermelha com capacidade para o transporte de mais de 200 pessoas sentadas (podem chegar às 369 com os passageiros que viajam de pé) e vai ser usada no serviço regional da CP no final do segundo semestre do próximo ano. É a primeira a chegar a Portugal de uma encomenda de 22 unidades adjudicadas já em 2019. É a primeira de um ciclo de renovação de material circulante que vai chegar perto das duas centenas. E é também o primeiro comboio novinho em folha que a CP recebe em mais de 20 anos.
Sem contar com unidades compradas em segunda mão à Renfe e remodeladas, a CP recebeu os últimos comboios novos (cuja montagem ainda passou pela antiga Sorefame na Amadora) entre 2002 e 2004. Tiveram como destino as linhas urbanas do Porto, adiantou ao Observador o presidente da CP. Pedro Moreira falava à margem da apresentação das automotoras fabricadas pela Stadler que se realizou no parque oficinal da empresa no Entroncamento esta sexta-feira. O gestor já tinha assinalado em comunicado este “marco histórico”.
A primeira automotora a chegar a Portugal é uma das 12 que têm tração bimodo (podem operar em modo elétrico e a diesel), sendo que a encomenda contempla 10 unidades apenas elétricas. As primeiras unidades vão ser submetidas a processos de certificação e homologação e só deverão entrar em operação no final do próximo ano. Segundo a CP, os novos comboios do modelo FLIRT podem atingir uma velocidade máxima de 160 quilómetros por hora e vão integrar a série 2700.
Interior da nova automora da CP
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As novas automotoras antecipam um ciclo que se espera de profunda remodelação da frota da CP, que poderá chegar às 200 novas unidades, incluindo já o material circulante para a exploração do serviço de alta velocidade.
A maior fatia destas 200 unidades está inserida num contrato feito com um consórcio liderado pela Alstom que, ao contrário desta encomenda que está a ser totalmente fabricada em Espanha, estabelece que uma parte do fabrico passe por Portugal. Esta encomenda prevê a compra de 117 unidades (62 urbanos e 55 regionais) para os serviços urbano e regional da CP, mas está com um atraso superior a um ano, devido a uma longa litigância nos tribunais por parte dos concorrentes que perderam o concurso. O contrato foi finalmente assinado em outubro deste ano, mas ainda tem de receber o visto do Tribunal de Contas. Os primeiros comboios desta encomenda só devem chegar à CP em 2029.
Este investimento de 746 milhões de euros é o maior contrato de compra de comboios da história da CP que foi lançado no final de 2021 quando o ministro do PS, Pedro Nuno Santos, tinha a pasta das Infraestruturas. E veio juntar-se à compra das 22 automotoras (decididas no tempo do ministro Pedro Marques no primeiro Governo de António Costa) cuja encomenda ascende a 158 milhões de euros. Também este contrato sofreu demoras por litigância e essa demora é uma das razões pelas quais o Governo já autorizou a CP a antecipar o exercício da opção de compra de mais 36 unidades elétricas, um processo que está a ser avaliado pela empresa e que ainda não tem um valor conhecido.
Os dois contratos (da Stadler e da Alstom) representam mais 175 comboios novos para a CP, incluindo já a opção para o fabrico de mais 36 que vão chegar ao longo próxima década. A este número falta juntar o material circulante para a operação nas linhas de alta velocidade. Este concurso já estava previsto há um ano, mas ainda não teve luz verde do Governo (que entretanto mudou por causa das eleições, ainda que mantendo o ministro das Infraestruturas). Segundo Miguel Pinto Luz, este concurso será lançado em janeiro do próximo ano. O número de composições não é conhecido, mas deverá elevar a renovação da frota da CP até às 200 unidades referidas pelo ministro das Infraestruturas.
Segundo Pinto Luz, a operadora pública já sinalizou que este número não chega. A CP precisaria de quase o dobro, dando como exemplo de obsolescência da frota da empresa o facto do mais novo dos comboios regionais ter mais de 40 anos. Apesar de ter recebido “processos tumultuosos” do passado (numa referência aos processos judiciais que atrasaram os concursos lançados pelos executivos de António Costa) o ministro das Infraestruturas não deixou de agradecer aos governos anteriores e avisou que “não pode voltar a acontecer” um período tão longo de não investimento.
Também presente no evento, a ministra do Ambiente e Energia, Maria da Graça Carvalho, salientou que os transportes são o setor que menos está a cortar nas emissões do CO2 e que Portugal não conseguirá cumprir as metas do Plano Nacional de Energia e Clima se a redução nesta atividade não acelerar.